por Cesare Arturo Domenico Bianchini
R.30.09.26
SPALATO: RENDIÇÃO E FUGA
Era 19 de Setembro de 1943, na cidade de Spalato. No fim do verão nos Balcãs, os primeiros raios de sol acompanhados de uma brisa fresca. Antecipava mais um dia esplendido, na frente daquele mar de diversas tonalidades de azul.
— Malditas baratas! — esbravejou Enzo ao levantar-se subitamente do platô rochoso onde estava deitado ao Sol. Usando sua camisa em movimentos espalhafatosos, afastava as baratas junto aos seus pés.
Ao seu lado, igualmente deitado, Cino deu uma longa gargalhada ao ver seu companheiro de armas do 4° Regimento Artilharia Bergamo afastando as baratas. Estavam juntos desde o início da invasão na Iugoslávia.
Em abril de 1941 incorporaram-se às tropas italianas no front eslavo e, em conjunto com o exército alemão, conquistaram toda a Iugoslávia. Dividindo-a em duas partes, sendo a parte banhada pelo Adriático sob domínio italiano. Na medida que avançava a ocupação, ações violentas dos batalhões fascistas italianos e nazistas levou ao surgimento de forte resistência. Chamados partisans , estes foram os inimigos dos soldados italianos no período da guerra na Iugoslávia. Guerrilheiros nacionalistas de múltiplas etnias: sérvios, eslavos, croatas muitas vezes lutando entre si.
Enzo girava sua camisa na tentativa de afastar os insetos que brotavam das fendas no maciço rochoso no Parque Mariano.
— Ora, ora ! Mas meu amigo Enzo tem medo de baratas!! Esse momento vou levar como recordação para a Italia !!
— Não tenho medo! Tenho é nojo, asco! Estas baratas não me deixam tranquilo.
Olhando de cima dos rochedos, era possível ver o porto de Spalato e algumas das suas lindas praias. E já naquele horário, cheias de soldados italianos, deitados ao sol ou mergulhando para um banho matinal. Num campo de futebol improvisado, dois times com suas torcidas em grande algazarra buscando uma alegria momentânea.
A sucessão de acontecimentos desde o dia 8 de setembro levou quase 12.000 soldados italianos a ocupar o Monte Mariano num imenso acampamento de barracas. Uma situação que piorava dia a dia. Ondas de novos soldados que estavam no interior da Iugoslávia chegavam a Spalalato e ao acampamento. Buscavam segurança e um meio para retornar para a Italia.
Cino sentado no platô rochoso, olhava para a baia e o porto de Spalato como que não acreditando no que tinha acontecido com ele e seus colegas do exército italiano.
— Spalato é espetacular, sua história, sua italianidade de séculos e milênios. O Palácio de Dioclesiano, um espetáculo. Seu povo amigável, quantas garotas conheci aqui ... algumas muito mais lindas das italianas que vieram com a ocupação! — Cino entre suspirando e apoiando os braços na rocha ,esticando todo o corpo.
— Povo amigável? Onde? Bastou nossos generais tomarem a decisão da rendição e no outro dia já viraram a cara para nós! Sem falar aqueles que foram caçados pelos partisans como lebres no campo! Não! Este povo é bárbaro, falso e se puder nos cravam uma faca pelas costas— Enzo olhava para os olhos do amigo que continuava contemplando o horizonte iluminado de Spalato.
A rendição deu-se no dia 8 de setembro, no início da noite. Através do canal oficial de rádio italiano os quase 350.000 soldados que estavam na Iugoslávia escutaram a mensagem do comandante das forças armadas:
" O governo italiano, reconhecendo a impossibilidade de continuar a luta desigual contra a avassaladora potência adversária, com a intenção de poupar à nação de mais desastres graves, pediu um armistício ao general Eisenhower, comandante em chefe das forças aliadas anglo-americanas. O pedido foi aceito. Consequentemente, todo ato de hostilidade contra as forças anglo-americanas deve cessar por parte das forças italianas em qualquer lugar. No entanto, elas reagirão a eventuais ataques de qualquer outra origem.
A primeira reação da tropa foi entender que a guerra tinha acabado, uma combinação de desejo e incompreensão da mensagem da rendição. Mas na medida que os oficiais superiores foram decifrando o comunicado, a certeza de que os dias que se seguiriam seriam decisivos e muito perigosos.
— Malditas baratas! Chega! Vou sair daqui! Vou para a praia lá embaixo. Um banho vai me fazer bem e ficar longe destes bichos nojentos! — disse Enzo já começando a levantar-se da rocha.
Neste momento, seu amigo segurou-o pelo braço firmemente:
— Fique aqui! Lembre-se de tudo que aconteceu desde a rendição! Já se passaram dez dias e tomamos uma decisão de proteger um ao outro. De lutar por comida, por um lugar seguro. Por um cigarro! E embarcar no próximo navio que chegar naquele porto! Nossos comandantes nos abandonaram! Não podemos abandonar um ao outro!
Os dias sucessivos ao armistício foram de uma total confusão no comando militar. Incoerentes ordens dos generais iam desde a rendição integral aos alemães que estavam no entorno de Spalato ou resistir aos alemães e aos partisans. Comunicações cortadas com outras cidades na Iugoslávia e seus comandos militares pressionaram os generais italianos, em cada centro de ocupação, a decisões individuais.
— Entendo! Precisamos suportar um ao outro, redobrar os cuidados, a vigilância! Mas qual o problema de descermos para a praia junto com os demais soldados? Talvez consigamos comer algo diferente de carne de cavalo! Não aguento mais! —respondeu Enzo já buscando suas botas.
Uma das decisões precipitadas do comando militar foi abandonar do dia 10 de setembro os quarteis com todos os viveres e instalações. A população saqueou imediatamente todos os depósitos gerando um clima de festa nas ruas. Com a escassez de alimentos para os milhares de soldados italianos, a ordem foi sacrificar os cavalos dos diversos regimentos. Um improvisado frigorífico ficou lotado de carne de cavalo, única disponível, com gosto peculiar. Outro meio de conseguir comida era no câmbio negro, onde todos os viveres italianos eram comercializados num mercado improvisado na praça central de Spalato.
Cino levantou-se na pedra, olhou para as praias com centenas de soldados, via parte das barracas montadas no grande Parque Mariano. Olhou para Enzo que estava visivelmente alterado. Compreendeu que o acúmulo da tensão dos últimos dias tinha impactado fortemente seu amigo. Não eram mais soldados, não tinham mais armamento, não eram prisioneiros, mas não eram combatentes. Estavam à sorte dos acontecimentos, sem um comando superior. Estavam como que perdidos.
— Pode ir, tome cuidado. Conto com você ao meu lado no primeiro navio para Bari. Leve meu dinheiro e tente comprar cigarros e alguma garrafa de vinho. Eu ficarei aqui, vou aproveitar esta calma e silencio.
Do bolso da calça que estava vestindo há mais de 3 semanas, tirou um maço imenso de liras italianas. Do elenco de decisões tomadas pelos generais no comando em Spalato após a rendição, autorizaram a esvaziar os depósitos nos bancos italianos da cidade. E pagar até três soldos mensais para cada soldado. Nunca tinham visto tanto dinheiro na mão. Uma falsa alegria. A rendição de 8 de setembro levou os comerciantes locais duvidarem do valor da moeda italiana. Em poucos dias, valia a metade, e até menos, do seu valor de face.
Cino viu seu amigo descer pela trilha que levava do platô até a praia, passadas largas até desaparecer no bosque fechado de árvores do Parque Mariano.
Organizou suas botas e meias, dobrou cuidadosamente sua camisa e com uma pequena mochila que levava algumas frutas, o cantil de água e os cigarros improvisou um travesseiro. Apoiou a cabeça e olhando para o azul infinito daquele céu. Começou a organizar seus pensamentos. Focou antecipar nos riscos e como atacá-los.
Nas próximas semanas.: fome, partisans e alemães.
A fome , sempre presente. Não teria solução salvo o apoio do exército aliado, ingleses em especial. Era urgente receber algum navio com viveres. Os 12.000 soldados do dia 8 de setembro chegariam a mais de 20.000 nos próximos dias.
Os partisans tinham tomado Spalato. Após o assalto aos quarteis no saque de seus depósitos de alimentos, fardamentos, botinas e tudo mais necessário para reequipar suas milicias fizeram um primeiro contato com o comando militar italiano. O acordo proposto era não impedir o regresso dos soldados italianos. Em contrapartida, todo o armamento individual, carros de assalto, tanques, canhões seriam entregues aos partisans. Utilizariam na contenção do avanço dos alemães na tentativa de retomar Spalato. Os generais concordaram.
Adicionalmente, não iriam poupar qualquer membro das milicias fascistas, dos funcionários públicos do governo e qualquer colaborador de Mussolini. O ditador já afastado do comando das forças armadas em Abril, estava praticamente preso na Italia. Uma grande confusão nas milicias fascistas espalhadas nos diversos fronts de guerra. Tinham esperança de um retorno imediato de seu líder, com ações em curso de seu aliado Hitler. Para libertá-lo.
Diariamente, na praça central de Spalato, ocorriam execuções de dezenas de fascistas, homens, mulheres, militares e civis. Muitos oficiais fascistas eram marcados a fogo na testa com a estrela do movimento de resistência. Somente no dia seguinte, após longa agonia, eram fuzilados. Desde a rendição, todo o ódio partisan foi usado em mais de 800 julgamentos sumários e execuções dos simpatizantes de Mussolini. Valas comuns cheias de corpos espalhadas ao redor de Spalato.
Os partisans tinham outro entendimento para os soldados italianos. Que não tiveram escolha. Jovens de vinte anos foram obrigados ao alistamento e seguiram para front de batalha. Não foram voluntários para levar a doutrina fascista na ponta da baioneta.
O movimento de resistência partisan identificou a grande confusão após a rendição do exército italiano. Como Cino , milhares foram convidados a unirem-se ao exército de resistência e combater os alemães. Em toda a Iugoslavia ocorreu uma maciça adesão, formando batalhões de até 20.000 soldados italianos partisans.
Sob o Sol que aquecia seu corpo, Cino levou a mão na cabeça, como num gesto automático. Lembrança do contato com os partisans no dia 17 de setembro. Tocou sua cabeça, nada além de seus cabelos suados.
Na ocasião, um comandante das milícias partisans entrevistava membros do 4° Regimento de Artilharia Bergamo para a resistência armada. Eram os soldados italianos mais familiarizados com a luta na montanha. O comandante partisan ao iniciar a conversa, colocou na cabeça de um surpreso Cino a boina com a estrela vermelha ,símbolo dos partisans iugoslavos.
— Olhe só! A boina lhe caiu bem! Vocês artilheiros da Bergamo são os combatentes que precisamos para nos livrar dos alemães! — olhando ao redor para os demais partisans que estavam na barraca entrevistando outros soldados italianos.
Cino lembrou o momento que foi chamado às armas, há mais de dois anos atrás. Após o alistamento a escolha da artilharia na Divisão Bergamo era para poucos recrutas. As provas físicas e capacidade aeróbica testadas à exaustão. Lembrou de um teste de capacidade pulmonar: encher um balão com três litros de volume em poucos segundos. Lutariam em montanhas. Subiriam e desceriam com todo o equipamento e armamento. Um corpo de elite e reconhecido pelos partisans.
Todos olhavam Cino com a boina na sua cabeça. Como sairia dessa?
Tinha passado dois anos na linha de frente. Situações inimagináveis de violência e atrocidades testemunhadas tanto de ações dos alemães, partisans e italianos. As inúmeras operações de "limpezas" em povoados e vilas onde, muitas vezes se perguntou: "Por que tanto ódio a este povo? ". Não entendia qual a razão de tanto ódio, das execuções, dos saques e incêndios. Superou semanas no Hospital Militar em Spalato após grave ferimento no verão de 1942. Era um homem de vinte e dois anos forjado na sobrevivência. Não tinha medo, tinha superado esta fase. Para alguns, o medo levava a paralisia. Para ele, era um desafio e empenhava todos seus esforços para superá-lo. E com um sentido aguçado de identificar riscos e antecipar ações para mantê-lo vivo.
Retirando lentamente a boina da cabeça, alinhou novamente os cabelos louros. Olhou com atenção a estrela vermelha bordada na boina. Um silencio instantâneo se fez na barraca.
— Comandante, desde que cheguei na Iugoslávia entendi os partisans e o seu amor ao país, à sua terra, ao seu povo. Fomos os invasores e de uma maneira não esperada estamos voltando para nosso país. — neste momento estendeu a mão e depositou a boina na mesa em frente ao comandante partisan.
— Os americanos chegaram na Sicília em Julho e passaram o estreito de Messina no início deste mês. Decidi retornar para a Italia e expulsar o exército nazista de meu país. Vou me alistar na Força de Libertação Aliada . A minha guerra é libertar meu país. Agradeço o convite. Mas retornarei para a Italia.
O comandante partisan tirou um cigarro do maço, ofereceu um para Cino e ao acendê-los, na primeira baforada, levantou-se:
— Garoto, só posso desejar boa sorte. Vamos tentar segurar os alemães num raio de 20 quilômetros de Spalato. Boa sorte! E se não conseguirmos segurar os -nazistas, que você embarque antes que cheguem em Spalato. — palavras do comandante partisan que Cino lembraria nos próximos dias.
Sorte que Cino não teve no dia 15 de setembro. Três pequenos navios mercantes atracaram em Spalato para a evacuação de soldados italianos para Bari. Num esforço para conduzir a retirada, foram sorteados os batalhões e o 4° Regimento Bergamo não foi escolhido. Talvez na próxima evacuação.
Levantou-se com certa dificuldade. Olhava para o mar azul, sob o sol que aquecia seu corpo . Para a linda Spalato lá embaixo.E a sua preocupação concentrou-se, no maior risco.
Os alemães. O comandante partisan estava certo. Quando os alemães conseguissem vencer a resistência e entrar em Spalato, os soldados italianos seriam tratados como traidores. Seriam aprisionados, deportados para campos de trabalho forçado na Alemanha. Muitos seriam fuzilados, em especial os oficiais. Tinha visto em 1942 quando do avanço na Iugoslávia, milhares de prisioneiros eslavos e judeus e serem embarcados em trens com destino à Alemanha.
Alemães, fome e partisans . Nesta sequência, os maiores riscos das próximas semanas. Talvez, próximos dias.
E primeiro de tudo, a esperança da salvação num navio para retirá-lo de Spalato.
Do que tinha sobrado do comando central italiano Cino tinha um amigo radiotelegrafista de Treviso, sua cidade natal. Quando não conseguiu embarcar em 15 de setembro, soube através dele que uma nova frota com 4 navios estava em formação para atracar entre 22 a 23 setembro. Evacuariam quase 4.000 soldados. Iria confirmar no dia 21 setembro quando encontrasse seu amigo. Com sorte estaria em solo italiano antes do final do mês.
No front de combate, ter esperança era como uma centelha que mantinha viva a chama para seguir em frente. Ter calma, foco e concentração na solução de novos desafios. Estava quase meditando, pés descalços, braços estirados aquecido pelo sol e respirando a brisa do mar. Olhava para o infinito horizonte sabendo que a Italia estava a menos de um dia de navegação.
Neste momento, notou que o ruído das ondas mar quebrando nas pedras estava diferente, tinha mais um som, estranho. Não era de um motor. Nenhum barco à vista. Ao identificar que era uma sirene, olhou para a praia cheia de soldados italianos e virou para o céu as suas costas.
Pontos escuros no céu: eram aviões. Em represália a rendição do exército italiano às forças americanas e fim da aliança com a Alemanha, o comando nazista ordenou ataques aéreos nos acampamentos italianos em Spalato. Antecederiam a tomada por terra, com o deslocamento maciço de batalhões alemães, comandos fascistas e os "ustacias" o temível e sanguinário exército croata apoiado pelos nazistas e fascistas.
Cino identificou pela sirene uma esquadrilha de oito temíveis Stukas. Com seu dispositivo apelidado "Cornetas de Jericó". No mergulho final aterrorizavam suas vítimas com um som ensurdecedor. Olhou novamente para a praia, lotada de soldados. Notou que alguns já corriam para abrigos afastados da praia e outros para o mar.
Escalando nas rochas para encontrar uma melhor proteção, a intensidade absurda da sirene indicava que o ataque seria em instantes. Cino mergulhou embaixo de uma grande pedra. Um atrás do outro os Stukas descarregaram bombas de fragmentação. O ataque era terrível, pois a chuva de estilhaços de pedaços de metal provocava grandes perdas. Em especial, na aglomeração do acampamento no Parque Mariano e seus quase dez mil soldados.
No acampamento e nas praias soldados italianos corriam desesperados. Não durou mais de um minuto para o ruído dos Stukas ser substituído pelos gritos dos feridos.
Cino saindo da sua proteção, olhou para a praia e já no mar alguns corpos boiando. Olhou para seus pés e viu que estava descalço. Buscou suas botinas e na pressa em calçá-las lembrou de Enzo: "Escapou?"
Cino corria na trilha em direção à praia pensando em seu companheiro. Não sabia se o encontraria com vida. Na medida que chegava à praia, ficou horrorizado com a visão dos feridos, agonizando ao solo ou saindo do mar ensanguentados. Muitos corpos boiando no mar, gritos e pedidos de ajuda.
Neste momento alguém puxa seu braço e grita:
— Você que não está ferido! Ajude nas padiolas para levar os feridos ao hospital!
Era um oficial organizando as equipes de remoção das centenas de feridos. Em conjunto com outros soldados iniciaram o transporte ao hospital militar que ficava muito próximo, a uns 300 metros da entrada do Parque Mariano .
Horas removendo feridos sem parar, exausto no entra e sai do hospital lotado de feridos graves e corpos dilacerados. Cino testemunhava a falta de estrutura de um exército que tinha se rendido, entregue a sorte e longe de seu país. Sem meios para atender a tragédia que tinha ocorrido.
Em cada momento daquela loucura, em cada remoção, não deixava de procurar Enzo. Sentado num banco na entrada do hospital, buscando recobrar forças, recebeu novas ordens do comando de resgate.
Buscar os corpos dos soldados mortos que, ou boiavam na praia ou sem vida nas barracas do acampamento no Parque Mariano.
Com alguns caminhões, um grupo de 20 soldados organizou a remoção para um grande pavilhão junto ao hospital. Já iniciava a tarde em Spalato. Ao fim da noite estavam no chão de pedras centenárias, um ao lado do outro, os corpos de 800 soldados italianos. Alguns irreconhecíveis. Cino não encontrou seu amigo. Angustiado , retornou ao hospital. Ele deveria estar naquele caos. Ou, definitivamente, desaparecido.
Caminhando entre os corredores improvisados dos mais de 1.000 feridos, entre gritos e a impotência do corpo médico para atender a todos, Cino buscava seu amigo. Impressionava a quantidade de soldados com pedaços de metal cravados no corpo, estilhaços de todo tamanho aguardando sua retirada.
Ao passar por um ferido que estava deitado de bruços, onde não podia ver com clareza o seu rosto, ao aproximar-se, era Enzo.
— Enzo! Desgraçado, porque você desceu para a praia!
O amigo ferido fez um esforço para virar-se, olhou para Cino sorrindo:
— E eu ia deixar você voltar para a Italia sozinho? Estou aqui, vivinho!
O ferimento teve como causa um grande estilhaço de metal numa das nádegas. Sua remoção era urgente para estancar o sangramento e permitir que ele saísse do hospital. O mais rápido possível.
— Como é que você se feriu? Onde você estava no ataque?
Neste momento passou um enfermeiro para avaliar o procedimento para retirada do pedaço de metal. Olhando o tamanho do mesmo, disse:
— Soldado, acabou a morfina. Para retirar este estilhaço, vou fazer sem nenhuma anestesia. A proposta é eu voltar aqui com uma garrafa de aguardente de ameixa. Você toma uns bons goles e resolvemos em um par de minutos— disse o enfermeiro num tom de voz calmo, passando segurança em cada palavra.
Alto, forte, cabelos grisalhos o enfermeiro impunha naturalmente um respeito inquestionável. Sem margem para duvidar dos procedimentos que iria utilizar no atendimento aos feridos.
Enzo concordou e o enfermeiro foi buscar a garrafa.
— Onde você estava quando foi ferido? — Cino retoma o questionamento.
Chega a garrafa de aguardente, e o enfermeiro ajudou Enzo para uma melhor posição e beber todo seu conteúdo.
— Cino! Eu estava na praia, dividindo um pedaço de salame com outros soldados. Quando iniciou o ataque, muitos correram para as barracas! Mas fui puxado para o mar por outros soldados! Na corrida eles gritavam para eu mergulhar o máximo possível pois os estilhaços seriam amortecidos pela água!
Já tinha tomada meia garrafa, retomou folego e concluiu:
— Fiz isso, e fui fundo até sentir algo em minha nádega! — e dando uma grande risada apontando para o estilhaço — Coloquei a mão e vi que tinha sido ferido.... subi à tona, consegui chegar na praia e caminhar até aqui.
Olhando ao redor, o ferimento de Enzo era um dos menos grave. Teve muita sorte. Muitos dos feridos naquele pavilhão não superariam a primeira noite pela combinação da gravidade e falta de recursos médicos.
O enfermeiro retornou pronto para o procedimento, seu amigo já estava visivelmente anestesiado pela aguardente e Cino despediu-se :
— Enzo, volto amanhã pela manhã e levo você daqui. Precisamos sair de Spalato urgentemente.
Puxou o enfermeiro para perto de si e sussurrou:
— Preciso de uma garrafa desta aguardente, por favor.
O enfermeiro olhou Cino de cima para baixo, o uniforme com manchas de sangue, exausto pelo contínuo transporte de feridos e mortos.
— Fique aqui. Vou lhe trazer a garrafa e um uniforme novo. Do jeito que está o seu cheio de sangue, parece que foi igualmente ferido no bombardeamento.
Com a garrafa enrolada no uniforme novo, Cino saiu pelas ruas de uma Spalato em grande confusão, um vai e vem de caminhões e meios de transporte cedidos pelos partisans aos italianos. Não iria retornar ao acampamento do Parque Mariano sujeito a novos ataques. Precisava lavar-se, limpar o sangue de seu corpo.. Era noite e decidiu ir para a praia, agora deserta.
Tomou alguns goles da aguardente. Tirou toda a roupa e nu entrou no mar. Aquele mesmo mar que recebeu centenas de corpos do exército italiano. Jovens como ele. Após algumas tentativas, conseguiu boiar, olhos fixos para um céu escuro. Uma sensação boa, a água fria como um bálsamo em seu corpo. E assim ficou alguns minutos, sentia como um enorme cansaço, olhando um céu estrelado. Um silêncio inesperado, um momento de paz.
Estava não mais de vinte metros da praia, boiando. Neste momento escutou alguém gritar, apontando uma potente lanterna para seu rosto:
— Soldado! Saia da água! Agora!
Cino aturdido com os gritos, o feixe de luz em seu rosto não teve escolha a não ser sair da água. Começou a nadar para a praia.
— Qual pelotão está lotado? — gritava da praia aquele vulto com a lanterna apontada para seu rosto.
Saindo do mar, completamente nu, tirando a água salgada do rosto e olhos respondeu :
— 4° regimento de artilharia Bergamo .
Somente neste momento pode identificar, pelo uniforme e divisas, que era um sargento italiano.
— Não tenho dúvidas... com estas pernas e corpo atlético somente poderia ser da Divisão Bergamo, um homem das montanhas! — respondeu o sargento direcionando o feixe da lanterna por todo o corpo de Cino .
— Você está ferido? — após a inspeção do fardamento sujo ensanguentado e com o feixe da lanterna apontando para o rosto.
— Não, estava somente tomando um banho para tirar o sangue dos feridos transportados ao hospital — respondeu Cino
— Deixe-me ver... gire totalmente para ver seu corpo! Para onde vamos, não entra nenhum soldado ferido! — manejando a lanterna para focar todo o corpo de Cino.
Constrangido, mas obedecendo as ordens de um superior, começou a girar lentamente seu corpo totalmente nu, as mãos ao alto. O sargento, apontando a lanterna para todas as partes do corpo, de cima a baixo, como inspecionando uma nova aquisição.
— Coloque o maldito uniforme! Estamos reagrupando os sobreviventes num lugar seguro! Chega de tantas barracas aqui no Parque Mariano!
Ao buscar as calças, a garrafa de aguardente rolou à mostra do sargento.
— Quer um gole? — Cino indicando a garrafa.
Cino conhecia aquele olhar. Já tinha enfrentado na Iugoslávia situação parecida. E com tal asco que Enzo tinha por baratas, ele tinha por homosexuais.
Pertencia a uma geração entre guerras, moldada pela doutrina fascista. Desde os bancos escolares, a formação de um novo homem italiano: viril, forte e atlético. O fascismo e seu patriotismo fisiológico elevaram a visão do cidadão soldado como única. E qualquer desvio seria perseguido e punido.
No fascismo nenhuma diversidade política, sexual ou religiosa era tolerada. A homosexualidade era um crime igual à uma injuria a Mussolini. Na parte meridional da Italia, ilhas foram transformadas em prisões para receber os " desviados sexualmente" afastando-os da sociedade dita normal. Uma perseguição em menor grau que em curso na Alemanha, com os horrores impostos em campos de concentração e trabalhos forçados. O sargento sabia dosar seu desejo com a prudência em satisfazê-los. Aquele soldado a sua frente valia arriscar, pois tinha um trunfo na mão para usar no momento certo. Sobrevivente da tentativa de transformação integral para um soldado viril, mantinha aparência em todas as ações como oficial do exército italiano. Por isso o cuidado na abordagem de novos encontros. Não podia errar.
Cino não tolerava esta diversidade sexual, em especial em companheiros militares, razão que começou a nutrir uma sensação de repulsa aos olhares do sargento.
Após esvaziar a garrafa, enquanto Cino vestia o uniforme, falou lentamente:
— Não sei como você conseguiu esta garrafa, mas se conseguir outra, por favor me avise para tomarmos juntos — e orientando o caminho — Vamos para um grande estaleiro no porto. Tem muito espaço e muita chapa de aço para se proteger de novos ataques. — atirando a garrafa vazia ao mar.
Cino conseguiu ler no uniforme o nome do sargento: Rosai.G. Obedecendo à ordem, seguiu numa trilha que ligava a praia até a região do porto, tendo as costas seu superior.
Chegando na área do estaleiro o sargento Rosai indicou o galpão para Cino :
— Toda esta loucura que estamos enfrentando nestes dias seguramente terá um fim. Tenha confiança, mantenha-se alerta e pronto para salvar-se. Conte comigo— apertou a mão de Cino e seguiu para um prédio que agrupava o comando militar.
Quando chegou ao enorme portão do galpão do estaleiro, com centenas de soldados espalhados, teve a sensação de que o caminho de retorno para a Italia estava mais próximo de iniciar. Recebeu uma ração com algumas fatias de pão, frutas secas e algo parecido com uma fatia de salame. Escolheu uma grande tábua de madeira em um andaime, mastigou lentamente olhando ao redor aqueles seus companheiros. "Como pode ter acontecido, em menos de vinte dias, esta reviravolta em nossas vidas?"
O cansaço era maior que sua vontade de buscar respostas e lentamente se deitou naquela tabua. Fechou os olhos e como num desligar de uma lâmpada, adormeceu.
— Soldado, conseguiu outra garrafa?
Era 20 de setembro.
Abrindo os olhos lentamente, Cino viu à sua frente o sargento Rosai. Sentando-se no andaime, viu que o número de soldados ao seu redor.
— Sargento Rosai, vou tentar e lembrarei do senhor! — não podendo tirar os olhos da multidão de soldados. Tinha dobrado em uma noite.
Vendo a preocupação de Cino com a aglomeração de companheiros, fez um gesto para aproximar-se:
— O motivo de mobilizar neste estaleiro 3.000 soldados tem uma razão. Daqui a alguns dias atracarão navios para evacuar para a Italia todos os soldados que estiverem neste galpão. É uma frota dos ingleses, agora nossos aliados. Estamos organizando um sistema de passes para autorizar quem irá embarcar. Daqui a pouco o comandante dará as orientações para todos. Fique atento.
Cino não conseguia olhar para o sargento sem vê-lo como um maldito homossexual. Mesmo sendo o portador de uma notícia espetacular, somente olhar para o sargento era suficiente para transtorná-lo. Era inegável o quanto o sargento empenhava para manter as aparências, isso deveria custar muito para ele.
Ao ver o oficial ir se afastando, um turbilhão de pensamentos cruzou sua mente. Lembrou de seu amigo radio telegrafista que tinha antecipado a chegada de uma frota de navios. Estava se confirmando.
"Enzo não está aqui" precisava retirar o amigo do hospital e colocá-lo no galpão
"Como conseguir comida nestes próximos 3 dias?" sem a chegada de algum carregamento de alimentos para a massa de soldados aglomerados em Spalato precisava descobrir como conseguir. E urgente.
"Como conseguir a aguardente para o oficial?" era um compromisso acima de uma promessa: sentia que seu futuro estava nas mãos dele.
"Preciso conseguir o passe para o Enzo" se continuar no hospital, precisará de alguma forma receber um passe para seu amigo para o embarque dos próximos dias.
"Os alemães bombardearão novamente?" A combinação da aglomeração da tropa italiana e nenhuma organização de defesa a ataques aéreos alemães projetava enormes perdas. E o pior: o cancelamento do embarque.
"Estou voltando para a Italia" quais serão os meus primeiros passos em solo italiano, se apresentar-me ao exército aliado ou simplesmente ser um desertor.
Olhou para sua tabua e voltou a deitar-se e esperar as orientações da evacuação. Pediu para um soldado as horas: "Nove horas". Adormeceu.
Acordou sem saber que horas eram. Mas pela sua fome, era hora de encontrar algo para comer. Nenhum comandante tinha aparecido. Não sabia se a informação da evacuação já era domínio de outros soldados. Perguntou as horas para o companheiro mais próximo: "Meio dia".
"Por que estão demorando para anunciar a evacuação?"
Precisava sair para avisar Enzo no hospital, mas sem as informações e o passe para ele, não restava outra coisa que esperar. Com fome. Quase três mil soldados em um pavilhão de aproximadamente 100 metros de comprimento por 50 metros de largura, espalhados entre cascos de navios em fase de montagem.
Perguntou a um soldado ao seu lado onde eram os banheiros.
"Siga até a rampa de lançamento dos navios, junto ao mar... uma tenda improvisada sobre os trilhos vai garantir o seu alívio direto no mar" concluiu com uma sonora risada.
Ao retornar para o pavilhão, aproximou-se do andaime improvisado como um palco. Empurrando os outros soldados para chegar mais perto do grupo de comandantes italianos que dariam o comunicado da chegada dos navios, teve uma surpresa.
Entre dois generais italianos estava um comandante partisan , aquele que tinha colocado a boina em sua cabeça. Sabia que a cidade estava nas mãos dos partisans e que já tinham concordado em liberar o repatriamento dos soldados italianos. "Qual o motivo de sua presença no comunicado?"
Os comandantes italianos confirmaram que receberam um radiograma do Cairo confirmando a chegada no dia 23 de seis navios mercantis Serão escoltados por duas corvetas da marinha italiana. Uma explosão de gritos, vivas, soldados se abraçando, pulando numa eufórica celebração: retornariam para a Italia em 3 dias.
O embarque deverá ser imediato, sem perda de tempo, organizado e com rígido controle pelos oficiais militares. Os navios deverão zarpar no menor tempo possível visto riscos de ataques alemães. Para isso, seria organizada a distribuição de passes para o embarque. Os soldados serão chamados pelo nome de seus regimentos para receber o passe nominal. E mais uma orientação que seria explicada pelo comandante partisan.
Todos fixaram os olhos naquele imenso partisan , a boina com a estrela vermelha e uma metralhadora à tiracolo:
— Caros soldados italianos! Já manifestamos e novamente confirmamos que não colocamos nenhum obstáculo para a vossa repatriação. Combaterão em solo italiano até a expulsão do invasor de sua pátria. — falou num perfeito italiano.
— Mas tomamos conhecimento que na remoção para este local, muitos malditos fascistas se infiltraram no meio de vocês. Trocaram uniforme, estão escondidos atrás de uma caixa de madeira como ratos. Estes não pisarão nos navios! Não teremos piedade! Em conjunto com o comando italiano, na emissão do passe para os navios, pegaremos todos eles!
Os batalhões de "camisas negras" fascistas aprisionaram milhares de homens iugoslavos de todas as etnias em campos de prisioneiros no território iugoslavo e muitas vezes, deportados para prisões na Italia. A imposição da ideia fascista de uma raça superior – a italiana – sobre bárbaros eslavos, sérvios, croatas entre outros foi a mola propulsora de sangrentas ações destas milicias.
Os dois generais italianos mantinham-se impassíveis, aguardando a conclusão do discurso do comandante partisan , que acenando com a cabeça, retornou a palavra aos italianos.
Estes explicaram como seria a dinâmica da identificação, tinham a lista com todos os nomes e lotação militar, facilitando a entrega dos passes. Sempre com um representante partisan nas mesas espalhadas no estaleiro.
E, para surpresa de todos, informaram que o estaleiro estava completamente isolado. Para evitar o deslocamento de soldados que estão acampados em diversos locais de Spalato na tentativa de embarcar nos navios. Quem desejasse sair, com a previa análise e autorização dos oficiais italianos da evacuação, retornaria apresentando o passe em seu poder.
Imediatamente deram início ao processo de entrega de passes, chamando os soldados da 15ª Divisão de Infantaria Bergamo pois eram a grande maioria, quase um terço do total. Um a um os regimentos foram chamados numa maneira organizada e os primeiros soldados mostrando o pedaço de papel.
"Bilhete de primeira classe, com direito a champanhe e caviar" muitos aos gritos mostrando o passe recebido. Tinta sobre papel e um carimbo do egrégio exército italiano que tinha se rendido dias atrás.
Sorrisos nos rostos de quem estava próximo de sair de Spalato direto para a Italia. Talvez em breve reverem as suas famílias, muitos a sua esposa ou mulher amada. Ou simplesmente a certeza de não serem pegos pelos alemães, às portas da cidade. Atravessar o Adriático e chegar numa Italia totalmente diferente de quanto partiram, com indefinições do futuro do fascismo, dos alemães que tinham tomado Roma desde Junho passado . Mas estavam cansados, muitos desde Abril de 1941 em ações sanguinosas, de limpezas de povoados e vilas contra a população que supostamente apoiavam os seus inimigos naquele momento: os partisans. Hoje nossos protetores contra os alemães.
"4° Regimento de Artilharia" anunciou o sistema de som.
Cino dirigiu-se a mesa mais próxima para sua identificação. Um oficial italiano e um partisan buscaram seu nome na lista. Confirmada a sua lotação, recebeu o passe carimbado.
—Oficial, tenho uma situação importante. Estou buscando no hospital militar agora a tarde um companheiro do 4° Regimento com um ferimento leve. Preciso de mais um passe para os navios"— Cino, parado em frente a mesa e de uma fila de mais de 100 soldados de seu regimento.
O oficial italiano sem levantar o rosto, em tom enérgico
—Você é burro ou surdo? O coronel informou que o passe seria emitido aos soldados que estão aqui no estaleiro! Não temos um serviço de entrega no hospital militar! Saia da frente e deixem os outros serem atendidos.
Cino, imóvel. Um princípio de tumulto começava na mesa, pois os demais soldados atrás dele esperavam ansiosamente para receber os passes.
Desta vez, foi o partisan a falar:
—Espere um pouco, uma artimanha para colocar um amiguinho fascista no navio? Qual o nome dele para ver na lista dos 4° regimento? Onde está o maldito rato que você quer pegar o passe para ele? — gritando para Cino no início de uma confusão que chamou atenção do comando que organizava a entrega dos passes.
Cino começou a ser empurrado pelos demais da fila.Neste momento chega à mesa dois conhecidos seus: o comandante partisan entrevistador e o oficial italiano apreciador da aguardente " slivovice".
— Ora,ora quem temos aqui, meu fornecedor de aguardente de ameixa— disse o sargento Rosai puxando Cino para fora da fila.
O comandante partisan depois de tomar conhecimento com seu miliciano a razão do tumulto, foi ao encontro deles e a surpresa de lembrar de Cino:
— Lembro de você...isso é um sinal artilheiro. Nos cruzamos novamente! Ainda é tempo de você colocar a boina na sua cabeça! Qual a razão de mais um passe? — num tom amigável, olhar fixo em Cino.
Começou a explicar a situação de Enzo, que o enfermeiro foi o fornecedor da aguardente, e se ele fosse buscar o amigo no hospital para garantir o embarque nos navios voltaria com duas garrafas para o oficial.
Foi interrompido pelo comandante partisan :
— Traga-me um maldito fascista, ou melhor, onde se encontram escondidos e eu garanto com o oficial apreciador de uma boa "slivovice" o passe para seu amigo.
Surpreso com o pedido, conseguiu ainda perguntar ao comandante:
— Considere feito, comandante. Quando voltar com a informação, como acho o senhor?
— Procure por Ante Zevelic. Guarde este nome.
Cino foi afastado da fila, olhando para o comandante partisan até perdê-lo de vista no meio da multidão de soldados. Segurava seu passe. E com um desafio contra o tempo: entregar fascistas para garantir o retorno de Enzo para Italia nos navios que partiriam em dois dias de Spalato. Pediu as horas para um companheiro: "Quatro da tarde".
Após apresentar seu passe para sair pelos portões do estaleiro, seguiu para o hospital. Sua fome não permitia raciocinar com o foco para a solução do problema. "Onde encontrar fascistas escondidos?". E rápido. Colocou a mão no bolso e suas últimas notas de liras italianas estavam lá. Nas ruas apinhadas de partisans e população saqueando as casas dos funcionários públicos italianos fascistas executados. Numa enorme confusão, foi buscando um local que pudesse comprar algo para comer. Lembrou de um pequeno armazém no caminho do hospital.
A porta aberta, sem ninguém entro, a não o proprietário atrás do balcão. Cabelos brancos, baixo, gordo e com um avental branco surrado, num perfeito italiano:
— Seus comandantes me arruinaram! Liberaram todos os depósitos de viveres e agora estes saques! Esta turba está se refestelando como nunca!
Olhando ao redor algo para comprar, sabendo que pouco ou nada valia seu dinheiro, Cino viu amêndoas e castanha secas. Tirou todo o dinheiro do bolso.
— Quanto posso levar com isso?
O comerciante contou o dinheiro, olhando para Cino :
— Até hoje pela manhã, não valeria nada...mas mudou um pouco. Tem mais de mil Camisas Negras fascistas junto aos nazistas nos arredores de Spalato. Quando eles chegarem aqui, vamos novamente fazer negócio com eles e seus depósitos de iguarias, muito melhores dos soldados do exército italiano — olhando Cino com algum desprezo.
Entregando um saco de papel.
— Dois punhados de amêndoas ou castanhas secas.
Caminhando para o hospital que não era muito distante, mastigando e engolindo aquelas nozes secas em seu estomago, Cino ficou ainda mais preocupado. Os partisans deveriam suportar ao máximo a tentativa de assalto alemão à Spalato. Fuzilamento como traidor pelos fascistas ou prisioneiro para trabalhos forçados nos lager alemães. Seria seu destino em poucos dias.
— Cino, já estava preocupado! Vamos embora daqui, agora! Minha nádega não está uma beleza, mas o enfermeiro ao refazer o curativo disse que está tudo bem! — seu amigo em voz alta e deitado de lado na grande enfermaria entre centenas de soldados feridos.
Não sabendo como começar a narrar todos os acontecimentos, num misto de cansaço e desesperança, sentado ao lado de Enzo, ofereceu as nozes para o amigo:
— Quer um pouco? Precisamos falar....
Após narrar para um atento Enzo todos os acontecimentos desde que saiu da enfermaria com a garrafa de aguardente enrolada num uniforme novo, olhando para o amigo:
— Onde vamos encontrar malditos fascistas escondidos?
— Aqui.
Cino olhou para Enzo e depois para o pavilhão tomado de macas. Enfermeiros, médicos, padioleiros, soldados saindo com curativos, faixas, alguns mancando ou amparados. E muitos removidos, mortos.
— O enfermeiro tem ódio dos fascistas. Mas por dever da profissão, está tratando a todos. Estão apartados num canto deste pavilhão. Ele me contou que tem dezenas e estão saindo rapidamente daqui tão logo medicados e atendidos.
— Aqui? Não estou entendendo? Dezenas? Por que os partisans não vem aqui para pegá-los?
— Fiz a mesma pergunta ao enfermeiro. Parece irônico para que esquarteja em praça pública seus inimigos. Os partisans tem um código de conduta de não executar fascistas que estejam feridos. Da mesma maneira, seria uma desonra capturar um inimigo numa maca, ferido e sem nenhuma condição de defender-se.
O enfermeiro chega para mais um curativo, reconhece Cino e os olhares dos três pareciam traduzir uma cumplicidade de algo que deveria ser discutido. Com urgência.
— Olha aí o padioleiro... vai levar o soldado com a nádega furada? — concluiu com uma sonora risada.
Cino olhou nos olhos o enfermeiro, chegou mais perto e sussurrou:
— Somente se você mostrar por onde os malditos fascistas que vocês salvam estão saindo escondidos.
O enfermeiro deu um passo para trás, olhou Enzo que, com um movimento com a cabeça, deu um sinal de que Cino era simpatizante do ódio aos fascistas.
— Para que?
— Preciso segui-los e saber onde estão escondidos quando saem daqui. Com esta informação, os partisans concluem o serviço. E posso tirar com segurança o nosso amigo para bem longe de Spalato.
O enfermeiro olhou no entorno, se estava em distância segura para a conversa que teria com os soldados em sua frente.
— Mostrar a saída é fácil. O horário que saem esses porcos fascistas também. Seguindo-os chegarão ao local onde estão escondidos. Nas conversas que pude escutar, sabem que em breve seus colegas milicianos tomarão Spalato expulsando os partisans . Acho que isso ocorrerá daqui a pouco e será um novo momento. Tudo mudará.
— Realmente, isso vai acontecer em breve. Precisamos sair de Spalato antes disso. Vou ficar aqui hoje à noite para seguir até o local de esconderijo dos malditos. Não temos mais tempo e preciso fazer hoje! — Cino olhando para o enfermeiro.
O enfermeiro identificou na voz de Cino a urgência e determinação para aquela arriscada ação de localização dos fascistas. Aproximou-se a Enzo, e começou a retirar o material para fazer novo curativo. Então falou pausadamente:
— Vocês precisam fugir de Spalato. Eu ficarei, como todos os demais enfermeiros e médicos aqui do hospital. Esta cidade em três semanas terá trocado de comando entre italianos, partisans e brevemente alemães. Mas nós ficamos, somos profissionais indispensáveis. Numa guerra como está, os feridos vão trocando de uniforme, mas nós aqui sempre prontos para salvá-los — concluindo um novo curativo em Enzo.
— Eu mostrarei com uma condição. Não sei como, mas acho que vocês conseguirão voltar para a Italia.— olhando para Cino.
— Para mostrar a saída que os malditos usam preciso de um compromisso, uma garantia. — fechando a caixa com materiais de enfermagem.
Cino e Enzo se entreolharam.
— Ao voltar para a Italia, liquidar com todos os fascistas. Todos. Repito todos. Sem piedade, busquem por muito tempo os que se esconderem, trocarem de nome para apagar seu passado. Matem todos! Como se nenhuma semente ficasse perdida, para depois voltar a germinar este maldito fascismo. — já em pé ao lado de Cino e Enzo juntos ao chão que olhavam aquela enorme figura na sua frente.
— Cansei de segurar a mão de jovens que perderam as suas vidas arrastadas por um ditador. Estou na Iugoslávia desde Abril de 41 e já perdi as contas de quantos jovens fechei os olhos. E posso dizer, e ninguém pode duvidar de mim, que praticamente todos fazem as mesmas perguntas: "Por que? Por que fui acreditar nesta aventura? Por que fui obrigado a servir meu país nesse massacre de vidas humanas? Deus vai perdoar meus crimes?" — suspirou olhando ao seu redor outros feridos que precisavam de seu atendimento.
—Numa guerra sem possibilidade de vitória. Iludidos por uma propaganda odiosa, por mentiras, por um fascínio a um líder perdido e frágil. Um poder tirânico numa depravação moral sem limites por apoiar milicias sanguinárias e desumanas. E mesmo assim, enganou milhões de jovens — concluiu o enfermeiro olhando para os dois soldados, como esperando a resposta.
— Talvez, como no meu caso, não tínhamos outra opção do que servir ao nosso país que estava em guerra— balbuciou Cino.
O enfermeiro agachou-se para sua voz ser escutada somente por ele:
— Quero que guarde este conselho meu jovem. Eu não sirvo a ninguém, somente obedeço a minha integridade e firmeza moral. Não arrasto correntes invisíveis, não sou escravo de ninguém. Estou aqui pelo meu trabalho e pela minha missão de salvar toda e qualquer criatura que precise de meus serviços. Ando de cabeça erguida, repito, pelas minhas escolhas. Não sirvo a ninguém. Agora leio nos seus olhos um inconformismo e um desprezo por ter degenerado a sua alma. A depravação moral que o servilismo cobra dando migalhas em troca. Nenhuma dignidade. Somente domínio e violência. Escute bem estas palavras: seja dono de seu destino. Volte para a Italia e cumpra o prometido. Mate todos os fascistas que encontrar! Todos! Riscar a possibilidade destes tiranos voltarem! Depois, siga a sua vida. — levantando-se lentamente sob o olhar atônito de Cino.
— Mataremos todos, todos sem piedade— Enzo respondeu colocando sua mão sobre ombro de Cino.
O enfermeiro combinou que em duas horas voltaria para informar a saída do pavilhão onde as fugas aconteciam. Neste momento, Cino lembrou das aguardentes do sargento Rosai.
— Mais um favor, se possível... preciso de duas garrafas de "slivovice" . Servirão de combustível adicional para esta empreitada daqui a pouco.
O enfermeiro deu uma risada e já se afastando dos dois, com um aceno, garantiu o pedido.
Cino sentou-se ao lado de Enzo:
— Preciso dormir um pouco. Preciso estar alerta ... se descobrirem e for pego estou morto. Não tenho dúvida disso.
Enzo começava a responder, mas foi interrompido:
— Escute com muita calma, pois não vou repetir e preciso descansar. E para caso eu não voltar aqui até o amanhecer. Vou deixar o meu passe com você. Assim, terá acesso ao estaleiro. Procure o sargento Rosai com as duas garrafas de " slivovice" . Entregue a ele. Ele perguntará por mim. Como eu não apareci, estarei morto. Explique. Neste momento, peça para ele trocar o passe para o seu nome. Não sei se terá um novo controle antes do embarque. Evite qualquer risco. Mantida a programação, dia 23 você estará dentro de um navio rumo a Italia — já deitado procurando uma melhor posição para relaxar e dormir.
— Cino, entendi .... mas observo duas coisas. A primeira, você estará comigo amanhã pela manhã. Segundo, caso não ocorra isso, tenho uma dúvida. O sargento Rosai trocará meu nome no passe sem questionar, somente verificando que também sou do 4º Regimento Bergamo? Com toda esta confusão, seu passe pode ser cancelado....
Olhando nos olhos de seu amigo, buscou a solução e concluiu:
— O sargento Rosai é um maldito homossexual. Se ele resolver encrencar com seu passe, você não pode perder o navio. É uma sentença de morte. Comece um jogo de sedução, de a entender que você está disponível a trocar o passe por um momento de prazer. Maldito pederasta! — Cino falando baixo para não serem ouvidos pelos feridos no entorno deles.
Enzo escutou e manteve silencio por alguns minutos, buscando assimilar as orientações e a alternativa para solução de garantia do passe. Ao virar-se para o amigo, para buscar mais informações sobre o sargento Rosai, Cino já estava dormindo. Resolveu, igualmente, relaxar e tentar dormir mesmo com a visão em sua mente de um possível encontro com o sargento. Ele com um enorme curativo na nádega. Não conteve o riso.
— Acorde soldado! — um chute em sua bota dado pelo enfermeiro acordou Cino de sobressalto.
— Que horas são? — já sentado buscando se levantar.
— São 10 horas... você dormiu bastante e isso é bom. Se tiver que correr dos fascistas estará ao menos descansado.
E pedindo para ele se aproximar mais, sussurrou:
— No lado externo, junto ao pátio de toneis de lixo e descarte de materiais, tem uma porta verde no pavilhão. As 11 da noite sei que sairão dois ou três fascistas. Um deve ter alterado a data de nascimento... não acredito que tenha mais de 16 anos. É fácil identificar, tem um curativo na cabeça. Parece que tem um buraco na cerca e dali eles seguem para o esconderijo.
Cino fez um aceno que tinha entendido. Neste momento, na caixa de enfermagem, duas garrafas de " slivovice" envoltas em um pano usado como gaze. Guardou junto à maca de Enzo e, apertando firmemente a mão do enfermeiro , olhando seus olhos:
— Não sei se nesta maldita vida vamos ter oportunidade de voltar a nos encontrar. O que importa será a lembrança deste momento. Da confiança mútua que nasceu entre nós. Dos seus conselhos de não servir a ninguém. Posso morrer hoje ou daqui a muitos anos. Mas no momento de fechar os olhos, um pensamento meu seguirá para você. Pedindo que Deus lhe proteja de toda sorte de perigos. Muito obrigado.
— Luigi Spirandelo, é o meu nome. Para as orações chegarem ao destino certo! — numa sonora gargalhada, seguindo pelo corredor para novos atendimentos.
Enzo olhou para o amigo. Tinha muita coisa para falar.
— Não quero encher sua cabeça com as minhas dúvidas e receios. Peço somente que amanhã pela manhã você esteja aqui. Depois falamos.
Cino fez um aceno de concordância e foi ao banheiro do hospital militar.
Fazia muito tempo que não se via no espelho e ao lavar o rosto teve um susto. Estava com barba crescida, cabelos em desalinho, o rosto marcado e visivelmente magro em relação há dez dias.
Olhando fixamente a imagem refletida, tentava identificar o jovem que na Italia já era um reconhecido confeiteiro. Procurado por diversos estabelecimentos que viam nele a criatividade de seus doces e tortas. Não reconhecia o cabelo como aquele que esvoaçava na sua moto com uma linda garota na garupa. Somente um rosto cansado, magro, sujo e com os olhos azuis sem nenhum brilho. Teria a chance de ao voltar para a Italia e recuperar aquela felicidade perdida? Ou viveria eternamente com aquele sentimento de culpa que rondava sua mente cada vez mais frequente? Respirou profundamente, olhou para a pia, abriu lentamente a torneira buscando que, como a água que escorria pelo ralo, os seus pensamentos e tristezas fossem juntos.
Limpou-se como podia e, parcialmente refeito, voltou para a maca onde estava Enzo.
— Estou indo. Volto amanhã de manhã e saímos juntos daqui. — apertando a mão de Enzo que nada fez, além de um aceno da cabeça como "Estarei aqui".
Atrás de toneis com lixo hospitalar e outros materiais inservíveis, Cino mal conseguia respirar pelo odor que vinha dos mesmos. Mas não podia tirar os olhos da porta verde. Sem um relógio nada podia fazer a não ser esperar pela saída dos fascistas. Uma lâmpada na área da porta permitia ver claramente: estava fechada. A noite não estava fria e não chovia. Agora era esperar e conseguir controlar a fome, não satisfeita com dois punhados de nozes de algumas horas atrás.
Não tardou para a porta abrir e três vultos aparecerem. O enfermeiro Luigi tinha acertado. De fato, entre eles, um rapaz com um curativo na cabeça, fácil de distinguir mesmo com pouca luminosidade. Depois de uma hesitação de segundos, correram para a cerca, no local com a passagem. Uma caixa de madeira encobria o buraco na tela, que foi afastada sem dificuldade. No lado externo, uma rua deserta, sem habitações que subia para a cidade.
Cino usou toda sua experiencia de dois anos de combate nas montanhas, perseguindo partisans ou seus apoiadores. Rapidamente colocou-se na trilha dos fascistas com a distância segura suficiente para não perdê-los de vista. Sentia-se bem, correndo sem dificuldade, com seu pensamento focado em localizar o esconderijo e salvar Enzo da morte certa em Spalato. Talvez pelo fuzil nas mãos daquele jovem que corria a sua frente. Fanáticos voluntários que alteravam a data de nascimento, alistando-se em milicias fascistas e ir para a guerra. Defender a causa de seu Duce Mussolini. Tinha visto muitos adolescentes nas milicias Camisas Negras que acompanhavam os batalhões do exército italiano.
Já tinham chegado numa zona urbana, onde as ruas estavam completamente vazias pelo toque de recolher imposto pelos partisans. A iluminação dos poucos postes de luz, algumas fogueiras e ainda algumas residências com chamas de recentes incêndios. Casas de fascistas ou empregados públicos italianos saqueadas e depois queimadas pelos partisans.
O grupo de fugitivos parou em frente a uma casa, escondendo-se atrás de um muro. Silencio absoluto. Um dos fugitivos atirou 04 pequenas pedras na proteção de madeira de uma janela. Esperou mais alguns minutos, e novamente atirou 4 pedras. Cino acompanhava atentamente. Era a senha para abertura da porta. Que abriu e os três fascistas desapareceram por ela em segundos.
Acomodado em uma posição que via toda a frente da casa, avaliou a situação. Ou os fascistas ficariam ali, como num esconderijo, ou seria uma passagem para algum outro local. A casa não era grande para acomodar as "dezenas de fascistas" conforme relato de Enzo e do enfermeiro Luigi.
Precisava ter certeza que ficariam ali até o momento que conseguisse falar com o comandante partisan e sua milicia. Precisavam chegar antes de uma eventual fuga dos fascistas.
Estava começando a se deslocar-se para a parte dos fundos da casa e ver se existia uma porta de saída. Ao fazer dois passos, perto de uma árvore, uma ordem em voz baixa o paralisou:
— Alto lá soldado! Nem mais um passo!
Cino paralisado.
— Qual o motivo da curiosidade em ver o movimento daquela casa? — numa voz que não era de homem. Poderia ser um adolescente ou uma mulher.
Da sua resposta, o seu destino. Não saberia as consequências. Mas tinha passado por muitas situações em que uma mão invisível sempre o puxou para a sobrevivência. A mais recente foi no bombardeio de ontem.
— Sou um soldado italiano de um exército que pediu rendição no início do mês. Estamos a mercê dos partisans e dos fascistas. Dos partisans temos um acordo. Com os fascistas temos somente uma sentença de morte, tão logo entrem com os nazistas em Spalato. Preciso localizá-los o mais rápido possível, e matá-los. Todos!
No silêncio, conseguia escutar a respiração do vulto.
Pouco a pouco começou a tornar nítido seus contornos. Era uma mulher não mais de trinta anos, cabelos presos, vestida com uma calça e camisa do exército italiano.
— Não sou um soldado italiano... estou usando os uniformes que seu exército abandou nos depósitos. São bons, confecção italiana, tecido e botões bem acabados— disse a mulher ficando ombro a ombro com Cino.
— Lhe veste muito bem. Parece ser seu número.
Os dois se olharam nos olhos. Uma mulher linda.
— Prazer, Rita, não tenha medo. Meu propósito é o mesmo. Ontem achei estranho o movimento de alguns homens entrando naquela casa. Mas preciso ter certeza antes de avisar o comando, para evitar uma emboscada. Durante o dia ninguém saiu daquela casa. Estão lá.
— Eles são fascistas, isso eu tenho certeza. Vieram do hospital militar e segundo informação recebida, buscam um esconderijo para aguardar a entrada dos Camisas Negras com os nazistas nos próximos dias. — Cino entre alegre por ter encontrado o esconderijo e ter confirmado com Rita que ainda estariam todos lá.
— Estou falando com quem? — Rita recostando o corpo na mureta que dava abrigo aos dois.
— Cino, 4° Regimento de Artilharia Bergamo. De um exército que se rendeu, nos abandonou a própria sorte e viramos tábua de tiro ao alvo de partisans, nazistas, fascistas e das milicias ustacias. Todos a seu turno... preciso ir embora de Spalato na máxima urgência!
— Voltará para a Italia para alistar-se no exército aliado? Combater os nazistas e fascistas?
Cino buscou o céu escuro para ter uma inspiração para a resposta. Era uma noite com muitas nuvens, sem uma estrela, sem a Lua. Como sua mente: opaca e sem brilho.
— Ao decidir servir ao meu país, na lista das razões e motivações, a última era vontade. Dezenove anos, já um mestre confeiteiro depois de 9 anos de aprendizado nas melhores confeitarias da minha região. Ganhava um bom salário com a arte de fazer doces. Prestígio e um futuro brilhante. Talvez a minha própria confeitaria. Ser meu patrão.
— Aí todos meus amigos, a maldita doutrina e propaganda fascista foram me empurrando para a porta de um quartel, servir ao meu país. Invasão da Iugoslávia, dois anos de horrores que não sei se esquecerei. Martelava na minha cabeça que eu não era o culpado daquelas atrocidades e sim quem me mandava fazer... assim servi para a Italia. Até o dia 8 passado quando simplesmente passei de soldado combatente para um soldado que se rendeu.
— Por que você não aceitou o convite de lutar junto aos partisans para expulsar os alemães de nosso país, como muitos companheiros seus que aceitaram? — sem olhar para ele, as palavras saindo lentamente de sua boca.
— Não quero servir a mais ninguém, mas sei que é impossível. Sai de casa servindo um uniforme e tudo indica que voltarei com outro, infelizmente. Mas que isso ocorra daqui a alguns meses, depois da minha volta para a Italia. Colocar a boina dos partisans agora seria continuar sem parar nas matanças. As noites geladas com toda a roupa encharcada e enlameada. Preciso parar, preciso respirar um outro ar e um novo lugar. — mal conseguindo pronunciar as palavras, num misto de cansaço e tristeza.
Um silêncio se fez entre os dois.
— Entendo, conheci muitos italianos que aderiram aos partisans. O sentimento que tenho é que viraram máquinas de matar, tem sangue nos olhos e um ódio que precisam descarregar de alguma maneira. — levantando-se, como que encerrando a conversa.
Cino voltou à realidade. Sua missão tinha concluído com êxito. Localizado o esconderijo dos fascistas. Mas não falaria com ela os motivos da sua missão.
— Rita, vou voltar para minha base. Sorte para você.
— Espere um pouco... como você não tem armas, não sei como matará a todos os fascistas que estão naquela casa. Quem fará isso?
— Um de seus comandantes partisans, Ante Zevelic. Quanto mais cedo chegarem aqui, mais cedo estes malditos serão exterminados. Estou indo agora encontrar Zevelic.
Rita olhou Cino já em pé, pronto para retornar a sua base:
— Avise Zevelic que Rita está aqui na vigilância da casa. Entenderá que será uma missão mais segura. Corra o quanto antes para avisá-lo!
Após um longo percurso numa Spalato deserta, fazer o caminho de volta entrando no pátio do hospital militar, chegou em frente à maca de Enzo. Ofegante atirou-se ao chão e acordando seu amigo
— Resolvido! Localizei o esconderijo. Vou pegar meu passe e seguir agora para o estaleiro. Preciso comunicar o comando partisan .
Enzo virou-se para um ferido perto dele e perguntou as horas: "Três da manhã"
Era dia 21 de setembro.
— Ninguém estará lá no estaleiro as três da manhã.... — Enzo não tinha acabado a frase e Cino , com seu passe, já seguia para o portão do hospital rumo ao estaleiro. E enroladas, as duas garrafas da aguardente numa sacola improvisada.
Parou e voltou o rosto para seu colega na maca:
— Se nome completo é Lorenzo De Lucca Zanosso, isso?
Enzo acenou confirmando.
No caminho pensou em quantos fascistas estariam lá. Esta pergunta seria feita pelo comandante para dimensionar a equipe. Se estariam armados, com algum apoio da milicia fascista de Spalato."No mínimo uns 10 fascistas e no máximo com armas individuais leves". Isso.
Chegando no estaleiro, autorizado a retornar ao pavilhão, foi direto ao prédio onde estava o comando italiano. Saberiam onde encontrar os líderes partisans. Ao abrir a porta, numa sala enfumaçada pelo cigarro, diversos oficiais italianos, mas nenhuma boina vermelha.
— Por favor, o sargento Rosai se encontra?
Um dos oficiais vira-se para Cino informando que estava dormindo. Voltasse as seis horas da manhã.
— Oficial, é muito urgente. Preciso falar com ele ou com algum comando partisan que se encontre aqui. Não posso perder nem um minuto.
Do fundo da sala começa aparecer, passo a passo, o comandante Zevelic:
— Ora, ora o artilheiro da Bergamo! Estou aqui compartilhando a hospitalidade do exército italiano. Sempre aparece mais uma garrafa de vinho escondida! — indo ao encontro de Cino.
Antes mesmo de chegar com sua enorme mão para buscar a mão de Cino, uma

Domenico Cesare é engenheiro, gaúcho de Porto Alegre, 67 anos. Após uma vida profissional pautada no relacionamento e gestão de grandes equipes, decidiu investir suas experienciais pessoais e familiares contando histórias. Em especial, escrever a sobrevivencia de sua familia italiana nos anos conturbados que antecederam a segunda guerra mundial até seu desfecho. Participando do Curso de Formação de Escritores estreia com seu conto - Os orixás disseram não - na Coletânea Toda Forma de Amor 2025.