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Objetos removidos com sucesso

Objetos removidos com sucesso

por Marina Macambyra

Objetos removidos com sucesso

Malu queria que seu pai morresse. Ou desaparecesse. Melhor ainda, que nunca tivesse existido ou fosse pai de outra menina, marido de outra mãe.

Nem sempre foi assim. Quando Malu ainda era bem pequena, tinha um pai que a levava para passear nos parques e a carregava nos ombros quando ela se cansava ou tinha medo dos sapos. Um pai que chegava da rua trazendo sorvetes e revistas, contava histórias, ensinava a andar de bicicleta e a não ter medo dos cachorros, porque cachorros são bons. Nessa época, o pai também era bom.

Agora havia um pai que não trabalhava, não saía de casa e, se saía, nada trazia a não ser cheiro de bebida, cigarro e raiva. Tornou-se um homem que gritava quando não gostava da comida, xingava a mãe e depois chorava, pedindo perdão por ter gastado o dinheiro dela com drogas. Alguém que mal podia chamar de pai.

Na época em que Malu ainda tinha um pai válido, uma conversa entre a mãe e uma amiga, ouvida numa tarde de chuva depois de uma viagem de férias, fez a menina sofrer por meses. A amiga ensinava a mãe a melhorar a qualidade das fotos de viagem, apagando objetos e pessoas indesejáveis. 

— Olha só, tá vendo? Clica aqui nesses pontinhos, vai em "apagar objetos" e clica no que você quer tirar. Pronto! Sumiu o cara de chapéu que estava estragando a sua foto. Agora vamos tirar essa cabeça daqui. Viu?

— Uau, que massa. Não sabia que dava para eliminar pessoas desse jeito. 

— Não é? Isso também podia acontecer no mundo. Já pensou, apagar certas pessoas da vida da gente assim, puf, sumiu?

A mãe e a amiga riam, enquanto listavam os diversos desafetos que gostariam de fazer sumir, de governadores a colegas de trabalho, passando por alguns parentes e gente da TV. Malu só ouvia e se perguntava se era verdade, se a pessoa apagada da foto poderia desaparecer. E para onde iria? Para alguma lixeira, como a do celular? Ou morria? São perguntas que ela gostaria de fazer para a mãe ou mesmo para a amiga da mãe, que era praticamente uma tia, mas não tinha coragem. Se os adultos ficavam estranhos até quando ela fazia perguntas mais simples, como ela poderia perguntar sobre fazer pessoas desaparecerem daquela forma?

Malu não dormia à noite com medo de alguém tirar fotos da mamãe ou dela mesma e depois apagar. Sofreu muito com essa ideia e não deixou mais que a fotografassem, para irritação da mãe, que adorava fotos.

Com o tempo, a menina foi entendendo mais do mundo, da tecnologia e seus mistérios, e a inquietação diminuiu. Anos depois, a Malu adolescente não pensava mais nas improváveis ligações do editor de fotos com a realidade corpórea dos seres de carne e ossos. 

A última festa de aniversário da vó Luísa trouxe de volta as fantasias da infância. Numa das fotos com a família toda, a aniversariante se mexeu e ficou borrada, estragando a imagem. A fotografia foi repetida, mas o pessoal comentou que na foto estragada todos estavam mais bonitos. Mais tarde, nas mensagens do grupo da família, Malu viu duas fotos, uma com vó Luísa e todo mundo, outra com todo mundo menos vó Luísa. A mãe havia apagado a velhinha, para salvar a imagem preferida por todos. Na semana seguinte, a avó morreu dormindo.

Malu chorou muito e toda a família também, mas era perceptível, entre as lágrimas e as recordações de momentos felizes, um pouco de alívio. Os tios comentaram que foi melhor assim, morreu em paz, sem sofrimento, feliz com a festa de aniversário. Com o avanço rápido do Alzheimer e dos diversos problemas físicos que limitavam os movimentos da velhinha, a morte rápida poderia ter sido uma bênção.

"Uma bênção", considerou Malu, não apenas para a avó, mas para a mãe e as tias que cuidavam dela com carinho, porém com medo do que estava por vir. Bem lá no fundo de sua mente em formação, quase sepultada por camadas de racionalidade e leituras, ainda pulsava a dúvida.

"Uma bênção", pensou ao ver o pai pela manhã do dia seguinte ao enterro, ainda cheirando a álcool e vômito, debruçado sobre a mesa da cozinha em meio aos cacos das melhores xícaras da casa, tiradas do armário para servir as visitas. Malu podia ouvir o choro que vinha do quarto. O homem não tinha sido capaz de respeitar o luto da família, nem por um dia. Uma sensação semelhante ao ódio subiu do estômago da menina e arrastou a mão até o bolso onde estava o celular. Acordou o pai com um grito e disparou uma, duas, três fotos.

— Tirando foto de mim por quê, peste?

Malu não fugiu, não se afastou, não balbuciou desculpas. Apontou o celular para o rosto inchada do pai e respondeu

— Para me lembrar para sempre da sua cara de cachaceiro. Essa vai ser a foto que vou botar no seu túmulo para cuspir nela sempre que tiver vontade.

Esperou os palavrões que, daquela vez, não vieram. O homem simplesmente se levantou e saiu, enquanto a filha abria o aplicativo de edição de fotos. Tropeçou nos próprios pés ao passar pela porta e caiu, demorando alguns minutos para se levantar. Malu desligou o celular e se trancou em seu quarto. Não varreu a cozinha, não foi ver como a mãe estava, apenas deitou na cama, ligou o celular, abriu e fechou a galeria de fotos várias vezes, desligou novamente o aparelho e caiu no sono. Acordou com gritos. Correu para fora do quarto e viu o pai saindo com a bolsa da mãe e ela caída no chão, sangue escorrendo do lábio partido. 

A mulher não quis ir ao hospital, nem à delegacia. Era só um corte e o marido não queria machucá-la, foi um acidente. Malu consolou a mãe, cuidou do ferimento, lavou as roupas manchadas e pegou o celular. Apagou o pai das três fotos e gostou da natureza morta com cesta de frutas, pão amanhecido e xícaras quebradas que produziu. Na luz suave da manhã,  mal se notava uma leve sombra no centro da imagem, vestígio do homem que o editor de imagens não conseguiu eliminar.

Dias depois, a polícia bateu na porta no meio da noite. Infelizmente, o dono da casa foi atropelado e veio a óbito ao chegar ao hospital. A esposa deveria se preparar para reconhecer o corpo.

Mais um enterro e mais um alívio, dessa vez enorme e sem lágrimas.

A garota não comentou com ninguém sobre as últimas fotos do pai. Não podia. Às vezes, a mãe falava com carinho do falecido, lembrando que, lá no fundo, foi um bom homem estragado pelos vícios. Apesar de admitir que a vida havia melhorado sem o marido, ela lamentava a morte prematura. Coitado. Talvez ainda tivesse uma chance de se recuperar, se procurasse tratamento. 

Malu não dizia nada. Ela não estava certa de ter culpa no apagamento da pessoa real. O homem estava bêbado como sempre e atravessou a rua sem olhar, como afirmaram várias testemunhas. Vó Luísa estava velhinha e doente, não havia nada de estranho na morte dela. 

De qualquer forma, algo a incomodava. Mesmo que a edição da imagem não tivesse poderes mágicos, ela fez as três fotos apenas para apagá-las depois, com ódio e vontade. Ser responsável pela morte de um ser humano não era algo sem importância, sobretudo porque se tratava de seu pai. Malu queria conversar com alguém que a ajudasse a confirmar que tudo era uma bobagem, mas não tinha uma amiga íntima a quem pudesse confessar suas dúvidas, e com a família não seria possível tocar no assunto. 

A fotografia da natureza morta sobre a mesa da cozinha com uma leve sombra ficou realmente muito boa, tanto que a mãe mandou imprimir e prendeu na porta da geladeira, com quatro pequenos ímãs em forma de coração, lembrança de algo que ela não sabia nomear. Malu sabia. 

Marina Macambyra

Marina Macambyra, escritora iniciante, nasceu em 1961. Mora em São Paulo (SP), desde 1979. É bibliotecária formada pela Escola de Comunicações e Artes da Universidade de São Paulo, onde trabalha desde 1981. Teve um conto publicado na revista Originais Reprovados, laboratório dos alunos de Editoração da ECA/USP,  e dois em coletâneas da Metamorfose, A vida aqui não é facil (2021) e Navalha, veneno, mistério: contos policiais, de suspense e investigação (2023).

Publica, ocasionalmente, na plataforma Medium e também escreve textos acadêmicos e técnicos ligados à sua área de trabalho na Biblioteconomia. Suas histórias têm sempre elementos dos gêneros fantástico e horror, em perspectiva feminista. Aluna do curso Formação de Escritores, iniciado em 2025.

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