por André B. Ferreira
Já era meio da tarde quando Graça pousou perto da casa de madeira no coração do bosque próximo ao vilarejo. Respirou fundo, passando uma asa dolorida no rosto. Tinha feito seu trabalho o mais rápido que pôde. Ainda teria que voar muito até chegar a casa e preparar o jantar para Garção. Encheu o peito branco de ar e disse em voz baixa:
— Tudo no lugar. Tenho tempo.
Ajeitou a bolsa a tiracolo até que ficasse na posição certa. Endireitou-se, alisando as penas do corpo até alinhá-las. Passou o portãozinho baixo de madeira e foi até a porta. Bateu três vezes. Quando a porta se abriu, uma ursa já não tão jovem sorriu:
— Boa tarde?
— Sou Graça, agente do censo real — a garça disse. — O rei quer saber um pouco mais sobre os seus súditos.
— É claro! Sou Cleia. — Ela abriu a porta e recuou. — Por favor, fique à vontade.
A garça entrou, dando uma olhada rápida ao redor. Guiada pela ursa, sentou-se em um dos sofás com motivos florais. Antes que pudesse dizer algo, Cleia sumiu e voltou com uma jarra cheia de água gelada com pedaços de limão. A garça percebeu, naquele momento, o tamanho da sede que a torturava. O último gole tinha sido pouco antes de sair de casa, ainda de madrugada.
— Sei como é — disse a ursa, oferecendo-lhe a jarra.
— Desculpe? — A garça olhou para ela.
— Você é uma agente do censo. Sempre visitando muitas casas. O reino é grande. Então, tem que ser muito cansativo.
A garça fez que sim com a cabeça e aceitou a jarra com um meio sorriso. Bebeu o mais comedidamente que pôde.
— Que bom que veio hoje — disse Cleia.
A garça levantou a vista, enquanto deixava a jarra sobre a mesinha de tronco de carvalho. Ante o olhar confuso da agente, a ursa completou:
— Digo isso porque hoje é justo o meu dia de folga. Trabalho no hospital, sou enfermeira. Os turnos são uma loucura, mas a gente dá um jeito. O trabalho é bom, mas sabe como é.
Uma porta se abriu. Um ursinho segurando um pequeno boneco de pano em uma das mãos cumprimentou a garça com um sorriso tímido e foi até a cozinha.
— É o seu filho? — a agente perguntou.
— Sim, esse é o Vini, meu tesouro.
A garça assentiu, quase sorrindo. Em seguida, a imagem da mesa do jantar pipocou em sua mente. O sorriso morreu e ela tirou da bolsa questionário e caneta. Uma exaustão se deitou sobre ela, como um cobertor pesado.
— Quantas pessoas vivem aqui? — perguntou a agente.
— Três.
— O estado civil da senhora?
— Me chame de você. Sou casada.
A garça anotou, murmurando sem querer:
— Perfeito. Como tem que ser.
— Desculpe? O que disse?
A garça se endireitou no sofá. Pigarreando, respondeu:
— Ah, me desculpe. Estou um pouco cansada. Eu não queria? quero dizer, é um elogio, na verdade.
A ursa a encarava com as sobrancelhas franzidas, enquanto a garça sentia o rosto corar. O ursinho se sentou no sofá em frente a ela, ao lado da mãe, com um copo de leite na mão.
— Eh, me desculpe, a senhora é uma pessoa muito gentil. — Graça gesticulava mais do que gostaria. — Eu não quis ofendê-la de forma alguma. Como eu disse, para mim é um elogio.
— Tudo bem. — Cleia se acomodou no sofá, descontraindo o cenho.
Mas a garça não se deu por satisfeita e tentou se explicar melhor. Realmente não queria ofender aquela ursa que tinha sido tão gentil, diferente de tantos outros entrevistados:
— Eu sou como a minha mãe, sabe? Ela me criou do mesmo jeito que a minha avó fez com ela. Cada coisa em seu lugar. Valorizo muito isso. As coisas do jeito certo.
A ursa se inclinou para frente e, sorrindo, disse:
— Do jeito certo?
— Claro. — Pigarreou novamente, sem graça. — Tudo tem uma forma correta e todo mundo sabe disso. Eu vi logo de cara que você também é assim. Apesar de trabalhar, você cuida bem da casa, do seu filho, dá pra notar a ordem e a limpeza aqui.
Cleia seguia observando-a quieta, enquanto Vini terminava seu copo de leite. Por fim, a garça completou:
— A essa hora, você já deve estar por começar a preparar o jantar para o seu marido, o pai do seu belo filho. Não quero atrapalhar mais do que o necessário. Assim como você, eu também sei que há coisas que são muito importantes. Você me entende, não é?
— Entendo, é claro — concordou a ursa, voltando a se acomodar no sofá.
— Que bom! — Suspirou a garça, para logo dizer: — Podemos continuar?
A agente do censo retomou o questionário sem mais percalços e começou a relaxar. Tudo sob controle. Tudo em seu lugar e ainda tinha tempo. Ouviu-se, de repente, um barulho de chaves na porta de entrada. Ela não se virou porque achava deselegante fazer essas coisas.
— Papai! — o ursinho pulou do sofá, correndo para a porta.
— Meu garotão! — Uma voz cansada, mas gentil agradou a garça, que deu um meio sorriso. Finalmente, Papai Urso tinha chegado.
Fingiu preencher algo no questionário até que o pai estivesse perto para então cumprimentá-lo. Vini chegou antes, disso próximo dela e disse:
— Essa aqui é a Graça, Papai Lobo! Ela é agente do censo. Está fazendo um monte de perguntas pra mamãe!
A garça olhou confusa para frente e para o alto. Um lobo de meia idade, grisalho, a cumprimentou com um sorriso tranquilo. Depois de beijar a ursa, sentou-se ao lado da esposa no sofá e recebeu o menino no colo, beijando-lhe a cabeça.
— Que bom que chegou, querido! — disse Cleia.
— Eu também acho. — Ele sorriu para ela e depois disse a Graça: — Desculpe, meu nome é Lobualdo, prazer!
A agente pigarreou e disse:
— Estamos quase terminando, senhor Lobualdo. Logo, logo, já vou deixá-los em paz.
— Por favor, não precisa ser tão formal! — ele disse dando um sorriso. — Me chame de você.
— Graça, você não está incomodando ninguém aqui — disse Cleia. — Eu sei que não quer atrapalhar, mas não se preocupe por nós. Você está muito cansada, não precisa se apressar. Está tudo bem, de verdade.
A garça assentiu e abaixou o olhar, mas a imagem daquela família ali sentada na sua frente não lhe saía da cabeça. Pareciam tão espontâneos, tão à vontade. Tão, tão? felizes?
Contudo, uma pergunta lhe ocorreu. Onde estaria o Papai Urso? Olhou para o lobo, afagando a cabeça do filhote, que brincava com o boneco de pano. A garça ergueu uma sobrancelha, enquanto uma suspeita crescia em sua mente. Apressou-se. Aquela gente era muito estranha e ela não queria ficar ali mais do que o necessário. Gentileza demais, carinho demais, bondade demais. Suspeito demais.
As perguntas restantes foram feitas da forma mais objetiva possível e respondidas entre sorrisos, gestos e olhares afáveis. Logo a garça terminou de preencher o formulário e se levantou.
— Fique para o jantar, Graça — disse Cleia —, meu marido vai cozinhar hoje.
A garça encarou os dois um momento, perguntando-se se havia entendido direito. Algo ali estava muito errado. Aquela gente podia até ser perigosa.
— Prometo que vai se surpreender! — O lobo sorriu.
— Não posso! — ela respondeu um pouco alto demais. — Preciso voltar para casa. Tenho que fazer o jantar para o meu marido. Ele não gosta quando atrasa.
— É claro — disse a ursa. — Quem sabe outro dia então?
— Sim, sim — A garça, enfiava de qualquer jeito a alça da bolsa no corpo. — Eu volto outro dia, claro!
— Espere — disse Cleia —, vou acompanhá-la. Quero abrir pra você voltar.
— Não precisa, já incomodei demais!
— Eu faço questão. — A ursa balançou a cabeça, alcançando a garça, já perto da porta, para logo completar: — Eu sei quando conheço uma boa pessoa, Graça. Aqui você será sempre bem-vinda.
A garça a encarou um instante. Aquelas palavras soavam gentis e acolhedoras.
— Tem certeza de que não quer nos acompanhar? — disse Lobualdo, ainda sentado no sofá. — Eu cozinho muito bem.
Graça deu um meio sorriso, e fez que não com a cabeça.
— Eu vou acompanhar ela até o portão, mamãe — disse o ursinho.
Só então a garça viu o garoto parado ao seu lado, segurando o boneco de pano surrado.
— É claro, querido — disse Cleia. — Acompanhe a Graça então e volte logo.
A agente do censo saiu da casa, enquanto a ursa se despediu e fechou a porta por causa dos mosquitos. A garça inspirou fundo o ar fresco da tardinha ao se ver do lado de fora. Olhou para o filhote que a acompanhava com aqueles olhos gentis e tranquilos. O que teria acontecido, afinal? Como aquela ursa tinha se casado com um lobo? Tudo aquilo era moderno demais, estranho demais, assustador demais. Ela queria, mas não conseguiu se conter.
— Ei, diga-me uma coisa, Vini: onde está Papai Urso? — perguntou, já passando para o lado de fora do portão de madeira.
O filhote a encarou um instante e deu de ombros.
— Não sei. Minha mãe disse que ele foi comprar mel no mercado e nunca mais voltou. Isso quando eu era pequeno, mas eu lembro que nesse dia, ela ficou assustada e eu também.
Graça o observava, o brilho nos olhos tinha sumido quando o pequeno continuou.
— Depois foi bem difícil. — Alisava o boneco de pano encardido. — Ela tinha que trabalhar muito e me deixava com a minha avó o dia inteiro. Eu sentia muitas saudades e ela tava sempre triste e cansada.
A garça se abaixou. Ficando na altura do filhote, tocou-lhe o rosto com suavidade e disse:
— Sinto muito, Vini. As coisas não deveriam ser assim.
Então, o olhar do filhote adquiriu brilho novamente e o sorriso voltou ao seu rosto:
— Ah, tá tudo bem. Depois de um tempo, as coisas melhoraram. Ela conheceu o Papai Lobo, que trabalhava numa padaria perto da casa da vovó. Demorou um pouco, mas eles começaram a namorar e um dia ele veio me conhecer. Daí me deu de presente esse boneco aqui.
Graça olhou para o boneco encardido, só então percebendo que era um urso padeiro.
— No começo também fiquei muito triste porque Papai Urso não voltava, mas agora tô muito feliz. Papai Lobo é o melhor pai do mundo!
A garça sentiu o rosto esquentar e os olhos umedecer.
— Hoje ele vai fazer uma torta de verdura. É muito gostosa! — disse lambendo os beiços. — É a mesma que eu levo pra escola. Tem certeza que não quer ficar e comer com a gente?
Graça respirou fundo. Ainda cara a cara com o pequeno, permaneceu em silêncio um instante. Olhou para a casa de onde tinha acabado de fugir: o lar daquela ursa que tinha se casado com um lobo. Depois, levantou-se, limpou uma lágrima de um olho e, pigarreando, disse:
— Quer saber, querido? Hoje vou jantar com vocês!

André B. Ferreira é escritor, revisor em formação, servidor público, licenciado em Letras, especialista em Estudos da Linguagem, terminando o Curso de Formação de Escritores, da Metamorfose. Entende que boas histórias são capazes de transformar as pessoas e o mundo ao seu redor. Escreve Fantasia. Em especial, embora não apenas, para jovens leitores, misturando realismo e imaginação em jornadas sobre coragem, pertencimento e transformação.
Teve contos publicados em antologias do concurso Histórias de Trabalho, da Secretaria de Cultura de Porto Alegre/RS nos anos 2007 e 2012 e, em 2019, no livro Sementes, resultado do Primeiro Concurso Nacional de Contos do TRE/PR.
Atualmente, trabalha em uma nova história de Fantasia Urbana para publicação.