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O teto e o céu

O teto e o céu

por Fernando Domingos Chitela

Decidi sentar-me no meu cantinho para apreciar uns cálices de uísque e ouvir blues, mas estou sentado aqui há mais de um quarto de hora e não consigo dar o gole nem apertar o play. Tudo por causa de uma coisa que me inquieta: o rumo que a humanidade vem seguindo.

Às vezes, sinto-me pressionado a intervir para mudar as coisas com base naquilo que acho que deve ser o caminho a seguir, mas não encontro espaço. São muitas as forças que empurram a humanidade para onde ela vai. Forças exercidas por pessoas que talvez pensem estar a ser movidas por intenções nobres — conduzir todos para um lugar melhor. Veem-se como os elementos da sociedade mais indicados para dirigir os restantes seres humanos.

Porém, há uma coisa que não percebo. Não entendo por que alguns deles se posicionam no centro, outros à esquerda, à direita, e ainda outros no centro-esquerdo e no centro-direito. Mas pronto. Vou acreditar que estes posicionamentos decorrem da necessidade de melhor resolverem os problemas da humanidade. Só que algo me diz que não. O não aparece neste momento em que quero apertar o play. Peço ao Não para ir dar uma volta.

Finalmente, aperto o play. A música de Etta James começa a tocar, I'd Rather Go Blind. Consigo também dar o primeiro gole, mas a conclusão chega: a humanidade não está a ser conduzida para um lugar melhor. Não vou intervir. Vou deixá-los avançar.

Encosto-me melhor à cadeira, cruzo as pernas e começo a sentir o conforto a chegar. Dou um segundo gole. Entra a música The Thrill Is Gone, de B. B. King. A guitarra fala uma língua que nem o efeito do uísque me permite descodificar. O som penetra na alma, mas, com ele, também entra uma pergunta. Não, duas. Ou melhor, três: o que direi se a humanidade cair num abismo? Quem sentirá mais dor? Será aquele que a conduz, estando convencido de que segue o rumo certo, ou aquele, como eu, que pensa saber que o rumo é errado, mas não consegue fazer quase nada antes do abismo?

De repente, mil pensamentos atravessam a minha mente. Levanto-me e grito em voz alta:

— Perguntas oportunistas. Quem vos chamou aqui?

Aperto no stop. Enrosco a tampa da garrafa com força. Vou ao quarto e atiro-me à cama, esperando que o sono me venha socorrer. Como vou mudar as coisas se as posições já foram tomadas? E o que fazer da dor quando estivermos a entrar no abismo? Será que o sono virá? Fico com os olhos fixos no teto. Preferia que ficassem fixos no céu.

Fernando Domingos Chitela
Fernando Domingos Chitela
Angola/África

Fernando Domingos Chitela

Fernando Domingos Chitela é mestre em Tradução pelo Chartered Institute of Linguists e estudante de Gestão de Empresas pela Cambridge International College.

Formou-se em escrita criativa na Metamorfose, onde frequenta atualmente o curso de Revisão e Leitura Crítica. É autor de um romance inédito, atualmente em concurso num prémio literário da lusofonia.

Dedica-se à ficção realista que atravessa memória de infância e adolescência, explorando as rupturas que marcam o crescimento em contextos sociais de transformação.