×

O caso do frade

O caso do frade

O caso do frade

Excepcionalmente na sexta-feira fui escalada para o turno noturno. Uma semana tumultuada e um dia cheio, achei que as últimas doze horas seriam silenciosas. Por certo estava enganada. Já em fins do plantão,  precisamente às 4h07 da manhã, recebi uma ligação me chamando para avaliar um óbito. Ainda no escuro, arranquei uma saia longa e uma camisa qualquer do armário. O cartório só abriria às 9h30, que família chega tão cedo?


Não demorei no percurso, não havia trânsito. E, antes que pudesse bocejar uma segunda vez, o corpo estava à minha frente sobre a fria mesa do necrotério. Era um homem idoso e magro, em hábito capuchinho, novo e limpo. Com um leve cheiro adocicado. Afrouxei o nó do cordão que prendia a cintura. Não havia quaisquer marcas de violência ou doença. 


Corri rampa acima, a que fica ao lado do cemitério e leva ao escritório. O cheiro do começo da manhã se misturava ao do hipoclorito e a briga entre a noite e dia já começava na linha do horizonte. 


Entrei, retirando minha pasta com as Declarações de Óbito da bolsa, e cumprimentei os presentes na ampla recepção. Jaques, o colega da madrugada, levantou-se chamando os dois homens sentados nas cadeiras de espera. Um em cada canto da sala.


Puseram-se de pé num instante e, de certa forma, ri-me de como se contrastavam. Aquele que ocupava a cadeira da esquerda era baixo; o da direita, alto. O da esquerda, bojudo e calvo. O da direita, esguio e de negra cabeleira. Eram elegantes em seus ternos, embora houvesse uma afetação excêntrica em ambos. 


Sentaram-se à minha frente sem se olharem. 


— Bom dia, mademoiselle — o da esquerda ajeitou o bigode.


— É ainda "boa noite", meu caro — o outro abriu um relógio de bolso.


— Já é manhãzinha.


— Não é tempo, ainda!


Mexi na papelada sobre a bancada, pasmada pelo embate àquela hora, fosse do dia ou da noite. 


— O seu — procurei pelo documento de atendimento do SAMU  —  Guilherme era parente de vocês?


Un ami.


— Um conhecido.


— Certo — peguei uma caneta sobre a bancada. 


— Ele era da Igreja, certo?


— Creio ser óbvio pelas vestimentas.


— Meu caro — o careca repreendeu —, deixe a pobre moça trabalhar. Ele era frade.


— E, hum...  O óbito foi em casa, mesmo? 


— Depende do que você chama de casa.


— Ora, ponha as células cinzentas para funcionar, meu jovem. Ela quer dizer o local para onde se endereçam os documentos pessoais de alguém.


Astuto! Não conseguiria me expressar de melhor jeito.


— Devidamente — o magro recostou-se na cadeira, olhando-me fixamente. 


Monsieur Guilherme residia com os monges desta sua cidade há alguns bons meses.


— Compreendo — rabisquei com força num rascunho, tentando tirar tinta da caneta. —  E vocês sabem me dizer se ele tratava alguma doença, se tomava algum medicamento?


— De forma alguma, mon ami era um homem muito vivaz.


— E vocês sabem me dizer se ele apresentou algum sintoma, alguma queixa? Se estava tratando algo?


— Pensa em morte de origem natural?


Eu senti uma gota de suor descer por minha nuca. Troquei a caneta.


— Aqui só cuido de mortes naturais. 


— Acredito ter havido um engano, minha jovem. — Um segundo de suspense. Reclinou-se para frente — Monsieur Guilherme foi assassinado.


O outro articulou em concordância.


Mas era só o que me faltava, pra fechar a tampa do baú. Àquela hora da matina?


— Bom, ele tinha 82 anos, foi encontrado no próprio quarto, sem sinais de violência...


— Besteira. Você não se atentou aos detalhes.


— Senhor — parei na área do local de ocorrência, a nova caneta borrava o papel. —  Temos um protocolo para a avaliação de mortes suspeitas. Esse não é o caso aqui.


— Desta vez, devo concordar com o monsieur Holmes. Você não percebeu os detalhes.


Detalhes? Quais? A caneta travou em algum lugar e a ponta rasgou o papel. 


— Ai, que ótimo! — Rasgar uma Declaração de Óbito é sempre uma dor de cabeça. — Com todo respeito, vocês estão me atrapalhando.


— Poirot, precisamos elucidá-la de nossas suspeitas.


Ambos levantaram-se. 


— Aonde vão? 


— Gostaria de pedir permissão para explicar nossa hipótese, ao lado do corpo.


Dirigi um olhar para os recepcionistas da madrugada, compartilhávamos o mesmo pensamento.


— Vocês já fizeram o reconhecimento do corpo, não?


— Sim, e pudemos nos atentar aos detalhes.


— Tudo bem! —

 

Levantei-me, a cadeira arranhou o chão.

 

— Acompanhem-me!


Deixei como estavam minhas coisas, saí sem me certificar se me seguiam. O barulho dos passarinhos do lado de fora me fez sentir falta da minha cama.


Descemos o mesmo corredor que eu subira mais cedo.


— Sua cidade é muito bem estruturada! O necrotério fica ao lado do cemitério. — Pobre Poirot, quis fazer sala.


— Pertence ao cemitério! — Empurrei a porta do laboratório.


— Permite? 


— Claro.


Sherlock avançou até o cadáver.


— Não, credo! — Estendi a caixa de luvas para os dois — Aqui.


— Você mexeu nas roupas, não é?


— Claro, eu preciso expor o corpo para examiná-lo.


— Percebeu como ele estava vestido?


— Roupas da Igreja.


— Não o que vestia, mas como vestia.


Passaram-se alguns minutos, somente o barulho de tic-tac do relógio.


— Sabe, minha jovem, não a culpo por não ter percebido. As coisas parecem todas no lugar certo.


— Exceto que estavam certas nos lugares errados — Poirot retirou as luvas. —  A corrente estava amarrada para a esquerda.


— E com apenas um nó. Não é muito religiosa, não é?


— Mas como isso significa que ele foi assassinado? — Agora eu fui bem ríspida. — Ele tomou banho e poderia estar desorientado.


— Roupas novas, vestidas de forma errada. Um frade que viveu seis décadas sob o comando da Ordem?


— As roupas limpas foram trocadas por alguém que não sabia o que estava fazendo.


— Mas pra quê? 


— Precisava encobrir o vômito.


Mademoiselle, venha até aqui. Observe o canto da boca.


— Esse líquido pode sair normalmente depois da morte.


— Sinta o cheiro.


— Eu... — Não me aproximei muito, mas era o cheiro de antes. Algo doce, amendoado. — O que é?


— Cianeto.


— Meu Deus, envenenamento. — Arregalei os olhos. 


— E Guilherme lutou com o agressor — disse Holmes. — Unhas cortadas, para que não se achasse o material debaixo delas.


Havia bem alí, na unha do indicador, um corte, sem sinal algum de coagulação. 


— Feito depois da morte.


— Exatamente, minha cara. Exatamente. 


— Como é que vocês sabiam só de olhar?


Detalhes.

Mariane Veigas Pepes

Interiorana nascida em capital. Mesmo carregando as paranoias e ritmo de um filho de cidade grande, sou apreciadora da vida pacata e da bisbilhotice dos vizinhos. Por aqui, nos chamamos de "Pé Vermelho" e não há mais honesta definição para quem sou.

Sou médica generalista pela Universidade do Oeste de Santa Catarina. Atualmente, faço pós-graduação em Paciente Grave, com intenção de trabalhar em Unidades de Terapia Intensiva. Desde minha graduação, digo só não ter trocado lâmpadas. Desbravei todos os caminhos possíveis a um não especialista: da Atenção Básica até a verificação de óbitos não assistidos. Até aqui, minhas publicações se restringiram ao meio acadêmico. Embora eu pretenda me enveredar por ele no futuro, meus planos por aqui são o completo oposto.