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Projetando filmes

Projetando filmes

Projetando filmes

 

Enquanto assistia à série O homem do castelo alto (Frank Spotnitz, 2015-2019), muito boa, apesar do final apressado e de certo fascínio incômodo pela estética nazista, senti saudades de projetar, manusear, limpar e emendar filmes. 

Na série, projetar um 16 milímetros parece muito simples, qualquer personagem abre a latinha e pronto, já está vendo as imagens. Mais fácil do que enfiar um DVD nos drives dos computadores de antigamente ou acessar uma plataforma de streaming. Nunca foi bem assim na vida real. O 16 mm era uma bitola para cinema amador, principalmente, mas não era algo que todo mundo tivesse em casa. Nem mesmo o super-8 foi um equipamento corriqueiro como os vídeos para uso doméstico se tornaram, bem mais tarde. Só quem trabalhava com filmes de alguma forma aprendia a projetá-los. Ah, bom, trata-se de uma série de ficção científica, que se passa num universo paralelo no qual os aliados perderam a Segunda Guerra Mundial. Se nessa história os nazistas nos EUA podem gritar sig heil até para comprar pão na padaria, por que todo mundo não seria projecionista de mão cheia? Bem, porque nenhum outro detalhe do cotidiano dos personagens é tão diferente assim da realidade. E porque sou chata e esse detalhe me chamou a atenção por razões pessoais.

Aprendi a projetar filmes em 16 mm por volta dos meus 20 anos, quando comecei a trabalhar na Filmoteca da Escola de Comunicações e Artes da USP, a ECA. As melhores lições quem me deu foi o Felisberto Belisso, o grande Feliz, o único projecionista autorizado a projetar os filmes em estado mais delicado da Cinemateca Brasileira, o cara que foi homenageado no programa Castelo Rá-Tim-Bum. Para quem não se lembra, o projetor da bruxa Morgana foi batizado com o nome de Felisberto em homenagem a esse cavalheiro. E sim, o nome dessa profissão é projecionista, projetista é outra função. Feliz me ensinou diversos macetes, como deixar as folgas corretas na película para evitar distorções no som. Graças a essas lições tive um momento de glória durante uma exibição de filmes na Aliança Francesa. O funcionário, coitado, não estava se acertando com um projetor novo. Fui lá, resolvi tudo e assisti ao filme dentro da cabine de projeção.  Logicamente isso só foi possível porque o pessoal da Aliança me conhecia, já que boa parte dos filmes que passavam lá eram emprestados pela Filmoteca da ECA. 

Filmes podiam quebrar durante a projeção ou até queimar, se o projecionista saísse da sala e o projetor travasse num fotograma. Todo espectador frequentador de cinemas ruinzinhos na era pré-digital já viu um filme queimando na tela. A imagem chegava a ser bonita, mas era muito chato. A platéia precisava assobiar, gritar e xingar, até que o técnico relapso voltasse ao posto, fizesse uma emenda rápida e continuasse a projeção. Projeção digital vagabunda também dá problema, mas o nível de emoção não é o mesmo.

Por causa dos acidentes durante a projeção, os filmes precisam ser revisados depois. Eu mesma fiz esse trabalho muitas vezes e treinei diversos funcionários na tarefa. A gente precisava desenrolar o filme todo em busca de quebras, emendas mal feitas, trechos com perfuração rompida. Os reparos eram feitos com uma fita adesiva especial, caríssima, a mesma que se usava na montagem de negativos — e quem me explicou isso foi o montador de negativos da ECA, o queridíssimo Benedito de Oliveira, o Benê. Às vezes era necessário limpar a película, e para isso aprendi a usar um produto sinistro chamado tetracloreto de carbono, que mais tarde descobri ser tóxico e cancerígeno. Parei de usar, mas experimentei diversos outros venenos durante minha carreira de bibliotecária audiovisual, um trabalho muito perigoso.

Em  2001, já promovida a uma chefia qualquer, minhas funções não incluíam mais a limpeza e manutenção de filmes. Então, a Escola de Comunicações e Artes pegou fogo, e dessa vez não foi em sentido figurado, como sempre acontecia. Os filmes não foram atingidos, mas ficamos com medo que a umidade resultante da ação dos bombeiros afetasse o acervo. Quem nos socorreu foi o pessoal da Cinemateca Brasileira, que entrou em contato e ofereceu ajuda. Quem foi até a Cinemateca para fazer uma reciclagem de revisão de filmes fui eu porque, embora não fosse mais minha função, toda vez que alguém mencionava "acervo de filmes" na ECA era meu nome que vinha logo depois. E ainda é assim, na verdade. Depois de quase 10 anos afastada dessa briga, voltei a revisar, limpar e colar filmes, além de ensinar outros funcionários a fazer isso. Até que foi divertido, tanto que me lembro disso sem angústia. 

Os nazistas e os antinazistas da série nunca tiveram que emendar um filme. Apesar das péssimas condições de conservação, os filmes, que viajavam de um universo a outro jogados de qualquer maneira, deslizavam placidamente nos projetores, sem incidentes. Ninguém veio me buscar nesta dimensão para resolver problemas. Que alívio.

Uma das minhas lembranças mais agradáveis do tempo da Filmoteca eram as ocasiões em que eu ficava até mais tarde para projetar filmes para mim mesma. Numa dessas vezes, projetei e assisti India Song, de Marguerite Duras, belíssimo e estranho, com som totalmente off. Vemos as imagens de um palácio por onde vagueiam, como fantasmas, dois ou três personagens. A banda sonora é a de uma festa ocorrida no mesmo local, na noite anterior. Dá para ver o trailer no YouTube e o filme na plataforma Criterion Channel. Há um outro filme da mesma cineasta, Son nom de Venise dans Calcutta désert, com a mesma trilha sonora, mas outras imagens: apenas o palácio vazio. Esse, eu ainda não vi. Tem no YouTube, mas eu gostaria de ver no cinema.

India Song não foi exibido comercialmente no Brasil. Só passou em mostras, creio que sempre com a mesma cópia pertencente ao Consulado da França, que por alguns anos morou na Filmoteca da ECA. Anos depois, vi que passaria num cineclube qualquer de São Paulo, não me lembro qual. Eu não poderia perder, porque talvez fosse minha última chance de rever esse filme. Meu marido não estava muito entusiasmado, então avisei que iria sozinha. Meu jovem cunhado, entretanto, que estava hospedado conosco naquele dia, ficou indignado. Moço do interior, cavalheiro, fez questão de me acompanhar, apesar dos meus avisos de que não precisava, que moça de cidade grande não precisa de acompanhante para ir ao cinema e que o filme era muito esquisito. Coitadinho, provavelmente foi a ocasião em que ele mais se arrependeu de ser gentil. Um dia, se conseguir obter uma cópia do India Song, vou dar de presente para ele. Quem sabe agora, mais velho, ele até goste. 

 A parte cômica da minha projeção solitária na Filmoteca foi, devo confessar, minha incompetência. Envolvida com o filme, na sala escura, esqueci de checar se ele estava enrolando normalmente no carretel receptor, e não estava. Resultado: quando terminei de me emocionar com  a obra-prima, encontrei um filme todinho desenrolado no chão. Essa palhaçada me custou horas de trabalho no dia seguinte, para voltar o filme certinho em sua bobina. Por sorte, a cópia não sofreu nenhum dano. 

Ainda temos nosso velho projetor 16 mm Bell & Howell, guardado dentro de um armário, desmontado. Não sei se ainda me lembro de como operá-lo. Gostaria de matar a saudade, mas não vou me arriscar a danificar um filme. Em breve, se tudo der certo, o acervo da ECA irá para um local com mais condições de preservá-lo. Supervisionar o transporte será, provavelmente, meu último trabalho com esse acervo. 

Carregar latas de filmes para cima e para baixo na ECA trouxe alguns prejuízos à minha coluna vertebral, mas penso que, de certa forma, foi um privilégio ter esse contato íntimo, digamos, com  a dimensão material e pesada do cinema, arte que me faz feliz desde os 4 anos de idade. Há mais tempo, portanto que a literatura. Termino este texto nostálgico com a canção que era tocada nos cinemas do interior de São Paulo, durante minha infância, no momento em que se abriam as cortinas. Naquela época, as telas das salas de cinema eram protegidas por cortinas, que se abriam quando a projeção estava prestes a começar. Ouvir essa música, tema de um filme que não assisti e que me parece muito cafona, ainda me traz o mesmo sentimento de felicidade que experimentava nessa época,  porque o filme estava prestes a começar. Ouçam Theme from A Summer Place, de Percy Faith

Marina Macambyra

Marina Macambyra, escritora iniciante, nasceu em 1961. Mora em São Paulo (SP), desde 1979. É bibliotecária formada pela Escola de Comunicações e Artes da Universidade de São Paulo, onde trabalha desde 1981. Teve um conto publicado na revista Originais Reprovados, laboratório dos alunos de Editoração da ECA/USP,  e dois em coletâneas da Metamorfose, A vida aqui não é facil (2021) e Navalha, veneno, mistério: contos policiais, de suspense e investigação (2023).

Publica, ocasionalmente, na plataforma Medium e também escreve textos acadêmicos e técnicos ligados à sua área de trabalho na Biblioteconomia. Suas histórias têm sempre elementos dos gêneros fantástico e horror, em perspectiva feminista. Aluna do curso Formação de Escritores, iniciado em 2025.

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