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O valor de uma viagem em família

O valor de uma viagem em família

por Antonio Lima Jr.

O valor de uma viagem em família

Quando temos dinheiro em conta, não tarda e nos perguntamos que destino daremos a ele. Financistas e juristas diriam que a compra de um bem tangível e durável como uma casa seria uma decisão de valor – mesmo reconhecendo os riscos de deterioração, invasão, usucapião e penhora. A vida é curta, diriam outras pessoas, por que não viajar? Mas logo os experts questionariam os custos de uma viagem de fruição e prazeres efêmeros.

Imagine, então, uma viagem em grupo, que tem custos multiplicados e, para muitos, é um sacrifício financeiro. Apesar disso, eu ainda relembro viagens feitas em família, que estão entre as melhores recordações que guardo.

Desde a infância dos filhos, passando pela adolescência deles até o início da vida adulta, viajamos em família. Numa delas, nadamos numa piscina que se cobriu de preto após uma revoada de tanajuras, no Parque Nacional das Sete Cidades, no sertão do Piauí; escorregamos nas dunas no Delta do Rio Parnaíba – com o vento oceânico suavizando a quentura; nos Lençóis Maranhenses degustamos o murici agridoce, boiamos despreocupados na correnteza de um rio e até fugimos de raios e trovões numa faixa de areia entre rio e mar; rimos do infortúnio de nosso atoleiro que parecia insolúvel, deixando Camocim, na divisa do Ceará; e, em Jericoacoara, assistimos ao pôr do sol nas dunas – reabastecendo corpo e alma de energia.

Em família, realizamos muitas outras viagens: mergulhamos nas águas mornas de diversas praias do litoral do Nordeste; no Rio São Francisco visitamos os cânions em Paulo Afonso e Xingó; navegamos pelo Rio de Piranhas até Poço Redondo – onde Lampião foi emboscado – e depois concluímos a saga na Foz; na Serra Gaúcha nos embriagamos em vinícolas e com o Natal Luz; nos encantamos com a Serra e Litoral catarinenses – neste último avistamos baleias, pinguins e leões-marinhos; visitamos Curitiba e as cataratas em Foz do Iguaçu; percorremos cidades históricas ao longo da Estrada Real de Minas Gerais; aprendemos biologia e ecologia nos projetos do Peixe-Boi em Itamaracá, na Paraíba e em Alagoas e do Tamar em Sergipe e em Florianópolis; e ainda guardo muitas outras memórias em diferentes localidades, as mais recentes juntando filhos e agregados – pois o tempo passa.

Na crônica "A cobra que morde o rabo", Rachel de Queiroz disse que "O tempo é que é o nosso dono, suscita o inesperado, valendo-se das coisas mais íntimas. Até um salto de sapato que se quebra pode impedir o encontro definitivo da sua vida." Seriam a finitude e as incertezas das nossas existências subjetivas computadas nas equações financeiras, ou apenas a perspectiva dos juros compostos?

Não sei quanto custaram as viagens que fiz ao longo dos anos, estimo que daria para comprar um ou mais imóveis. Mas eu trocaria tudo por uma casa, ou duas? Absolutamente não! Sou grato por ter vivido aventuras nas fases de crescimento dos filhos, por conquistar pelo trabalho os recursos para cada projeto, por estarmos todos com saúde e unidos em diferentes épocas e também pelas decisões tomadas – que não olvidaram o imaterial, o intangível. Enfim, a sorte e o futuro são imponderáveis.

Para além do afeto e das emoções singulares de cada viagem com a família, vivenciar e rememorar o efêmero desses encontros seria – tomando o linguajar dos experts – uma riqueza imprescritível e impenhorável, que se valoriza com o passar do tempo e da qual ninguém pode nos privar. De que bens materiais poderíamos afirmar o mesmo?

Antonio Lima Jr.
Antonio Lima Jr.
Recife/PE

Antonio Lima Jr.

Antônio Lima Jr. escreve contos, crônicas, resenhas e outros textos, com ênfase na vida e nas relações pessoais com o dinheiro.

Sua escrita é fundada na ideia de que "A vida se completa quando há propósito, e o dinheiro pode ser ponte ou abismo entre os dois."

Fez o curso de Formação de Escritores da Editora Metamorfose e a oficina de escrita criativa de Marcelo Spalding, cursou a oficina literária Santa Sede e a Masterclass de Rubem Penz e, no Recife, frequentou as oficinas literárias de Paulo Caldas e de Raimundo Carrero. Tem formação de Coordenador de Laboratório de Leitura pela Casa Arca, com o professor Dante Gallian — método que propõe a humanização por meio da experiência estético-reflexiva da literatura clássica.

Participou de diversas coletâneas e antologias, a exemplo das publicadas pela Santa Sede Editorial, pela Editora Metamorfose e pela Oficina Literária Paulo Caldas, e ainda do Selo Off Flip, incluindo os seguintes destaques no livro publicado: um conto na Antologia Terra (2025); uma crônica no Prêmio Off Flip 2024; e um conto e uma crônica na Antologia Nordestes (2023). Prepara o primeiro livro solo. Leitura crítica.

Advogado e doutor em Saúde Pública, foi professor de ensino superior por cerca de 25 anos e auditor federal de finanças e controle por 20, hoje aposentado. É educador financeiro (DSOP) e cursa formação em Terapia Financeira Integrativa, pelo IPPLA.