A Mercedes Benz chegou. Meu amigo Paulo desembarcou. Sempre o mesmo terno, o mesmo celular na mão. Ele não gosta muito daqui beber cerveja em copo americano não é muito a dele. Ele me ligou, está se sentido sozinho, coitado, tão realizado quanto fracassado, vamos terminar nossa conversa, mas agora em um lugar mais descontraído, pelo menos para mim.
- Fala Paulino. Tudo certo, Man? Sente-se. A cadeira é de ferro 'tá' um pouco enferrujada, mas não passa tétano.
Ele respondeu com um sorriso amarelo, apertou minha mão, relaxou no encosto como se estivesse descarregado de suas costas o peso de uma betoneira.
- Paulo Paulino, sempre o mesmo terno.
- E você, sempre uma camisa do Led Zepelim e a barba por fazer.
- É verdade, o bom é que não vivo de aparecias.
A resposta o bateu como um soco no estomago. – com perdão do clichê- mas sou o amigo que sempre fala o que precisa ser dito, ele não rebateu.
- Meu amigo, eu estou perdido, me sinto sufocado. Clarice novamente.
Tomei um gole da cerveja, comecei a encher o copo dele.
- Ué? Vocês pareciam tão bem nas fotos do aniversário da sua sogra.
- Sou um advogado de sucesso, preciso vender minha imagem.
- Paulo. – Dei mais um gole na cerveja, ajeitei meus óculos escuro e respirei – Vender imagem ou viver de aparência? Porque há diferença.
- Minha vida é um universo que você não entende.
-Paulo Paulino, não conheço uma só pessoa que sofra, a vida é um luxo. No final todo se resumi num bom churrasco, uma noite de pizza, uma festa regadas de bebidas finas e mulheres se fotografando.
- Sim, Onde você quer chegar?
- Será que só eu tenho problemas? Será que só minha vida tem erros, imoralidades, ações vil? Queria eu poder contar com momentos estravagantes, luxo, mulheres e viagens. Mas Não! Minha vida me esmurra. Apanho com força. – Tomo mais um gole, olho nos olhos do meu amigo – Eu sei lhe dar com isso. Será que você sabe lidar? Crescemos juntos, éramos dois jovens vagando pelo mundo, sempre indo para onde o vento soprava.
- É Roberto, você é o único que me conhece na essência, sabe de onde eu venho. Não sei como, mas tudo isso se perdeu. Preciso de ajuda.
O atendente trouxe outra cerveja, esperei o rapaz sair.
- Todos os dias pela manhã, quando se levanta, sua mente como um projetor te mostra toda luta que terás naquele dia. Tudo aquilo que você conquistar, em troca me custará algo precioso, e assim vai vivendo sempre com o dilema entre o que quer conquistar e o que irá perder em troca. Daí você olha para as redes sociais, vê seus amigos, colegas de trabalho, todos felizes, sem ruga alguma.
- Conclua, por favor.
- Considerando que tudo, absolutamente tudo que acontece na vida destes felizardos viram stories e reels, mas com você? O que acontece com você?
- Beto. Paulo olhou para o teto, caçou levemente a cabeça - Sinto que na minha vida não acontece absolutamente nada, que apesar de tudo, carro, cobertura, crianças, não ando para frente.
- Então fabricas um momento falso, com um sorriso bonito. O problema que essa falsa aparecia, é na verdade a porta dos fundos de um restaurante de luxo, no qual esconde o caos de uma cozinha, suja, desorganizada, fedorenta e cheia de ratos. Eu sei que olhaste para sua volta e concluíste que tua vida é tão miserável e mesquinha, que, para ter uma ter um minuto de felicidade, sente a necessidade de aparentar "o sucesso personificado" e assim, vai nutrindo o holograma de uma vida boa, saudável, prospera e cheia de conquistas. Os comentários com admiração, elogios e os olhares que te invejam, compõe o combo que te faz ficar bem consigo mesmo.
- Mas Roberto, não sei por onde começar. Não sei mais sorrir de verdade.
- Claro que sim Paulo Paulino. Sou seu amigo, apesar de meio hippie, mas te falo a verdade que precisa ouvir, mas não se preocupe, uma sociedade inteira se comporta assim.
Paulo olhou para os lados, começou a escorrer uma lagrima.
- O que eu faço Beto?
- Liberte-se. Olhe para mim. Sempre a camisa do Led Zepelim, óculos escuros, calça desbotada e tênis All Star. Não ligo para o seu julgamento, nem dos outros, vivo exatamente como se deve viver, apenas sendo eu, com meus perrengues, minhas glorias, minhas perdas e meus ganhos. Você não precisa usar uma camisa de rock e dirigir um Palio, mas seja fiel ao seus valores.
- A Clarice, eu não aguento mais.
- Recomesse, avance, se você ficar parado sua cabeça não vai aguentar.
- Meu casamento foi tão, tão, do jeito que ela sonhou.
- Seus sonhos, não necessariamente destrói tudo aquilo que vocês conquistaram juntos.
- Beto, os sonhos sempre foram dela. Ela é egoísta, não é parceira, nosso casamento é tão pobre no amor.
- Viva Paulino! Viva então sozinho, mas como tu queres. Você é um homem vivido, viajou o mundo, conhece culturas. Sei que você pensa nas crianças, sim haverá o custo de não estar com eles todos os dias, mas não será perdido um decimo do amor de vocês.
Paulo se levantou, tomou sua cerveja num gole, o acompanhei, nos abraçamos, um abraço que demorou mais que o tempo que ponteiro dos segundos dá no relógio.
- Obrigado Beto.
Neste mesmo instante começou uma chuva forte, destas que lavam a alma. Paulo soltou um grito a todo pulmão, correu para a rua, começou a sorrir, rodopiava na chuva, olhava para o céu, olhou para dentro do bar, para mim ele fez um sinal brega de coração com as mãos.