por Mariane Veigas Pepes
Estive aqui muito antes da chegada dele e permanecerei por muito mais depois de sua partida. Foi, no entanto, o alvorecer de sua vinda o mais bonito.
Crescia a solidão deste lado do rio, onde a grama rasteira fazia-me a única companhia e o lodo cobria as pedras que despontavam da água. A parede da casa se deteriorava em mofo e as janelas cobertas impediam a vista do interior.
Chegaram aquele homem e aquela mulher, numa manhã ainda escura. Faziam barulho, falavam alto, empilhavam caixas e pacotes por toda a parte. Pintaram as paredes ao longo dos dias, abriram as janelas e instalaram luzes na sacada da frente, onde algumas flores brotavam em vasos.
Desde então, música tocava até tarde, fumaça saía pela chaminé e as roupas se estendiam no varal. A ágil mulher atirava sementes pela grama, trazendo pássaros de volta. Alguns se abrigavam entre meus galhos, outros se penduravam nas janelas. Vez ou outra, vinha o casal sob a cortina de minhas folhas passar um tempo abraçado, observando o rio.
As estações correram. Minhas raízes agora disputavam espaço com macegas e flores. As paredes já não carregavam a cor vibrante de outrora. Naquela manhã de céu cinza, o fedelho corria pela grama acompanhado pelos dois cães felpudos. Sujavam as roupas do varal, gritando e latindo. Ao perceber que isso acontecia, a mulher costumava sair limpando as mãos no avental, enquanto a criança se escondia.
"Shiu!" Segurava com as mãozinhas a bocarra do cachorro. "Debaixo do chorão mamãe não procura."
Mas não daquela vez. Apenas o som do carro estacionando em frente à casa o fez deixar a brincadeira para trás. O homem descia do carro com uma caixa em mãos, quando o menino o agarrou pela perna. Desapareceram pela soleira e fecharam a porta.
A janela lateral se abriu, a do segundo andar, construída de frente para mim. Laços amarraram as cortinas, abrindo espaço para uma gaiola. Lá estava ele. Um pássaro. O mais lindo que já vi. De asas verdes, bico negro e um risco branco sobre os olhos. A mulher deixou frutas e sementes ao seu alcance, observando-o pular de um poleiro a outro. As pálpebras intumescidas dela se estreitaram num sorriso.
"Eu amei, meu bem."
"Demorei a pegá-lo." O homem recostou-se ao parapeito.
Os dois se encararam por um instante, interrompidos pelo canto melodioso do pássaro. Permanecemos cativos por longo tempo. Observei-o até o recolherem.
Assim foram os dias. No despontar da luz no horizonte, o pássaro era deixado sobre o parapeito e, ao fim da tarde, tornava ao interior da casa.
Eu vivia para admirar sua visão, tentando alcançá-lo com meus galhos no movimento do vento. Ele passava as horas cantando. Quando os barulhos dentro da casa ficavam altos, o garoto se aproximava para ouvi-lo também.
Até que deixaram de abrir as janelas e sua gaiola foi pendurada no beiral da varanda, escondido pela pilastra e distante de mim.
O seu canto, agora lamurioso, reverberava pelo quintal dos fundos, estéril de vida. Pelas tardes, a mulher vinha alimentá-lo. Em algumas noites, o homem o observava enquanto fumava, noutras, o moleque se encolhia debaixo da pilastra. Mas meu pássaro estava sempre só.
E sozinho foi como partiu. Em uma noite sem estrelas, de lua minguante já minguada. Ao sobressaltar-se com os gritos da casa, prendeu-se nas grades da gaiola. A asa furtada de movimento. No novo silêncio ecoou seu piado agônico. Lutei com minhas raízes, que me sustentavam e me prendiam, roguei ao vento por misericórdia. Mas inúteis foram minhas preces.
Ele agitou-se, então, parou. Agitou-se, parou. Agitou-se e, por fim, parou.
Espero pelo dia que minhas raízes cederão ao vento.

Interiorana nascida em capital. Mesmo carregando as paranoias e ritmo de um filho de cidade grande, sou apreciadora da vida pacata e da bisbilhotice dos vizinhos. Por aqui, nos chamamos de "Pé Vermelho" e não há mais honesta definição para quem sou.
Sou médica generalista pela Universidade do Oeste de Santa Catarina. Atualmente, faço pós-graduação em Paciente Grave, com intenção de trabalhar em Unidades de Terapia Intensiva. Desde minha graduação, digo só não ter trocado lâmpadas. Desbravei todos os caminhos possíveis a um não especialista: da Atenção Básica até a verificação de óbitos não assistidos. Até aqui, minhas publicações se restringiram ao meio acadêmico. Embora eu pretenda me enveredar por ele no futuro, meus planos por aqui são o completo oposto.