por Luisa Leite
Comecei a fazer terapia em janeiro de 2021, porque viver uma pandemia mexeu muito com a minha cabeça. Acredito que com a de todos nós. Nesses quase cinco anos, minha psicóloga esteve comigo semanalmente, me ajudando a lidar com dilemas da faculdade, empregos tóxicos, relações controversas e, principalmente, a lidar comigo mesma.
Ela me viu concluir Engenharia, algo com que eu tentava me acostumar, mas no fundo sabia que não era pra mim. Ela soube do meu primeiro estágio, das minhas promoções e ouviu as milhares de vezes que planejei minha demissão, até finalmente acontecer. Ela observou quando decidi empreender e também quando resolvi mudar completamente de área e sair por aí com uma mochila nas costas. Mesmo viajando sem rumo, em fusos horários diferentes, nós continuamos fielmente nossas sessões. É curioso pensar como ela me viu crescer e amadurecer, e como agora ela se lembra de versões minhas que não existem mais.
Ouso dizer que fazer terapia foi o que me ajudou a bancar as escolhas que tenho feito. Decidir botar um diploma suado na gaveta e explorar novas possibilidades não foi fácil (ainda não é). Mas é libertador. Não me lembro quando resolvi finalmente aceitar que a escrita é uma parte importante da minha vida, porque saber eu sempre soube. Mas, sendo brutalmente sincera (como costumo dizer nas minhas sessões), nunca achei que tivesse futuro.
Há um mês, me matriculei em um curso de formação de escritores. Era algo que eu sempre quis fazer, mas nunca achava que era a hora. Até que, ao voltar pro Brasil, decidi parar de procrastinar muitas coisas. Tenho aula todas as terças à tarde, mas algo tem me incomodado. Eu simplesmente não consigo fazer os exercícios propostos. Não consigo criar um personagem em duas horas nem imaginar um conflito que seria digno de final de novela das nove. Isso me trava e me leva pra um lugar de inércia, que eu não gosto de estar.
E esse foi um dos assuntos que deixei pra falar na minha última sessão. Na verdade, esperei até os últimos cinco minutos antes de me despedir, porque era algo que eu ainda não queria aprofundar. Nem agora, escrevendo este texto, sei se quero. E então eis que ela me pergunta: "Mas Luísa, por que você escreve?"
Abri a boca várias vezes pra responder, mas nada saía. O que eu consegui dizer foi: não sei. Frustrante, eu sei. Justamente porque tem muitas coisas que eu gostaria de ter falado, mas simplesmente não conseguia encontrar as palavras.
Eu disse que não sabia, mas o que eu realmente queria ter dito era:
Eu escrevo porque, quando minha cabeça está bagunçada demais, a ponto de fazer meu coração palpitar e minhas mãos tremerem, escrever é o que faz tudo clarear. É enxergar minhas possibilidades, minhas ideias, meus próximos passos. É tornar palpável um plano de tudo que pode acontecer e sentir, aos poucos, a ansiedade se dissipar, entendendo que, no fim, tudo tem um jeito. Escrever é a minha forma de me acalmar.
Eu escrevo porque existem sentimentos que são difíceis de lidar. Uma dualidade constante me faz questionar se estou sendo fiel a mim mesma, se é possível existir alguém tão contraditória quanto eu, que quer 50% uma coisa e 50% outra, sem critério de desempate. Colocar tudo isso no papel (ou em um bloco de notas no celular) alivia o coração que às vezes fica pesado demais pra continuar batendo com fé. Traduzir esses sentimentos em palavras é um lembrete de que nem tudo precisa ser preto no branco. Há sempre um meio-termo, uma escala onde também podemos nos encaixar.
Eu escrevo porque era a única coisa que eu pude fazer enquanto superava um luto difícil, o meu primeiro, que eu jamais imaginei que viveria e que me dilacerou de muitas maneiras. Escrever para ele todos os dias, durante um ano, era a forma de dizer tudo que eu não disse, na esperança de que, de alguma forma, ele soubesse.
Eu escrevo porque quero colecionar memórias e nada melhor do que rascunhar as versões de si mesma, aquelas que já fui e que continuam mudando o tempo todo. É como montar um arquivo das minhas metamorfoses. Com fotos, a gente se lembra de como era fisicamente; com textos, a gente recorda como se sentia, o que pensava, o que sonhava. Cada frase escrita naquele momento revela quem eu fui e quem queria ser. E é bonito demais folhear as páginas de um caderno e perceber que eu me tornei uma versão melhor do que aquela que escrevia antes.
E, por fim, eu escrevo porque quero ser boa fazendo isso. Porque quero, sim, ser lida e tocar as pessoas com as minhas palavras, da mesma forma que me sinto abraçada por tantos escritores que leio. Ler me inspira, me faz acreditar que as palavras têm o poder de curar, acolher e transformar. Se um dia eu conseguir causar em alguém o mesmo impacto que a leitura causa em mim, vou saber que estou exatamente onde deveria estar.
Eu escrevo por tudo isso, mas, no fim das contas, acho que é simples: escrevo pra me sentir viva. Porque é transformador. Porque é de onde tiro a minha força, a minha fé na vida e a minha paz. Escrever me reconecta com quem eu sou e com o que realmente importa. Simplesmente faz sentido. E se, na próxima sessão, minha psicóloga me fizer a mesma pergunta, acho que posso simplesmente sorrir e responder: porque sim!

Luísa Leite é escritora, viajante e professora de português para estrangeiros. Formada em Engenharia de Alimentos, encontrou na escrita uma paixão que já se manifestava durante os anos de graduação e trabalho na área. Em 2025, após viajar sozinha por Minas Gerais, embarcou em um mochilão de sete meses pela Europa, experiência que a levou a mudar de carreira e buscar uma vida dedicada à escrita. É autora da newsletter Então o mundo é nosso, publicada no Substack, onde compartilha ensaios pessoais e relatos de viagem. Em 2025, participou da coletânea de contos Casos de Família, publicada pela Editora Metamorfose.