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Por que comecei a escrever?

Por que comecei a escrever?

por Luciano Viana

São muitas as razões que me levam a isso. Vontade de contar histórias, fazer reflexões sobre assuntos do meu interesse, compartilhar textos e artigos que leio. Enfim, a lista pode ser enorme. Essas querências estão dentro da gente e pode ser que cedo ou tarde aflorem. Ou não. 

Dentro da gente também existem coisas que impedem esse começo. Acho que a principal é o medo do julgamento. Eu tenho. Muitas pessoas me mandam ir para a terapia (eu vou e ajuda). Outras vêm com uma pegada mais coach (essa não me pega muito). Ainda tem aquelas que falam no final: "é assim mesmo, faz parte". Esse último tipo é o pior pela forma mecânica de relacionamento humano. Não gosto e, pra ser honesto, me incomoda. 

Ainda bem que tem um outro tipo de pessoa que não lhe diz nada, não faz textão ou áudio podcast em tempos de WhatsApp, não tenta nenhuma bala de prata. Ela simplesmente inspira pelas atitudes. Mostra que está tudo bem errar, que as pessoas vão julgar, você fazendo o que pretende ou não. Assim, vai abrindo os caminhos da coragem para começar qualquer sonho engavetado. 

Infelizmente, uma dessas pessoas se despediu no último 26 de julho. Ela era conhecida de várias formas: Marta do Cartório, Dona Marta ou simplesmente Marta. Eu tive o privilégio de a conhecer como tia Marta. 

Apesar dos seus mais de 80 anos, sua ida foi repentina. Mexeu comigo. Vieram muitas lembranças, mas as mais vivas tinham relação com a cultura e as artes. Desde pequeno, ia a exposições de quadros, lançamentos de livros, saraus musicais, espetáculos de teatro. Todos esses artistas sempre com o apoio da tia Marta. 

Talvez o mais impressionante fossem as poesias de improviso que ela fazia. A mágica acontecia em reuniões festivas em bares, restaurantes ou na casa de amigos. Ela saía para um canto, pegava caneta e guardanapo. Pronto, lá vinha um texto cheio de lirismo e vontade. Quase sempre tinha relação com o momento, numa espécie de crônica poética que poucos sabem fazer. Seus textos lidos em voz alta mobilizavam o público, que observava atentamente, entre maravilhado e emocionado. Os brilhos das palavras ficavam na memória de quem tinha o privilégio de estar presente. E que inesquecível presente. 

A última conversa que tive com a tia Marta, presencialmente, foi para contar que seria pai. Nessa ocasião, ainda pude mencionar que estava para publicar um conto escrito por mim em uma coletânea. Prometi dar um exemplar a ela. Não deu tempo. 

Diante dessa negativa, decidi equilibrar a balança com uma afirmativa: Sim, ainda dá tempo de escrever o que quero. E essa primeira crônica é em homenagem à tia Marta. Obrigado por nos ter dado tanto e, mesmo depois de partir, ter deixado essa inspiração para buscar meu grande sonho de ser escritor. Vá em paz e volte a hora que quiser.

Luciano Viana
Luciano Viana
Ribeirão Preto/SP

Luciano Viana

Luciano Viana nasceu em Itajubá (MG) e vive em Ribeirão Preto (SP). Cientista Social formado pela USP e pós-graduado em Sustentabilidade, construiu a sua trajetória profissional na área de Responsabilidade Social e Impacto Social, percorrendo estados como São Paulo, Minas Gerais, Ceará, Maranhão, Piauí e Rio Grande do Norte. Em cada território, colecionou histórias, vozes e silêncios que hoje alimentam a sua escrita. Em 2025, iniciou o curso Formação de Escritores, dando forma a um antigo sonho: transformar experiências humanas em narrativa sensível, com olhar atento às relações sociais e às delicadezas do cotidiano.