por Luana Real

Passa das dez, em uma noite sem lua. Debaixo de um abajur, cujo feixe extra de luz focava nos papéis recheados de linhas, ângulos e equações, Aristides se encontra debruçado sobre sua mesa de desenho. As mãos ágeis e o risco do grafite preenchem o ambiente do escritório aconchegante. Uma gélida brisa levanta os pelos de sua nuca quebrando o feitiço do foco no trabalho. E, se permitindo um momento de distração, observa a imagem do marido embalando o filho de oito meses ao lado do berço que é transmitida pela babá eletrônica.
Marcio era forte e musculoso, podendo até parecer intimidador, mas apenas para quem não o conhecia. Era, na verdade, um homem gentil e amoroso. "Um Hulk pão de mel" murmura para si mesmo com um risinho, balançando a cabeça, envolvido pela cena antes de retomar suas atividades.
Pouco depois, Marcio entra pela porta e se espreguiça. A expressão de quem transita pelo lugar entre o cansaço e o triunfo se encontram.
— Téo está, finalmente, nos braços de Morfeu. — Repousa as mãos nos ombros de Aristidese, massageia e adiciona com seu tom afetuoso de sempre. — Já deu por hoje, né, Tito?
— Ele está cada dia mais lindo. — Sorrindo, Aristides se desvia da indireta a fim de evitar uma bronca do marido. — O prazo é amanhã de manhã. Só falta mais uns minutinhos.
— Pode deixar que eu vou cronometrar esses minutinhos. — Ele dá uma volta pelo cômodo e pega uma revista jogada sobre a estante ao lado. — Já saiu a matéria?
Sem esperar a resposta de Aristides, Marcio passa pelas páginas com pressa. Enfim, limpa a garganta e começa a ler em voz solene:
— Do Vidigal para o Mundo: A Arquitetura Humanista de Tito Nunes... Nascido e criado na favela do Vidigal, Tito Nunes é um exemplo de como a arquitetura pode transcender fronteiras e conectar mundos distintos. Com apenas 35 anos, o arquiteto carioca já deixou sua marca dentro e fora do Brasil. Sua trajetória de vida, marcada por desafios e superações, o inspirou a criar projetos que integram as comunidades à cidade, promovendo a inclusão social. Quebrando muros e construindo pontes, os projetos de Tito nos convida à reflexão sobre o papel da arquitetura na construção de um futuro mais justo e igualitário. Sua experiência como homem negro o inspira a criar projetos que valorizam a história e a cultura da população afrodescendente. — Respira e aperta o ombro de Aristides, satisfeito. — Que isso, hein, maridão? E continua...
— Só mais do mesmo, Marcio. Nem vale a pena. — Ele interrompe a leitura.
— Ah, qual é, Tito? Você está arrasando.
Aristides gira sua cadeira e encara Marcio, retira os óculos e massageia as sobrancelhas:
— Isso não é um elogio. É só mais uma tentativa de me colocar no meu lugar. — Pausa e enuncia sarcasticamente simulando um político austero. — O preto favelado que venceu na vida! Um exemplo de superação para toda a sociedade!
— Amor, você teve uma vida difícil. Eu acho que as pessoas te admiram com razão.
— Ahn-ham. Engraçado como eu não vejo, nas matérias sobre os seus artigos acadêmicos, menções à sua experiência como homem branco homossexual.
— Você não acha que, às vezes, leva as coisas muito a ferro e fogo?
Aristides lança um olhar enviesado muito bem conhecido por Marcio que acaba por deixar a revista de lado. Com um longo suspiro pensativo, coloca as mãos na cintura:
— É uma daquelas situações em que eu estou falando do que não entendo, né? — Aristides só faz que sim com a cabeça.
Marcio pega as mãos do marido e o aproxima de si, forçando-o a se levantar.
— Você tem razão, me desculpa.
A tensão das palavras trocadas, há poucos segundos, logo dão espaço a beijos e carícias. Até que, de repente, Marcio se afasta. Confusão e pânico tomam o seu rosto. Ele pega a babá eletrônica e corre em direção ao quarto de Téo. O coração de Aristides dá um pulo. Em seguida, chega no quarto do filho o encontrando ainda dormindo e o marido encostado na parede respirando fundo, aliviado.
— O que aconteceu? — Aristides pergunta ao saírem do quarto do bebê e fecharem a porta.
— Olha isso! — Marcio mostra a tela da babá eletrônica.
Ele vê rapidamente a imagem de uma criança mais velha que seu filho, em um quarto, de costas, sentada dentro do que lhe parecia ser um cercadinho. Antes que pudesse analisar com mais atenção, a tela voltou a mostrar o quarto de Téo.
— Estranho... deve ser uma interferência. Essas bugigangas às vezes pegam o sinal de outros por perto. — Devolve o aparelho a Marcio que, ainda confuso, observa a imagem do filho.
— Eu vi aquela cena estranha e um vulto. Acho que de um homem. — Ele tenta estabilizar a respiração, coloca a mão sobre o peito. — Que susto, Tito!
— Eu não vi nenhum adulto, mas deve ter sido o pai passando. Olha aí, já voltou ao normal.
— Está tudo bem com o Téo. — Marcio continua analisando a telinha, perdido em pensamento. — E aquela criança? — Diante da expressão vazia de Aristides, ele completa. — O quê? Você não viu?
— Eu vi uma criança em um quarto sentada dentro do cercadinho. — Ele dá de ombros.
— Eu não acho que é um cercadinho. — Marcio se dirige a passos largos para a sala de estar e começa a andar em círculos. — Parecia uma gaiola.
— Do que você tá falando, Marcio?
— Quarto? Era um ambiente... vazio. O menino parecia ter o que? Uns sete anos? Sentado ali, dentro de uma gaiola, parado. Sem um brinquedo. E acho que tinha um adulto lá, mas aí não tenho certeza.
— Eu não vi nada disso.
— Porra! Tava tudo na tela, Tito! — Marcio espalma as pernas.
— Ei, ei, ei... Vamos com calma. Pode ter sido o susto. Te deixou...
A interferência volta a aparecer na babá eletrônica que, a essa altura, estava sobre a mesa de centro. É a mesma transmissão anterior. A pouca qualidade e baixa saturação, lhe reservam uma atmosfera sombria, onde não era possível distinguir detalhes com precisão. Exibindo poucos movimentos, a passagem dos numerais no canto da tela, marcando segundos e minutos, indica se passar ao vivo.
Marcio agarra o aparelho e se concentra na imagem acompanhado de Aristides.
— Olha aqui, Tito! É uma gaiola. E o menino... que roupas são essas?
— É... parece uma gaiola mesmo. A não ser... será que não existe um cercadinho que feche por cima também?
— Ah, Claro. E isso faz toda a diferença.
— Eu não estou entendendo por que você está tão agitado.
— É estranho. Não tem uma coisa de criança lá, um brinquedo, uma cômoda. Nada. O menino sentado, curvado, quase imóvel. Vestindo farrapos. E não venha me dizer que não é uma gaiola. — As mãos de Marcio suprimem um grito que se formava em sua garganta. — Isso não é o quarto de uma criança. Parece? um cativeiro.
— Peraí, Marcio. — Aristides não consegue conter o riso. — Você acha mesmo que estamos vendo a transmissão direta de um sequestro?
— Qual é a graça?
— Eu só acho que você tem ouvido podcasts de true crime demais. — Aristides procura acalmar o marido. — Olha, nem todos os pais criam os filhos da mesma forma. Talvez, os desse menino costumem colocar o filho em um cercadinho e acompanhar pela câmera na hora de dormir.
— Ainda que seja isso, a gente precisa denunciar! É, no mínimo, maus tratos.
— Denunciar o que? Quem?
— Eu não vou ver uma criança nessa situação e não fazer nada. A gente chama a polícia, mostra a imagem e eles veem o que é.
— Polícia, Marcio? — Aristides apoiou a testa contra a mão e balançou a cabeça.
— Isso pode ser evidência de um crime.
— Que crime? Não tem crime nenhum acontecendo ali. — Aristides aponta para o aparelho, onde pode-se ver o menino que continuava calmamente sentado dentro do cercadinho ou gaiola. — Olha onde a gente mora. Você, realmente, acha que algum dos nossos vizinhos é um sequestrador de criancinha?
— Aquele babaca bem pode ser. — Marcio aponta o dedão para a esquerda fazendo referência ao morador da casa ao lado.
— O cara mora sozinho. Solteirão. Red pill de merda. Nunca vi ninguém por lá.
— Exatamente! E, se tiver uma criança lá, só pode ser um crime.
— Ele já nos odeia. Faz da nossa vida um inferno. Agora você quer o que? Chamar a polícia e acusá-lo de sequestro com base em nada. Só na imagem solta de uma babá eletrônica?
— E se a gente for lá?
— Claro. Ele, com certeza, vai abrir a porta para A GENTE e deixar checarmos se tem um garotinho preso na casa dele.
— Então, a gente faz uma denúncia anônima. — Marcio declara sem perder a tela de vista.
— Peraí. Por que você está tão preocupado?
— Eu não queria dizer nada porque eu sabia que você ia me matar, mas? Anteontem, eu estava chegando com o Téo e um menino, mais ou menos dessa idade, me pediu para entrar porque estava perdido e precisava chamar seus pais. Eu deixei e fui colocar o Téo no berço. Quando voltei, o garotinho tinha ido embora. Ele sumiu.
— Você deixou uma criança desconhecida entrar sozinha com você na nossa casa? — Aristides cospe as palavras retesando o rosto. Seus braços cruzados na frente do peito.
— Tito, era um menino todo mal vestido, perdido! Como eu não ia deixar entrar?
— E ele desapareceu? — Aristides é quem agora anda em círculos pela sala. — Você está me dizendo que alguém pode ter visto um garotinho entrando com você, aqui, e depois não ter visto ele sair? Na casa de dois homens?!
— Bom, ele não era um fantasma. Se ele não estava aqui, na sala, obviamente saiu pela porta da frente. Qualquer um pode ter visto. — As mãos de Marcio encontram sua cintura.
— Porra, Marcio!
— Você está exagerando.
— Agora, você acha que essa mesma criança pode estar aparecendo na nossa babá eletrônica dentro de uma gaiola. E eu estou exagerando?
— Se ele estava batendo em portas e saiu daqui, pode ter muito bem ter batido na porta da casa ao lado!
— Não! Não! Agora é que a gente não vai chamar a polícia mesmo! – Aristides agarra os braços largos do marido, sente os músculos tensos, e o encara enquanto aponta para a mesa de centro. — Porque, se essa criança estiver em cativeiro, como a gente vai explicar a transmissão estar vindo para a nossa babá eletrônica? Esquece! — Ele solta Marcio com um empurrão.
— Ah! Agora você concorda comigo que é um sequestro?
— Pode ser. Pode não ser. Pouco importa. Eu não vou me meter nisso. Senão, vai sobrar para a gente. Ainda que não seja nada. — Marcio encara Aristides em silêncio. — Não me olha como se eu fosse um monstro só porque eu estou sendo racional. Temos que pensar na nossa família.
— E se aquele fosse o Téo?
— Mas não é. Só sei que o meu filho está dormindo, feliz, seguro. Você está, aqui, seguro. Eu não vou colocar isso em risco por causa de uma imagem aleatória que nem sabemos o que é.
Ao olhar novamente para a tela, Marcio e Aristides notam que, em algum momento, enquanto discutiam, um homem se instalou na imagem. Não era possível vê-lo completamente. Os dois param de falar.
— Tito, pega o celular e filma isso. Se esse cara fizer alguma coisa com a criança, a gente vai ter prova. — Aristides não obedece, decidido a não ter nenhum envolvimento. Ao invés disso, ele se move para agarrar a babá eletrônica. No entanto, Marcio é mais rápido e segura o aparelho em suas mãos. — Você não vai desligar!
— Desliga! Chega disso!
O marido, no entanto, não lhe responde. Continua hipnotizado pela tela até que grita:
— Filho da Puta! É ele!
Marcio corre para rua, determinado a salvar o menino. Aristides tenta impedi-lo, mas falha e cai. Gritando o nome do marido que já havia saído porta afora, considerou Téo no berço, não podia deixá-lo sozinho. Com mãos trêmulas, alcança o aparelho caído no chão e, para seu desespero, vê nitidamente a imagem do seu vizinho, em pé, parado na frente da criança dentro da gaiola. Seu rosto inexpressivo pode ser visto de frente, enquanto apenas as costas do garotinho estão visíveis.
— Não, não, não? não pode ser.
Aristides acompanha a imagem, aguardando ver o marido aparecer na tela a qualquer momento. Ou o homem sair quando Marcio batesse na sua porta. Porém, pelo tempo que parece uma eternidade em sua mente aflita, nada acontece.
Então, a criança vira sua cabeça e encara a câmera pela primeira vez. Não demora muito, o homem, seu vizinho, faz o mesmo. Para muito além das pupilas, seus globos oculares são totalmente escuros como carvão. Eles começam a sorrir. Aristides se levanta rápido, tira e recoloca os óculos, para secar o suor da testa. Quando recobra a visão, ambas as figuras estão de pé, mais próximas, exibindo largos sorrisos zombeteiros e redondos olhos negros.
Aristides tem muita dificuldade para respirar. Se sente afogar-se naqueles dois pares de poços escuros, molhados e reluzentes. Calafrios se alastram por sua pele. Um novo tipo de temor o domina; do que vai além da sua compreensão. Imobilizado, não consegue desfazer o contato visual. Homem e menino o fitam como se pudessem alcançar seus pensamentos.
O torpor que lhe assalta os sentidos é quebrado quando lembra de Marcio e sai correndo em direção à casa ao lado. "Ele precisa tirar Marcio de lá." É a única coisa que pensa.
Ao se aproximar, Aristides encontra a porta aberta. Entra e tudo o que vê são móveis jogados, resultado de uma luta. Dá alguns passos à frente e encontra o vizinho caído, no chão, desacordado. Uma poça vermelha se formava ao redor de sua cabeça onde levou um golpe. Ele se apressa em tirar a camisa e apertá-la, com força, na tentativa de conter o sangramento enquanto grita pelo marido.
Sua mente, cada vez mais perdida, parece observá-lo de fora. O cheiro ferroso e a sensação do líquido pegajoso em sua pele o trazem de volta à realidade. Ele olha para suas mãos ensanguentadas e pode prever a destruição que se abateria sobre sua família. E quanto mais visualiza seu destino tenebroso, mais forte lhe vêm as imagens. Sente a maldade e o triunfo delas. Eram criaturas que não pertencem a este mundo, ele agora entendia. Criaturas travestidas de humanos que haviam sido convidadas a entrar no seio do seu lar, por Marcio, da maneira mais inocente possível.
Ouve passos pesados correndo de um lado para outro dentro da casa, portas sendo escancaradas e arrebentando paredes, coisas sendo jogadas. O imóvel não possui muitos cômodos e Marcio sente-se, aos poucos, enlouquecer ao passo que não encontra a criança. Já não raciocina, se joga em uma busca desesperada por sentido por todos os cantos. Ele, então, aparece, ao lado de Aristides, com rasgos na camisa, pingando suor, veias saltadas. As mãos trêmulas percorrem seu cabelo ao balbuciar:
— Tito? Eu.. Ele não me deixava entrar. Partiu para cima de mim. E o menino. Eu não encontro em lugar nenhum! — Ele afunda o rosto entre as mãos e apoia as costas contra a parede. Escorrega até o chão.
Aristides entrega o aparelho ao marido onde, na pequena tela de baixa resolução, é exibida a imagem das duas figuras. A criança que havia entrado em sua casa dias antes, e o vizinho que, na verdade, estava caído aos seus pés. Ambos os encaram fixamente com largos sorrisos zombeteiros e redondos olhos negros.
Ele checa o pulso fraco do vizinho. Ainda está vivo.
— Chama a polícia, Marcio. — Sua voz é fraca.
A babá eletrônica volta a mostrar Téo, em seu berço, dormindo profundamente.

Luana Real é carioca, advogada e escritora. Teve contos publicados em coletâneas e, no momento, tem o projeto para o lançamento do sua primeira antologia solo. Desde o ano passado, está se especializando em roteiro para o mercado audiovisual, com alguns de curta-metragem prontos para serem produzidos. Fascinada por arte, em todas as suas manifestações. Por meio do absurdo, do desconfortável, do sombrio e de símbolos, explora a natureza humana em seus trabalhos. Seus gêneros favoritos e aos quais se dedica são: terror, thriller, fantástico e realismo mágico. Com alguns respiros para autoficção.