por André B. Ferreira
Quando eu tinha ali por oito anos, minha avó materna me deu um boneco do Super-Homem, feito por ela, de pano colorido, o uniforme todo bordado no corpo, além da capa vermelha costurada no pescoço. Achei bacana aquele presente original. Brinquei com ele por uns anos, mas confesso que acabei deixando o boneco para trás. Perdeu-se no tempo. Só restou a lembrança.
Já na minha adolescência, minha avó Lourdes foi a primeira incentivadora dos meus escritos incipientes. Uma vez ela me levou para conhecer uma poetisa, que entendi que era parente sua e cujo nome apenas recordo era Sofia. Dos meus poemas, sem rimas, carregados de emoção, garranchos em blocos de folhas de rascunho grampeadas, também só restou a lembrança.
Não sei dizer o que a minha avó viu naquelas linhas tortas e hieroglíficas para me incentivar a escrever, mas tenho um palpite. Talvez não fossem os garranchos, mas o brilho no meu olho, quando tudo aquilo que existia lá dentro do meu ser começou a brotar caudaloso e intenso. Finalmente, e de um jeito que me tornava visível. De um jeito que eu mesmo fazia sentido em um mundo sem um lugar para mim. Acho que ela viu isso, acho que ela me viu.
Mas somos todos filhos do tempo. E ele é um pai cruel. Como eu gostaria de poder tocar novamente aquele brinquedo feito pelas mãos dela só para mim. Amor em forma de boneco de pano, do coração dela para o meu. Maravilhoso então, seria poder sentir de novo aquelas mãos quentes, que me acolheram tanto.
Nunca aprendi a fazer bonecos de pano, arte misteriosa e gentil. Meu jeito de acolher e compartilhar é a escrita, agora entendo. Mas isso a minha avó já sabia. Passados tantos anos, escrevo para me encontrar no mundo, para ser. Mas também por gratidão e respeito pela fé que um dia ela teve em mim. Foi o seu presente mais lindo. Esse, o tempo não vai levar embora.

André B. Ferreira é escritor, revisor em formação, servidor público, licenciado em Letras, especialista em Estudos da Linguagem, terminando o Curso de Formação de Escritores, da Metamorfose. Entende que boas histórias são capazes de transformar as pessoas e o mundo ao seu redor. Escreve Fantasia. Em especial, embora não apenas, para jovens leitores, misturando realismo e imaginação em jornadas sobre coragem, pertencimento e transformação.
Teve contos publicados em antologias do concurso Histórias de Trabalho, da Secretaria de Cultura de Porto Alegre/RS nos anos 2007 e 2012 e, em 2019, no livro Sementes, resultado do Primeiro Concurso Nacional de Contos do TRE/PR.
Atualmente, trabalha em uma nova história de Fantasia Urbana para publicação.