SUBMISSA
? Você tem certeza de que quer se casar aos 17 anos, Raquel?
? Quero, sim, Rebeca. Eu amo Jacó. O quanto antes nos casamos, mais cedo cumpriremos o propósito de Deus e formaremos uma família.
? Você pode se casar com ele depois de se formar, estudar alguma coisa, ter uma profissão. Sei lá...
? Eu não preciso ter uma profissão, Rebeca. A minha ocupação vai ser dona de casa, esposa e mãe. Parece até que você não ouve as palavras do pastor Josué. O homem é o provedor da família. A mulher deve cuidar da família, da casa, dos filhos e do marido.
Rebeca, mesmo convidada para ser minha madrinha, questionava a minha decisão, mas eu estava certa do que estava fazendo. Eu ia me casar. Meus pais apoiavam. Meus líderes da igreja consideravam a mim e Jacó um casal jovem exemplar. Nós estávamos concretizando tudo o que ouvimos por tantos anos.
A mulher foi criada para ser auxiliadora do homem. Então, a mulher precisa se casar. As mulheres devem ser submissas a seus maridos. "Mulher virtuosa, quem a achará? Seu valor muito excede ao dos rubis."
Nos encontros de juventude, em que estavam rapazes e moças, as regras prosseguiam. Havia muitas regras sobre ser homem ou ser mulher.
O homem deve ser o provedor do lar, aquele que mantém a família, o cabeça da esposa, o chefe da família. A mulher deve cuidar da casa e dos filhos. Deve atender as necessidades do homem, deve estar sempre bonita e bem cuidada.
Quando eu fiz 15 anos, participei de um retiro exclusivo para mulheres jovens. Éramos umas 50 garotas. Fomos divididas em quatro grupos para uma gincana que aconteceria durante o retiro. Na gincana, tínhamos que tirar mancha de camisa, arrumar camas, lavar louça. Eram tarefas domésticas. As dinâmicas nos faziam competir para descobrir quem seria a melhor dona de casa. Rebeca era um desastre nessas atividades. Eu me destacava sempre.
As palestras do retiro tinham conteúdo igual ao que sempre ouvíamos. A mulher sábia edifica a sua casa, a tola a destrói com as próprias mãos. As mulheres devem ser sensatas, bondosas e puras, se ocuparem da casa. O principal é que sempre sejam sujeitas ao marido, assim Deus será glorificado.
Eu estava imersa nesse discurso desde que nasci. Aprendi muito cedo que homens e mulheres têm papéis bastante diferentes. Minha família repetia: Feche a perna, menina. Sente-se direito, você já é uma mocinha. Desça dessa árvore, você é uma menina. As meninas devem fazer balé, para aprenderem disciplina e delicadeza. Eu acreditava em tudo e confiava no que ouvia. Para ir à igreja, usava uma maquiagem leve, que realçasse a minha beleza, mas que não me expusesse como uma mulher qualquer, uma mulher que não é virtuosa.
Minha mãe era a mulher mais virtuosa que eu conhecia. Era o meu exemplo: uma exímia dona de casa, uma mãe sempre presente. Era a auxiliadora perfeita do meu pai.
Meses depois do retiro de jovens mulheres, conheci Jacó. Frequentava nossa igreja há uns três meses. Ele tinha 17 anos, estava terminando o Ensino Médio, era jovem aprendiz de um grande banco, dizimista, tocava piano e teclado, a família também era da igreja. O homem perfeito.
Jacó se aproximou de mim com uma piada bíblica. Ouvi dizer que você é a Raquel. Será que terei que trabalhar por sete anos para ter você como esposa? Eu ri, fiquei sem palavras, a princípio. Quando descobri as palavras para falar, respondi: Em sete anos, Jacó casou-se com Lia. Para casar-se com Raquel, foram 14 anos. Ele disse que nossa cultura não aceitava poligamia e me chamou para tomar um refrigerante após o culto. Fez questão de pedir autorização aos meus pais.
A igreja que frequentávamos incentivavam o namoro-corte. É um tipo de namoro com foco no casamento. O casal busca o líder e os pais para pedir autorização antes de começar o relacionamento. Não há intimidade, pode abraçar, mas não pode beijar na boca. O casal quase não fica sozinho e sempre presta contas ao líder sobre seus planos e suas saídas. Eu achava isso o ápice da santidade.
Depois de três ou quatro convites para um refrigerante. Ele perguntou se eu aceitaria que ele pedisse a meu pai para me fazer a corte. Eu fiquei extasiada. Era o início da realização do meu sonho de me tornar esposa!
Foi um namoro planejando o casamento. Era o tempo de ele conseguir um emprego para que contraíssemos matrimônio. Conversávamos sobre ter filhos, onde gostaríamos de morar. Falávamos dos cantores gospel de que gostávamos. Comentávamos sobre a pregação do pastor, até ouvíamos juntos sermões gravados. Foi um ano muito divertido e frutífero. Tínhamos certeza de que Deus tinha nos destinado um ao outro. Estávamos apaixonados. Eu sonhava com o casamento e com a vida ao lado de Jacó.
Ao completar 18 anos, Jacó concluiu o ensino médio e fez um curso oferecido pelo banco onde atuava como jovem aprendiz. Ao final do processo, foi aprovado para tornar-se funcionário efetivo.
Eis o caminho aberto para o casamento. Em seis meses, os eletrodomésticos e móveis básicos estavam comprados.
Como eu estava com 17 anos, meus pais tiveram que assinar a autorização para eu me casar, o que fizeram com gosto. Chamei Rebeca, minha melhor amiga desde a infância, para ser uma das madrinhas, ela aceitou, mesmo sem concordar com o meu casamento. Ela dizia que poderia contar com ela para tudo, mesmo discordando.
Eu e Jacó nos casamos no dia 12 de setembro.
Fizemos curso de noivos. Uma parte das aulas aconteciam em conjunto. Os pastores falavam de filhos, deveres do casal, administração financeira, da importância da devoção do casal. Em outra parte, nós éramos separados um do outro. Eu era orientada pela pastora e ele pelo pastor. A pastora foi muito enfática em dizer que meu corpo passaria a ser do meu marido, por isso, eu não devia negar sexo a ele. "A mulher não tem autoridade sobre o próprio corpo, mas, sim, o marido". Ela lia na Bíblia. Ela também falava que o sexo era bom, mesmo que fosse difícil no início, eu passaria a gostar com o tempo.
A cerimônia foi uma cena de contos de fadas. Meu vestido todo branco, com mangas em renda. A mesma renda cobria parte da saia, era um modelo princesa, com exceção das mangas bufantes, que não me agradavam.
Minha família e meus amigos estavam todos presentes. O pastor fez uma pregação sobre a submissão da mulher, discorreu sobre o quanto a mulher é responsável pela felicidade do casamento. Falou que o homem deve ser o cabeça da mulher e provedor da família.
No altar, demos o nosso primeiro beijo da vida. Achei estranho. Lembrei das palavras da pastora durante o curso de noivos. Com o tempo eu me acostumaria e passaria a gostar. Entretanto, naquele momento, confesso que não sabia muito bem o que fazer. Era o primeiro beijo da minha vida. Os filmes fazem o primeiro beijo parecer mágico, para mim foi só estranho mesmo.
Se não sabia o que fazer durante o beijo, sabia muito menos o que fazer na noite de núpcias. Havia comprado com a minha mãe uma camisola longa, branca, com detalhes em renda e uma calcinha que combinava.
Jacó entrou no quarto, me olhou. Disse que eu estava belíssima. Nos deitamos na cama. Ele tirou minha camisola e minha calcinha. Me beijou na boca mais uma vez. Se deitou sobre mim. Afastou as minhas pernas e me penetrou. Foi dolorido. Parecia que eu estava sendo perfurada, havia uma sensação de secura. A pele do pênis dele arranhava meu canal vaginal. Será que isso era possível? Eu sofri a dor calada, virei o rosto, para que ele não percebesse o meu sofrimento. Nenhum aviso ou aconselhamento havia me preparado para o que senti.
Rebeca tinha me falado sobre preliminares e lubrificação, mas eu mal dava ouvidos a ela, desde que ela fora excluída da igreja, por ser considerada rebelde. Era a minha melhor amiga, mas ela havia abandonado a fé, colocava em dúvida a palavra do pastor. Então, não acreditava muito quando ela falava o oposto do que eu aprendia na igreja.
Com o tempo, a dor não diminuiu. O beijo continuava estranho. Mesmo com três meses de casamento, o sexo era um sacrifício para mim, sacrifício ao qual eu me submetia sempre que ele requeria. Nunca falei para ele o quanto era doloroso. Ele também nunca percebeu minha dor.
Os líderes sempre diziam que não deveria negar meu corpo a meu marido, era ordenança bíblica. Então, eu aguentava. Fazia questão de satisfazer meu marido, mesmo que fosse um martírio para mim.
Um dia, falei da dor para Rebeca. Ela explicou novamente sobre lubrificação e preliminares. Com que cara eu procuraria um lubrificante na farmácia? Pior: com que cara eu colocaria um lubrificante na frente do meu marido? Ele não sabia que era doloroso para mim.
? Diga para Jacó o que você sente. Ele te ama, vai entender e vai buscar um caminho para te dar prazer e não dor.
As palavras de Rebeca ressoavam na minha cabeça, contudo eu não tinha coragem de falar para Jacó o que sentia. Eu não tinha coragem de admitir que ele não era o homem perfeito que eu imaginava.
Em um domingo, estávamos nos arrumando para a igreja, ele reclamou do meu vestido. Disse que estava indecente, que eu tinha engordado após o casamento, minhas nádegas ficavam protuberantes, poderia chamar a atenção dos outros homens. Terminou dizendo que eu devia trocar de roupa. Troquei.
Troquei também a cor dos esmaltes que eu usava. Gostava de usar vermelho, marrom, verde, azul e roxo, cores vibrantes, contrastantes, como eu sentia que era a minha vida. Ele reclamou. Disse que mulheres recatadas deviam usar cores claras. Passei a usar branco, tons de nude, cinza claro, as cores que se tornaram a minha rotina.
Eu acordava cedo, antes dele, para fazer o café-da-manhã. Quando Jacó se levantava, eu estava penteada, vestida e perfumada. O café-da-manhã estava na mesa. Jacó nunca tinha me visto descabelada ou sem escovar os dentes, a não ser que tenha tido uma noite de insônia, mas ele dormia como uma pedra.
Depois que ele saía para o trabalho, eu ia à academia, quando voltava arrumava o quarto e a sala. Preparava o almoço e comia sozinha. Jacó almoçava perto do trabalho. À tarde, eu limpava a cozinha e o banheiro, preparava o jantar. Às vezes, ia ao mercado ou ao hortifruti. Às sextas, eu ia à manicure.
Por incentivo dos líderes da igreja, começamos a investir em amizades com outros casais. Então, saímos com Ana e Jorge para jantar. Durante a conversa, eu falei que Jacó reclamava de algumas roupas minhas. Percebi que ele ficou sério. Por baixo da mesa, ele me beliscou. Ele nunca tinha me beliscado antes. Estávamos juntos há quase três anos, nunca tinha me beliscado ou levantado a voz para mim.
Quando chegamos em casa, ele brigou comigo, ele gritava. Disse que eu tinha o envergonhado na frente de nossos amigos, que eu não devia expor nossas questões particulares para os outros. Foi dormir emburrado. Pensei comigo mesma: nunca mais farei isso. Tenho que ser uma mulher sábia. Nas minhas orações, confessei o pecado de ter envergonhado meu marido e pedi sabedoria a Deus para ser uma mulher virtuosa.
Com quase um ano de casados, eu continuava a sentir dores terríveis no sexo, eu sempre sentia um atrito muito intenso e doloroso, minha vontade era pedir para ele parar, mas nunca pedi. Deus recompensou meu sacrifício e eu fiquei grávida. Com um bebê seríamos uma família completa. Era a realização de um sonho. Jacó também queria ser pai. Meus pais e meus sogros queriam ser avós.
Saindo do exame e antes de voltar para casa, comprei as primeiras roupinhas do bebê: sapatinhos, macacão, cueiro... Preferi não comprar um carrinho, para comprar junto com Jacó.
Para a noite, preparei uma surpresa para dar a notícia a Jacó. Fiz o prato preferido dele para a janta. Preparei um bolo. Na sala, montei um varal com as roupinhas que tinha comprado para o bebê. Estava tudo lindo. Imaginei Jacó emocionado com a notícia.
Ele chegou e viu o cenário que eu havia montado. Estranhou o ambiente. Perguntou o que havia acontecido. Eu respondi. Teremos um bebê! Ele me abraçou, me beijou. Disse que era um sonho se realizando, nossa família estaria completa, não poderia estar mais feliz.
Durante o jantar e olhando para as roupinhas no varal, Jacó perguntou: Quanto custou tudo isso? É aconselhável que se espere até o terceiro mês de gestação para saber se a gravidez "pegou".
Eu disse o valor. Ele levantou a voz. Tudo isso só para dar a notícia! É muito dinheiro, Raquel! Você não pode gastar o MEU dinheiro desse jeito!
Realmente, era ele quem ganhava o dinheiro, eu não devia gastar tanto. Pedi desculpas. Prometi ser mais comedida com o dinheiro. Disse também que eu o consultaria sobre o uso do dinheiro.
Naquela noite, ele quis comemorar com sexo. Dessa vez, doeu mais do que o normal. Parecia que eu e o bebê estávamos sendo invadidos por um exército impiedoso.
Procurei por um ginecologista obstetra para dar início ao pré-natal. Recebi a indicação da minha líder na igreja. Uma médica cristã bastante recomendada por vários irmãos da igreja.
Ela me examinou.
? Seu canal vaginal tem um edema. Você sente dores na relação sexual? Está tudo bem?
? Eu sempre sinto dores, doutora.
? Compre um lubrificante e passe antes da relação, isso pode reduzir as dores e consequentemente o edema.
De novo essa história de lubrificante.
? Não sei como meu marido vai reagir a isso.
? Não se preocupe. É algo muito normal. Se estiver preocupada, converse antes de comprar.
Com o bebê estava tudo bem. Disse que eu estava com cinco semanas de gestação e marcou o retorno para a nona semana.
Em casa, tentei tocar no assunto do lubrificante. Ele não gostou. Pegou meu braço com força, me sacudiu. Disse que isso era coisa de mulher da vida, Jezabel. Eu não me casei com uma Jezabel. Lubrificante não entra na nossa casa. Tentei argumentar que sentia muitas dores na relação sexual. Foi a primeira vez que falei isso para ele. Jacó falou que poderia ser algum problema congênito meu e que a oração e a consagração a Deus poderiam me livrar disso.
Com a notícia da gravidez, nossos amigos da igreja festejaram muito. Jorge, particularmente, conversou bastante comigo sobre dificuldades que Ana enfrentara durante a primeira gestação – eles tinham dois filhos. Enjoos, inchaço nos pés, retenção de líquidos, dores nas costas, cansaço constante, sem contar com o emocional. Parece que tudo vira de cabeça para baixo. Jacó que se prepare! E riu.
Jacó nos vigiava à distância.
Ao entrarmos no carro, ele começou a falar. O que tanto você e Jorge conversavam? Eram tantos risinhos? Desde quando você e Jorge se tornaram íntimos? Respondi que não era nada. Ele estava me contando das dificuldades da gravidez da Ana. Era só isso. A discussão não terminou. Ele falava cada vez mais alto. Dizia que mulher casada não devia ficar de papinho e sorrisos com um homem que não fosse o marido. Quando chegamos à porta de casa, um sobrado, no alto da escada, enquanto colocava a chave na fechadura, ele me empurrou e eu rolei escada abaixo.
A caminho do hospital, ele me pedia desculpas, dizia que estava descontrolado, que o ciúme o cegara, que agiu por impulso, que deveria cuidar mais de mim, que não estava me amando como Cristo amou a igreja. A lista de pedidos de desculpas não terminava.
Na emergência, fui examinada. Perguntaram como eu caí da escada, respondi que tropecei. Falei da gravidez. Fizeram uma ultrassonografia.
? Que estranho! Vou chamar outra médica.
A segunda médica chegou. Reiniciou o exame de ultrassom. Olhava fixamente para a tela. Colocou o estetoscópio e rompeu o silêncio:
? Não há sinal de vida. Você perdeu o bebê.
A dor que me atravessava era maior e mais intensa do que a dor que sentia com sexo. Eu sentia que tinham arrancado uma parte de mim, provavelmente o meu coração.
Fui internada para a curetagem. Ia ficar em observação por um tempo.
Jacó chorou a perda do bebê e foi dormir na casa dos pais.
No dia seguinte, Rebeca foi me visitar no hospital. Contei a ela a verdade.
? Raquel, por favor, saia dessa casa. Você não merece passar por isso. Nenhuma mulher merece.
? Não, Rebeca. Eu me casei para ficar casada. O que Deus uniu o homem não separa. Eu vou pedir aconselhamento pastoral, vou orar, mas não vou destruir meu casamento. Foi um acidente. Casais brigam às vezes. Eu já estou morta por dentro por ter perdido meu filho, não quero também perder meu casamento.
? Casais brigam, mas empurrar de uma escada não é briga de casal, é caso de polícia. Foi isso que matou seu filho.
? Amiga, não fale do meu filho. Você está exagerando. Não é para tanto. Jacó me ama. Eu sei que ele me ama.
Quando saí do hospital, Jacó estava mudado, mais doce, mais carinhoso, mais atencioso.
Fazia massagem nos meus pés. Descobri o que eram preliminares. Jacó acariciou meus seios e minhas nádegas, beijou meus seios. Os bicos dos meus seios tornaram-se rígidos durante os beijos de Jacó. Senti um arrepio agradável, não queria que ele parasse. Senti meu canal vaginal úmido. Quando ele me penetrou, o pênis de Jacó deslizou para dentro de mim. Não havia dor.
Não foi só o sexo que melhorou, Jacó me trazia flores sem motivo algum, me mandava mensagens no meio do dia falando que eu era importante, que eu era a mulher da vida dele, que não conseguia imaginar a vida sem mim.
Com o passar do tempo, as mensagens foram escasseando, as flores seguiram o mesmo destino, as preliminares se tornaram mais curtas, até que o sexo voltou a ser dolorido. Voltamos à nossa rotina. Em dois meses, Jacó voltara a ser Jacó.
Ele queria tentar novamente ter um filho. Eu disse que não estava pronta. Queria um psicólogo para tratar melhor da perda do bebê. Que besteira! Psicólogo é coisa para gente maluca. Você não é maluca, Raquel. Se você precisa de mais tempo, tudo bem, mas psicólogo eu não aprovo.
Eu sabia que precisava de ajuda profissional. Rebeca concordava. Jacó já falara o que pensava. Eu precisava curar a minha dor.
Nosso plano de saúde cobria psicólogo, havia a opção de consulta online. Então, eu marquei um horário em que ele estava no trabalho. Ele não saberia. Não tinha como descobrir. Comecei um tratamento psicológico com a doutora Sandra. Ela foi muito acolhedora. Entendeu o quanto a minha religião e a minha fé são importantes na minha vida. Me escutou falar da perda do bebê. Começou a tratar do meu processo de luto. Nossas sessões eram semanais. Consegui ser tratada ao longo três meses.
Em um fim de semana, Jacó resolveu olhar o histórico de navegação do computador e identificou as sessões com a psicóloga. Ele me chamou e me confrontou. Eu admiti que estava fazendo tratamento psicológico. Perguntou há quanto tempo. Respondi três meses. Ele levantou a voz. Você está me desobedecendo há três meses. Eu disse para você não procurar psicólogo! Ele se levantou da cadeira, tirou o cinto e começou a me golpear. Repetia "Eu sou o provedor dessa casa, você me deve obediência". "No nosso casamento, você me prometeu submissão". "Como você acha que se torna uma mulher virtuosa agindo dessa maneira?" "Você está sendo uma mulher sábia ou tola?".
Eu me encolhi acocorada no chão e chorei. Eu acreditava nas palavras de Jacó. Eu não estava sendo uma mulher sábia, tampouco virtuosa. Não queria apanhar, mas ele estava certo.
Quando Jacó cansou de me bater, me pegou no colo, sentou no sofá, mantendo-me no colo, me abraçou, me beijou. Disse que eu é que motivei aquilo, que ele não queria me bater, que essa era a única maneira de exercer autoridade, de me fazer entender que ele era o líder e não eu. Disse que me amava e que me batia porque me amava. Continuou me afagando. Adormeci nos braços dele.
Quando acordei, vi que estava na minha cama. Havia um bilhete na mesa de cabeceira dizendo "Eu amo você acima de tudo".
Liguei para Rebeca e contei a ela tudo o que aconteceu.
? Raquel, quer ir à delegacia. Eu vou com você. Você tem que denunciar o Jacó. Tem que pedir uma medida protetiva. Você não pode correr o risco de que isso aconteça novamente!
? Não quero, Rebeca. Só quero companhia. Você tem como vir para cá?
? Claro, amiga. Estou a caminho.
Rebeca passou o dia comigo. Almoçamos. Lanchamos. Ela fez um bolo de chocolate para nós. Conseguimos até rir. Ri como há muito tempo não ria. Raramente eu ria com Jacó.
? Raquel, eu já entendi que você não quer separar ou denunciar. Então, conversa com Jacó sobre fazer terapia de casal ou aconselhamento pastoral. Diz que é para se preparar para engravidar de novo.
Rebeca partiu antes que Jacó chegasse. Ele não gostava dela. Desde que fora excluída da igreja, ele diz que ela é má influência e que é uma mulher indigna.
Quando Jacó chegou, pedi desculpas por ter feito terapia sem a autorização dele. Disse que sabia que o estava desobedecendo. Ele me abraçou e me beijou. Recitou "mulher virtuosa quem a achará? O seu valor excede ao de rubis".
Jantamos.
Quando eu estava lavando a louça, ele estava sentado me olhando. Eu tentei lançar uma das sugestões da Rebeca.
? Amor, eu também quero ter um filho, mas ainda não estou bem para isso. O que você acha que buscarmos aconselhamento pastoral?
? Eu prefiro não fazer. Acho que as nossas coisas têm que ser resolvidas por nós. Os pastores não deviam saber o que acontece na nossa casa.
? Eu acho que pode me ajudar a superar a perda da primeira gestação.
? Ore pela cura, Raquel. Vamos fazer um propósito de oração, só nós dois.
? Eu acho que preciso de mais do que isso.
? Você está dizendo que Deus não basta, Raquel?
? Não é isso, amor. Eu só acho que Deus pode usar pessoas, como os pastores, por exemplo.
? Seria um tipo de terapia.
? De certa forma, sim.
? De onde veio essa ideia, Raquel? Ela não é sua.
Eu gaguejei. Fiquei sem palavras. Ele insistiu. Alguém esteve aqui hoje? Raquel, não minta para mim. Eu sou autoridade desta casa.
? Rebeca veio me visitar. – murmurei.
Essa filha de Jezabel na nossa casa! Eu já falei mil vezes que não quero você perto dessa mulher! Ela foi excluída da nossa igreja por rebeldia! Ela é uma péssima influência.
Tentei argumentar. Ele pegou minha cabeça pela nuca, segurou meus cabelos e bateu minha cabeça na parede, senti algo penetrando no meu crânio. Tudo foi escurecendo. Vozes distantes chamavam meu nome. Escutei "hematoma", ou algo parecido. Havia um som de sirene ao fundo. "Subdural". Os sons se confundiam. Não conseguia abrir os olhos, nem mover nenhuma parte do corpo, não conseguia mais respirar.
Nenhum curso, pregação ou retiro me preparou para ser submissa a meu assassino.