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Vida, tecnologia e bibliotecas

Vida, tecnologia e bibliotecas

Vida, tecnologia e bibliotecas

Escrevi esse conto pensando em enviá-lo para um concurso cujo tema era tecnologia, sem usar a palavra tecnologia no texto. Seria uma pequena homenagem aos grandes professores que conheci durante minha carreira na USP, mas acabei perdendo o prazo e não enviei o conto.


Vida


Helena reinicia o computador pela terceira vez e se levanta irritada, contendo impulsos ludistas. Passa das dez horas da manhã, ela ainda não conseguiu fazer nada além de lutar contra máquinas rebeldes e decide que precisa de um café. Sua marcha em direção à cafeína é detida pela estudante que, diante do terminal de consultas, pede socorro com o olhar. É uma caloura muito jovem, que nunca havia frequentado bibliotecas antes de entrar na universidade.

— Moça, eu encontrei o livro, mas não consigo baixar de jeito nenhum!

A bibliotecária não se surpreende mais com essa dúvida, muito comum entre alunos de  todas as idades e formações. Eles não entendem que localizaram apenas uma referência a um livro  no catálogo, não o próprio livro.  Desfaz a confusão sorrindo, explica como encontrar o livro na estante com ajuda do código de localização. A garota acha tudo muito genial e recusa ajuda, dizendo que vai tentar sozinha. Logo volta com o livro, vitoriosa.

Já esquecida da irritação e do café, Helena vai oferecer ajuda a um rapaz que encara as estantes com expressão confusa. Localiza rapidamente a tese que ele procurava, no exato lugar onde deveria estar. Acontece. Nesse momento, o sistema de empréstimo cai, pela segunda vez em três dias. O rapaz quer saber quando volta.

— Pode ser em algumas horas, ou só amanhã, a gente nunca sabe. Mas esta tese está disponível em pdf e você pode  baixar.

Ele prefere voltar mais tarde, porque não aguenta mais ler no celular e não tem dinheiro para comprar um dispositivo melhor. 

De volta à sua mesa, ela tem duas boas surpresas: primeira, o computador voltou a funcionar, segunda, o professor Aldir Zurlini está entrando na biblioteca, com seu jeito distraído. Tropeça numa cadeira, derruba e recolhe alguns livros e olha em volta, constrangido. Um sorriso de alívio ilumina seu rosto barbudo quando localiza Helena. Já fazia mais de um ano que ele não aparecia na biblioteca, sempre ocupado com viagens, cursos no exterior e tratamentos de saúde. 

— Que bom ver você por aqui! Tive medo que já tivesse ido embora.

— Ainda não, professor. Com essa última mudança na lei, tenho alguns anos pela frente.

Zurlini é um professor muito respeitado e um dos teóricos mais importantes em sua área de pesquisa, conhecido pela dedicação aos estudantes. Seus colegas e alunos o chamam de AZ, letras que não são apenas suas iniciais, mas  uma referência ao seu vasto conhecimento. Helena o conhece desde que começou a trabalhar na biblioteca, há mais de trinta anos, e sempre se deu muito bem com ele, mas ainda o chama apenas pelo tratamento de praxe,  "professor". É respeitoso, sem excesso de formalidade, e evita o constrangimento de esquecer ou errar nomes. 

— E aquela bibliotecária um pouco mais velha que nós, a loirinha de cabelo cacheado? 

A colega já se aposentou, mesmo antes de completar o tempo necessário.  Uma pena, mas ela não conseguiu acompanhar as mudanças na rotina de trabalho trazidas pela informática. Catálogos online, bases de dados para pesquisa acadêmica, empréstimo automatizado, todo dia um software ou aplicativo novo para aprender, tudo isso foi demais para ela, que havia começado a trabalhar mais tarde, depois de criar dois filhos. Ficava mal com isso, achava que estava se tornando um peso para os colegas, que perdiam muito tempo tentando ensiná-la e fazendo as tarefas que ela não conseguia.

— É, muita gente acaba ficando mesmo para trás, Helena. Que pena.

Helena nota alguma melancolia nessa fala do professor. Ele mesmo tinha visíveis problemas de atualização. Quando se conheceram, a biblioteca ainda não estava informatizada e Zurlini era perfeitamente autônomo na pesquisa pelos catálogos em fichas e mesmo nas bibliografias impressas. Orgulhava-se de orientar ele mesmo seus alunos no uso da biblioteca, e exigia que os estudantes a frequentassem. Mas o tempo foi passando em velocidade cada vez maior, e o professor acabou se perdendo. Ele dizia que num dia o catálogo era um armário com gavetinhas cheio de fichas, no outro já era uma base de dados que só respondia a quem soubesse usar operadores booleanos, uma semana depois já estava tudo na internet, só que de um jeito mais complicado do que no Google. 

Ao contrário de muitos colegas que procuravam disfarçar sua falta de intimidade com os novos sistemas, com vergonha de depender de funcionários para realizar tarefas que antes dominavam, o professor AZ não tinha problemas em pedir ajuda. Sempre encontrava uma palavra de elogio para a expertise das moças da biblioteca, mas Helena notava nele uma certa tristeza. Talvez ele imaginasse que a perda do domínio sobre os mistérios da procura de livros fosse um sinal de decadência cognitiva. Para compensar um pouco esses sentimentos, quando  ele pedia ajuda, ela sutilmente levava a conversa para as áreas de pesquisa dele, pedia auxílio com conceitos e termos que ele dominava. O professor se animava a ponto de dar pequenas aulas, e era bonito ver os funcionários da biblioteca se aproximarem para escutá-lo. Os trabalhadores nem sempre têm a oportunidade de ouvir alguém como ele, mesmo atuando na mesma universidade. 

Um pós-graduando se aproxima, tímido. Não está conseguindo achar um livro e mostra o código que anotou num pedaço de papel. Não, esse não é o código de localização, é um número que o sistema usa para coisas que sistemas fazem, e que nem deveria estar num local tão visível. Confunde todo mundo. O rapaz parece contente em não ser o único enganado e volta para as estantes, agora com o número correto anotado em seu papelucho. O professor AZ comenta:

— Não dá pra tirar esse número daí?

— Imagino que seja possível, professor. Mas já pedimos várias vezes para os administradores do sistema, eles dizem que não dá. Eu não acredito, mas não posso fazer nada. É assim que são as coisas, você sabe. 

Helena pede licença ao professor para socorrer uma senhora já bastante idosa, que olhava para a tela do terminal de consulta com ar perplexo. Helena faz a busca, baixa um artigo e imprime, para alívio da mulher, uma funcionária aposentada em busca de material para o trabalho do neto.

O professor achou estranho. Era normal isso, avós fazendo pesquisa pros netos? Esses jovens não acham tudo na internet? Helena explicou que era um artigo de revista assinada pela universidade, que só abria nos computadores das bibliotecas. O neto trabalha o dia todo e estuda à noite, logo? sobrou para a vovó.

— Você se lembra, Helena, da resposta que você deu para um orientando meu que perguntou por que vocês não "colocavam todas aquelas fichas no computador"? Um cara chato, meio grosseiro, que tinha uma dificuldade enorme com os catálogos?

— Isso deve ter sido há uns 20 anos, no mínimo. Eu disse que pessoas que têm dificuldades com a ordem alfabética também não conseguiriam procurar no computador. Que vergonha, eu não costumo ser mal educada assim.

— Ele mereceu. Era o tipo de pessoa que sempre tentava justificar suas dificuldades culpando fatores externos. Era o fichário, o orientador, o clima, tudo, menos ele. E a história virou piada. Sempre que ele reclamava de alguma coisa, até da comida do restaurante, os colegas sugeriam: põe no computador que melhora!

O professor e a bibliotecária riem alto, dois alunos que estudam lá por perto soltam um "psiu" de brincadeira. Zurlini continua, cochichando:

— E se ele estivesse aqui, estaria dizendo que no tempo das fichas era melhor, porque não tinha sistema caindo!

— E eu responderia que nessa época as máquinas de escrever quebravam e faltava dinheiro para comprar fichas.

Ela empresta ao professor três livros, uma tese e um DVD pelo método do papelzinho, já que o sistema ainda não voltou.  Anota os códigos de barra em sua agenda e gruda num dos livros um papelzinho com a data de devolução .

— Que privilégio, hein? Aposto que você não faz isso para todos.

— Não mesmo. É que, no seu caso, se pisar na bola eu sei exatamente onde te encontrar.

AZ guarda o material numa sacola que tira do bolso e coloca no ombro com alguma dificuldade, agradece e se despede. Ao notar seu andar vacilante, a bibliotecária se entristece. O jovem professor que subia com agilidade no caminhão de som do sindicato para discursar contra o que chamava de "restos da ditadura"  já é quase um velhinho, como ela será dentro de poucos anos. Então ela se lembra de algo que sempre teve vontade de fazer, mas não tinha coragem, e chama, segurando o celular:

— Aldir!

Ele se volta, surpreso.

— Faz uma "selfie" comigo?

Rindo, professor pergunta se ela sabe fazer "selfie", . Não sabe. Nem ele, mas os dois se ajeitam, procurando o melhor enquadramento. Depois de algumas tentativas canhestras e duas quedas de celular, finalmente conseguem uma foto razoável, que a bibliotecária promete enviar por e-mail. Ele só usa e-mail, não gosta desses aplicativos de mensagens.

Quando abre a "selfie" em seu computador ressuscitado, Helena se alegra ao ver, além das ruguinhas e da barba descuidada, o mesmo brilho animado e altivo de antigamente nos olhos do professor.

Há coisas que não mudam jamais.

Marina Macambyra

Marina Macambyra, escritora iniciante, nasceu em 1961. Mora em São Paulo (SP), desde 1979. É bibliotecária formada pela Escola de Comunicações e Artes da Universidade de São Paulo, onde trabalha desde 1981. Teve um conto publicado na revista Originais Reprovados, laboratório dos alunos de Editoração da ECA/USP,  e dois em coletâneas da Metamorfose, A vida aqui não é facil (2021) e Navalha, veneno, mistério: contos policiais, de suspense e investigação (2023).

Publica, ocasionalmente, na plataforma Medium e também escreve textos acadêmicos e técnicos ligados à sua área de trabalho na Biblioteconomia. Suas histórias têm sempre elementos dos gêneros fantástico e horror, em perspectiva feminista. Aluna do curso Formação de Escritores, iniciado em 2025.

Conheça também meu blog Imagem Falada