por Marina Macambyra
Acordei com o zumbido nos ouvidos bem mais alto do que o habitual. Era a "furadeira", um dos piores sons que nosso organismo produz para atormentar a si mesmo. O choro não veio em meu socorro, há anos não conseguia chorar. Respirar. Sim, respirar fundo várias vezes, com a torneira da pia aberta e o som da água corrente abafando a furadeira por alguns instantes. Ia passar, era minha esperança. Vinte e quatro horas de Inferno, depois melhorava, como havia garantido meu médico, com pouca convicção no olhar.
Então decidi que aquele dia seria diferente. Comecei pelo figurino. Escolhi meu vestido preto preferido, curto e justo, mas não muito. Sapatos vermelhos, meu único e pouco usado par de scarpins de saltos menos altos do que eu gostaria, mas elegantes. Batom cor de canela, cílios alongados e espessados, perfume amadeirado com toques sombrios, bolsa azul e o acessório mais importante: a miniatura de espada sarracena, afiada e pontiaguda, lembrança que uma amiga trouxera de Toledo. Eram usadas para abrir cartas no tempo em que se escreviam e liam cartas, mas aquela, especificamente, iria sangrar porcos. Se tudo desse certo. O pequeno compartimento externo da bolsa, até então inútil porque nada cabia nele, parecia ter sido projetado especialmente para miniaturas de espadas sarracenas.
Na segunda-feira de zumbidos insanos, eu tiraria sangue do primeiro porco que se esfregasse em mim no ônibus ou rosnasse obscenidades sobre meu corpo. Manchas de sangue não aparecem muito em tecido preto.
Saí para a rua batendo os saltos no chão. Do botequim, onde vagabundos já bebiam às nove da manhã, o que me obrigava a mudar de calçada para não ter problemas — pelo menos naquele dia —, não veio nenhum assobio. Que sorte, porcos. No ponto de ônibus, dois rapazes com jeito de trabalhadores braçais e manchas de tinta nos jeans surrados interromperam a conversa e me olharam por alguns segundos, com certo espanto, mas logo baixaram os olhos.
O ônibus veio rápido e cheio, sem assentos vagos. Lá estava ele, o pior dos porcos, com sua queixada dupla e seu cabelo ensebado, sentado na janelinha ao lado de uma senhora gorducha. Iria se levantar e se postar atrás de mim, aproveitando o movimento do ônibus para dar uma encostadinha? Naquele dia, o porco guincharia mais do que a furadeira que não saía dos meus ouvidos. Encarei-o, esperando a reação, dois dedos já tocando a espada dentro de sua bainha azul. Nada. Desviou o olhar suíno para a janela, incomodado. Todos os porcos pareciam acovardados nessa manhã.
Mancúspias. Sempre que o zumbido me atacava com muita força, me vinha à memória o conto de Cortázar sobre os criadores de mancupais, esses animais inexplicáveis, enlouquecendo aos poucos, acometidos por doenças com nome de plantas. Como era mesmo o título do maldito conto?
Cheguei ao trabalho sem sangue no vestido, atrasada para uma supostamente importante reunião de planejamento e com o cérebro cheio de mancúspias. Fui a última a entrar na sala, sob olhares recriminadores, mas já avisei que não me aporrinhassem, porque meus ouvidos zumbiam demais. O chefe não gostou, mas não reagiu, porque era igualzinho aos porcos da rua.
A reunião transcorria em relativa calma quando lembrei: cefaleia. Sem perceber, deixei escapar em voz alta o título do conto, "Cefaleia". Ninguém se manifestou, nem para perguntar se eu estava com dor de cabeça também, além do zumbido. Talvez não conhecessem a palavra. Não me dei ao trabalho de explicar.
No final da tarde, o chiado distante de uma panela de pressão substituíra o som da furadeira. Caminhava de volta para casa, quase relaxada, quando avistei um porco. Olhava acintosamente as bundas de todas as mulheres e meninas que passavam, o pulha, o mesmo que tinha me chamado de gostosa dias atrás. A bolsa azul parecia pulsar levemente junto ao meu corpo, como se algo pequeno e afiado quisesse saltar lá de dentro.
Apressei o passo para segui-lo de perto. No trânsito feroz de pedestres das seis da tarde, não me faltariam oportunidades para me aproximar e enfiar a espadinha sarracena naquele toicinho, de preferência na altura dos rins. O estrago seria pequeno, mas o porco sangraria e guincharia o suficiente para alegrar meu coração.
Pronto, o momento perfeito. Parou numa roda de pessoas que apreciava um malabarista, imagino que para se esfregar numa mulher distraída. Fui me aproximando, espadinha queimando de satisfação antecipada entre os dedos. A picada, mais rápida e funda que eu supunha, não levou o porco a gritar imediatamente. Torceu-se para trás, com a mão ao local da ferida, e só começou a berrar ao ver o sangue nos dedos.
Eu já estava longe demais para apreciar a cena, mas não me importei. Naquela noite, tomaria meia garrafa de vinho, dormiria feliz como uma mancúspia gorda e acordaria com a paz nos meus ouvidos.
Meu primeiro conto publicado. Fez parte da coletâne A vida aqui não é fácil, da Metamorfose. Usei o Gemini para converter pdf para Word.

Marina Macambyra, escritora iniciante, nasceu em 1961. Mora em São Paulo (SP), desde 1979. É bibliotecária formada pela Escola de Comunicações e Artes da Universidade de São Paulo, onde trabalha desde 1981. Teve um conto publicado na revista Originais Reprovados, laboratório dos alunos de Editoração da ECA/USP, e dois em coletâneas da Metamorfose, A vida aqui não é facil (2021) e Navalha, veneno, mistério: contos policiais, de suspense e investigação (2023).
Publica, ocasionalmente, na plataforma Medium e também escreve textos acadêmicos e técnicos ligados à sua área de trabalho na Biblioteconomia. Suas histórias têm sempre elementos dos gêneros fantástico e horror, em perspectiva feminista. Aluna do curso Formação de Escritores, iniciado em 2025.