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Um café com impacto, por favor

Um café com impacto, por favor

por Luciano Viana

Um café com impacto, por favor

Foi em 2023, às nove horas da manhã. Eu havia acabado de chegar em Londres, depois de doze horas de voo. Cansado, queria apenas tomar café. Fui até a loja mais perto no bairro onde eu estava e cheguei na Luminary Bakery. Numa primeira impressão, uma cafeteria de bairro pequena, simples e muito bem arrumada. Ao fundo, dava para ver os fornos onde diversos pães e bolos eram assados, o que me fez perceber que não era simplesmente um local que servia café. Já sentindo os ares cosmopolitas, eu pedi um espresso e minha esposa um cappuccino e um croissant. 

Por enquanto, nada surpreendente. Os pedidos vieram rápido e estava tudo ótimo. Até que comecei a reparar num quadro na parede oposta de onde eu estava. Pela distância, não conseguia ler. Pelo desenho do layout que as palavras formavam, poderiam ser itens do cardápio. Decidi investigar. 

Fui me aproximando e, quando me dei conta, fiquei admirado e espantado ao mesmo tempo. Reli o que estava escrito naquele quadro de um metro e meio de altura por um de largura, só para ter certeza. 

Pasmem: era um quadro de gestão dos resultados das práticas sustentáveis da loja. Isso mesmo, uma pequena cafeteria (ou padaria, ou confeitaria) de bairro tinha práticas bem definidas, assim como indicadores muito claros para medir o que estava sendo realizado. E, desculpe o trocadilho, a cereja do bolo era a transparência extrema, na cara de todo mundo, que podia elogiar ou criticar os resultados expostos. 

A julgar pelo que vi, algumas das empresas em que trabalhei eram maiores que esse estabelecimento. Posso arriscar a dizer que tinham orçamentos mais vultosos e eram marcas relativamente mais conhecidas em suas áreas de atuação. Mas, nessas minhas experiências profissionais, nunca tinha visto uma gestão tão transparente quanto vi naquele dia. 

A Luminary Bakery não tinha um relatório escondido em seu site, apesar de ter o documento disponível para download, além de disponibilizar uma cópia impressa na própria cafeteria. Estava ali, sem cerimônia, sem firula, sem dar voltas. Números claros e objetivos. Foi nesse ponto que minha admiração e meu espanto subiram de nível. Fiquei boquiaberto quando perguntei à atendente qual era a intenção de expor aqueles dados. Além de explicar o óbvio, ela ainda expôs de forma breve quais eram os projetos por trás de cada indicador. 

Vocês acham possível subir mais um nível? Pois sim, passei para o grau estupefato quando a atendente informou que ela mesma era uma das beneficiárias dos projetos. Sendo imigrante da Nigéria, sem condições de se manter, foi fazer os treinamentos oferecidos pela Luminary. Depois de concluídos, foi contratada para trabalhar na loja. 

Apesar de toda essa admiração, não sou ingênuo. Assim como qualquer outra empresa, a cafeteria deve guardar algumas informações que depõem contra a marca. É triste, mas faz parte do jogo. Por outro lado, posso afirmar que passar uma hora dentro da cafeteria me ensinou muito mais que muito curso de Sustentabilidade dito de excelência. 

Luciano Viana
Luciano Viana
Ribeirão Preto/SP

Luciano Viana

Luciano Viana nasceu em Itajubá (MG) e vive em Ribeirão Preto (SP). Cientista Social formado pela USP e pós-graduado em Sustentabilidade, construiu a sua trajetória profissional na área de Responsabilidade Social e Impacto Social, percorrendo estados como São Paulo, Minas Gerais, Ceará, Maranhão, Piauí e Rio Grande do Norte. Em cada território, colecionou histórias, vozes e silêncios que hoje alimentam a sua escrita. Em 2025, iniciou o curso Formação de Escritores, dando forma a um antigo sonho: transformar experiências humanas em narrativa sensível, com olhar atento às relações sociais e às delicadezas do cotidiano.