por Rodrigo de Mello
O Mercedes Benz chegou. Meu amigo Paulo desembarcou. Sempre o mesmo terno, o mesmo celular na mão. Ele não gosta muito daqui, beber cerveja em copo americano não é muito a dele.
Ele me ligou, está se sentido sozinho, coitado, tão realizado quanto fracassado, vamos terminar nossa conversa, mas agora em um lugar mais descontraído, pelo menos para mim.
- Fala Paulino. Tudo certo, Man? Sente-se. A cadeira é de ferro, 'tá' um pouco enferrujada, mas não passa tétano.
Ele respondeu com um sorriso amarelo, apertou minha mão, relaxou no encosto como se estivesse descarregado de suas costas o peso de uma betoneira.
- Paulo Paulino, sempre o mesmo terno.
- E você, sempre uma camisa do Led Zeppelin e a barba por fazer.
- É verdade, o bom é que não vivo de aparências.
A resposta bateu como um soco no estômago. Ele não rebateu.
- Meu amigo, eu estou perdido, me sinto sufocado. Clarice novamente.
Tomei um gole da cerveja, comecei a encher o copo dele.
- Ué? Vocês pareciam tão bem nas fotos do aniversário da sua sogra.
- Sou um advogado de sucesso, preciso vender minha imagem.
- Paulo. – Dei mais um gole na cerveja, ajeitei meus óculos escuro e respirei – Vender imagem ou viver de aparência? Porque há diferença.
- Minha vida é um universo que você não entende.
-Paulo Paulino, não conheço uma só pessoa que sofra. A vida é um luxo. No final tudo se resume num bom churrasco, uma noite de pizza, uma festa regada de bebidas finas e mulheres se fotografando.
- Sim, onde você quer chegar?
- Será que só eu tenho problemas? Será que só minha vida tem erros, imoralidades, ações vis? Queria eu poder contar com momentos extravagantes, luxo, mulheres e viagens. Mas Não! Minha vida me esmurra. Apanho com força. – Tomo mais um gole, olho nos olhos do meu amigo – Eu sei lidar com isso. Será que você sabe? Crescemos juntos, éramos dois jovens vagando pelo mundo, sempre indo para onde o vento soprava.
- É Roberto, você é o único que me conhece na essência, sabe de onde eu venho. Não sei como, mas tudo isso se perdeu. Preciso de ajuda.
O atendente trouxe outra cerveja, esperei o rapaz sair.
- Todos os dias pela manhã, quando se levanta, sua mente como um projetor te mostra toda a luta que você terá naquele dia. Tudo aquilo que você conquistar, te custará algo precioso em troca, e assim, vai vivendo sempre com o dilema entre o que quer conquistar e o que irá perder em troca. Daí você olha para as redes sociais, vê seus amigos, colegas de trabalho, todos felizes, sem ruga alguma.
- Conclua, por favor.
- Tudo, absolutamente tudo que acontece na vida destes felizardos viram stories e reels. Será que tudo é como aparenta?
- Beto. - Paulo olhou para o teto, coçou levemente a cabeça - Sinto que na minha vida não acontece absolutamente nada, que apesar de tudo, carro, cobertura, crianças, não ando para frente.
- Ao invés disso, fabrica um momento falso, com um sorriso bonito.
- Como assim?
- O problema é essa falsa aparência, isso te consome.- inclinei meu corpo olhei mais uma vez em seus olhos – A sua aparência, na verdade é a porta dos fundos de um restaurante de luxo, no qual esconde o caos de uma cozinha, suja, desorganizada, fedorenta e cheia de ratos.
- Mas isso é exigido de mim, ou será que não é?
- Eu sei que quando olha em sua volta, conclui que sua vida é tão miserável e mesquinha, que, para ter um minuto de felicidade, sente a necessidade de aparentar "o sucesso personificado".
- Isso me incomoda um pouco.
- Te incomoda, mas ainda assim, vai nutrindo um holograma de uma vida boa, saudável, próspera e cheia de conquistas. Os comentários com admiração, elogios e os olhares que te invejam, compõe o combo que te faz ficar bem consigo mesmo. É como uma droga, depois passa o efeito e as vezes você cai em si.
- Mas Roberto, não sei por onde começar. Não sei mais sorrir de verdade.
- Claro que sabe Paulo Paulino. Sou seu amigo, apesar de meio hippie, mas te falo a verdade que precisa ouvir, mas não se preocupe, uma sociedade inteira se comporta assim.
Paulo olhou para os lados, começou a escorrer uma lagrima.
- O que eu faço Beto?
- Liberte-se. Olhe para mim, sempre com a camisa do Led Zeppelin, óculos escuros, calça desbotada e tênis All Star. Não ligo para o seu julgamento, nem dos outros, vivo exatamente como se deve viver, apenas sendo eu, com meus perrengues, minhas glórias, minhas perdas e meus ganhos. Você não precisa usar uma camisa de rock e dirigir um Palio, mas seja fiel aos seus valores.
- A Clarice, eu não aguento mais.
- Recomece, avance, se você ficar parado sua cabeça não vai aguentar.
- Meu casamento foi tão, tão, do jeito que ela sonhou.
- Seus sonhos, não necessariamente destroem tudo aquilo que vocês conquistaram juntos.
- Beto, os sonhos sempre foram dela. Ela é egoísta, não é parceira, nosso casamento é tão pobre no amor.
- Viva Paulino! Viva então sozinho, mas como tu queres. Você é um homem vivido, viajou o mundo, conhece culturas. Sei que você pensa nas crianças, sim haverá o custo de não estar com eles todos os dias, mas não será perdido um décimo do amor de vocês.
Paulo se levantou, tomou sua cerveja num gole, o acompanhei. Nos abraçamos, um abraço especial, daqueles que demoram mais tempo que ponteiro leva para dar a volta no relógio.
- Obrigado Beto.
Neste mesmo instante começou uma chuva forte, destas que lavam a alma.
Paulo soltou um grito a plenos pulmões, correu para a rua, começou a sorrir, rodopiava na chuva, olhava para o céu, olhava para dentro do bar e me fez um sinal brega de coração com as mãos.

Nascido em São Paulo, Rodrigo de Mello é gerente de projetos, escritor e cervejeiro caseiro, Declara-se apaixonado por História, leitura, teatro, futebol e cinema. Seus textos buscam provocar reflexões sobre temas contemporâneos, explorando diferentes gêneros e tendo a fantasia como um dos principais cenários para suas narrativas. Atualmente, trabalha no planejamento de seu primeiro livro de fantasia épica.