por Lu Aranha
Durante muito tempo, parecia fácil responder a essa pergunta
Escolhiam as editoras. Escolhiam os suplementos literários. Escolhiam os críticos, as universidades, os grandes jornais, os jurados dos prêmios, as livrarias que decidiam o que merecia ocupar a vitrine e o que ficaria escondido em alguma prateleira baixa, quando chegava a ser publicado.
Escolhia uma elite que, quase sempre, lia a si mesma.
Uma elite branca, masculina, urbana, escolarizada, com acesso aos meios de publicação e ao prestígio necessário para transformar determinados livros em "literatura". Não foi um acidente que tantas mulheres tenham sido tratadas como autoras menores, íntimas demais, domésticas demais, sentimentais demais. Não foi por acaso que escritores negros e negras precisaram atravessar tantas portas fechadas para que suas histórias fossem reconhecidas como parte da literatura brasileira — e não apenas como documento, denúncia ou exceção. Não foi uma distração que vozes indígenas, periféricas, dissidentes, populares tenham sido tantas vezes mantidas fora da estante principal.
O cânone não caiu do céu.
Ele foi escolhido.
E toda escolha cria também um apagamento.
Hoje, vivemos uma mudança importante nesse cenário. Um vídeo de poucos segundos pode fazer um livro antigo voltar às livrarias. Uma leitora emocionada diante da câmera pode despertar em milhares de pessoas a vontade de conhecer uma autora. Um criador de conteúdo pode apresentar um romance de uma escritora negra, uma narrativa indígena, um livro queer, uma pequena editora, uma obra que jamais receberia espaço em uma grande campanha editorial.
Há algo de profundamente bonito nisso.
O BookTok, os perfis literários, os clubes de leitura virtuais e tantas comunidades de leitores devolveram a conversa sobre livros para um lugar menos solene. A leitura saiu, em parte, da sala fechada em que poucas pessoas pareciam autorizadas a dizer o que era bom e voltou para as mãos de quem lê. Voltou para a emoção, para a identificação, para a frase sublinhada, para a indicação apaixonada entre duas pessoas que talvez nunca se encontrem.
Isso importa. E muito.
Mas talvez seja justamente por importar tanto que precisemos olhar para esse fenômeno com mais cuidado.
Porque, se antes poucas instituições escolhiam aquilo que deveria ser lido, agora os algoritmos também participam dessa escolha. E um algoritmo não é neutro. Ele não lê um livro, não se comove, não reconhece uma voz que foi silenciada durante séculos. Ele mede retenção, repetição, engajamento, velocidade, reação. Ele aprende quais capas param o dedo na tela, quais polêmicas geram comentários, quais títulos fazem alguém dizer: "você precisa ler isso agora".
A literatura passa a disputar atenção dentro de uma máquina que recompensa aquilo que circula mais depressa.
E, de repente, corremos o risco de trocar uma autoridade antiga por outra, ainda mais difícil de enxergar. Antes, a escolha vinha assinada por um crítico, uma editora, um prêmio. Agora, ela pode surgir disfarçada de espontaneidade: parece que "todo mundo" está lendo determinado livro; parece que aquela história foi descoberta naturalmente; parece que aquilo que não aparece no nosso feed simplesmente não está acontecendo.
Mas está.
Está acontecendo nas editoras independentes. Nas bibliotecas comunitárias. Nos clubes de leitura de bairro. Nas escolas. Nas feiras periféricas. Nas rodas de mulheres. Nos saraus. Nas livrarias pequenas. Nos livros publicados por autoras que ainda não aprenderam a caber na linguagem veloz das redes — ou que não querem transformar cada pensamento em conteúdo.
Nem toda obra nasce para caber em quinze segundos.
Nem todo livro será imediatamente traduzível em uma frase de efeito, em uma trope, em uma reação filmada. Há livros que pedem silêncio. Que começam devagar. Que incomodam. Que não nos entregam uma personagem "amável", um romance que funciona como promessa de conforto, uma dor fácil de compartilhar. Há livros que não têm uma campanha, uma capa reconhecível, um autor disposto a performar diariamente a própria intimidade diante da câmera.
Esses livros também precisam de leitores.
O desafio, então, não é desprezar o BookTok ou tratar toda leitura mediada pela internet como superficial. Isso seria repetir o velho gesto elitista de imaginar que só uma pequena parcela da sociedade sabe ler "do jeito certo". O desafio é não deixar que a lógica do algoritmo se transforme no nosso único curador.
Um livro pode ser muito lido e ainda assim ser importante. Pode ser popular, emocionante, divertido, romântico, fácil de recomendar — e não há nada de menor nisso. Ler por prazer é um direito. Ler o que nos chama, o que nos consola, o que nos faz companhia é parte da vida.
Mas podemos nos perguntar, de vez em quando: quem está ausente da minha estante? Quais vozes eu ainda não procuro porque ninguém me mostrou? Que histórias foram consideradas menos universais apenas porque falam de mulheres, ou foram escritas por elas, de pessoas negras, de pessoas indígenas, de corpos dissidentes, de territórios que não costumam ocupar o centro?
A pergunta não é apenas "o que estou lendo?", mas "quem me ensinou a desejar esse livro?".
Este mês, quando o mercado volta seus olhos para prêmios, listas e nomes que ganham mais projeção, a pergunta se torna ainda mais necessária. Ser reconhecido continua sendo difícil, e as estruturas de reconhecimento não desaparecem apenas porque agora temos mais telas, mais influenciadores e mais possibilidades de circulação.
A boa notícia é que nós também podemos escolher.
Podemos seguir uma indicação que nos emociona, mas procurar a autora que ainda não apareceu no nosso feed. Podemos comprar o livro que está em todo lugar e, ao mesmo tempo, pedir à biblioteca uma obra que foi esquecida. Podemos acompanhar grandes criadores de conteúdo e escutar quem fala de literatura a partir de outros territórios. Podemos transformar a leitura em prazer, sem deixar que ela seja apenas consumo.
Toda estante conta uma história sobre quem somos — e sobre o mundo que aceitamos repetir.
Talvez seja hora de olhá-la com mais atenção.
Porque escolher o que lemos também é escolher quais vozes terão a chance de continuar sendo ouvidas.

Luísa Aranha é escritora independente, professora, jornalista e blogueira. Publicou mais de 30 títulos, entre dramas, comédias românticas, eróticos, antologias e romances contemporâneos, todos em formato impresso e digital. Semifinalista do Prêmio Sesc de Literatura em 2017, é especializada em literatura de entretenimento e autopublicação, sendo uma das autoras mais lidas na Amazon, onde publica desde 2016. Seu último romance, Filhas da Terra, foi lançado em 2023 pela Editora Metamorfose.