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Chá revelação

Chá revelação

por Nereida Senna Vergara

Seis de setembro de 2008, fim de tarde. Trajada em um vestido azul de tafetá, com um elegante bolero de renda, Elvira trazia os cabelos presos em um coque bem feito, para destacar os brincos de turmalina. A mulher observava, atrás de uma das árvores do canteiro central do Parque da Redenção, a entrada de André e Glória na igreja Santa Terezinha. Seu amado filho, de fraque cinza, entraria no templo de braço com a noiva. Ela não o conduziria até o altar.

Dava para escutar a movimentação dos convidados para a cerimônia. André e Glória chegaram em um único carro. As portas do templo se fecharam. Um fotógrafo aguardava para registrar o momento da entrada. A mãe da noiva fez o último ajuste no véu. 

As portas da igreja voltaram a se abrir. Marcha nupcial.

Trôpega, Elvira buscou um dos bancos do parque para sentar. Chorou, e, baixinho, pediu: perdão, Cândida, eu não devia ter te feito sofrer, não devia ter feito nosso menino sofrer.

Dois meses antes, a senhora de mais de 80 anos organizou um encontro com André, segundo filho da família formada por ela e Bráulio, falecido há 25 anos. Na casa térrea comprada quando do casamento, Elvira imaginou um chá, onde pudesse contar algo que a atormentava e buscar uma melhora no relacionamento com o homem adulto, de 45 anos, mas de temperamento muito difícil. 

Com capricho, colocou na mesa uma velha toalha bordada com pequenas tulipas. O tecido, já meio amarelado, ainda conservava a graça de uma peça familiar. Posicionou duas xícaras de chá, dois pratinhos de sobremesa, o açucareiro de vidro, um bule térmico com água quente, as caixinhas com diversos sabores de chás e o prato com um bolo de laranja feito por ela, o preferido de André. 

Aflita, Elvira olhava os minutos passarem como se fossem horas. Ia e voltava da janela. Apertava as mãos e suspirava, para vencer a sensação de sufocamento.

Finalmente a campainha tocou. 

- Oi meu filho, ainda bem que chegaste.

- O que foi mãe? A senhora parece tão angustiada - disse André, médico psiquiatra, acostumado a interpretar as reações das pessoas.

- Preciso te pedir uma coisa, mas não será fácil.

Ambos sentaram-se à mesa para tomar o chá e começar a "árdua" conversa, como definiu Elvira. Contrita, a mulher relembrou a infância de André, quando os meninos e meninas na escola debochavam dele por ter uma mãe "tão velha". O garoto ficava muito contrariado com os comentários naquele tempo e pedia à mãe que, quem sabe, fosse ao salão tingir o cabelo ou usasse algo mais alegre, em vez dos vestidos estampados de flores e laço no pescoço.

- Lembro disso, mas diga logo o que quer mãe. Está precisando de dinheiro? Estourou de novo o cartão de crédito?

A mulher de cabelos brancos, com o rosto crispado, iniciou a falar da filha, Cândida, morta precocemente aos trinta anos, em um acidente de carro, quando André tinha dez anos. Recordou a tristeza que se abateu sobre a família, agravada pelo falecimento do marido, Bráulio, dois anos depois.

- Minha linda filha, tão jovem, tão talentosa. Se foi tão cedo naquele maldito acidente de carro - disse Elvira, dando voltas na conversa.

- Eu amava a Cândida, era uma irmã tão boa pra mim. Me deixava dormir na cama dela quando eu dizia que estava com medo de temporal. Nem tinha medo, só gostava de dormir na cama dela, cheirando aquele cabelo que ela cuidava tão bem.

Elvira, então, recordou os preconceitos da sociedade no ano em que André nasceu, 1963, quando a virgindade ainda era algo importante e as moças ficavam marcadas se dessem um "mau passo".

- Mãe, que conversa é esta? Estou começando a me aborrecer. O que a senhora deseja afinal? Não me diga que quer que eu desista de meu casamento com a Glória? Já falei que não aceito mais o seu ciúme doentio em relação a mim. Francamente, que doença - repreendeu André.

Beirando às lágrimas, Elvira baixou os olhos, mexeu com a colher o chá parado na xícara. Balançou a cabeça e levantou o rosto novamente, fitando os olhos azuis do filho.

- André, eu não sou sua mãe. Sou sua avó. Sua mãe era Cândida. Eu e ela ficamos no sítio de São Francisco de Paula quase um ano, para que tu nascesse e eu e o Bráulio pudéssemos concretizar tua adoção, como se fosse nosso. Inventamos uma gravidez de risco para mim e dissemos que ela largaria os estudos naquele ano para me acompanhar.

André arregalou os olhos. A alça da xícara escapou pelos seus dedos. O silêncio se fez. O homem olhou para a toalha manchada de chá. O tecido amarelado ganhou tons de marrom.

A nódoa o levou daquela sala onde o ar estava irrespirável. Ele se viu caminhando entre as árvores, na rua, conduzido pela mão de Cândida. Naquele momento, era um menino, animado para sentar no Jardim Botânico e ouvir Cândida ler o livro que tinha na bolsa.

No local, um santuário dentro de Porto Alegre, com milhares de espécies vegetais e um cheiro bom, a moça de cabelos longos presos em uma trança tirou da sacola uma colcha velha e ali acomodou duas almofadas pequenas, uma garrafa térmica com chá gelado, de limão, e dois copos. Cândida e André estavam lendo juntos O Menino do Dedo Verde e escolheram o ambiente daquele jardim para tornar a história mais sensorial.

No meio da leitura, a criança pergunta:

- Mana, tu nunca vai ter um namorado?

- Namorar dá muito trabalho, André. Um dia tu vai descobrir - diz Cândida, constrangida.

- Mas tu nunca namorou?

- Ué? Namorei sim, tu que não te lembra.

- E como era o nome dele?

- Ai André, chega dessa curiosidade tá? Tu parece a mãe, indagando sem parar da minha vida.

Quantas lembranças vieram à tona naquele fragmento trágico de tempo, refletiu André. Antes de levantar a cabeça novamente e encarar Elvira, o homem pensou que, além de negar-lhe a mãe, a criatura sentada à sua frente negou-lhe também a chance de saber quem era seu pai. Naquela casa, nunca, nenhuma vez, entrou qualquer rapaz para cortejar Cândida, uma moça bonita, inteligente e doce. 

- Meu filho, diz alguma coisa. Me perdoa por levar tantos anos para te contar isso. Mas agora eu precisava. Este segredo me assombrava há anos. Em sonho, pedi perdão muitas vezes para Cândida. Mas não foi suficiente, minha alma seguiu se contorcendo.

- A primeira coisa que tenho para te dizer é: não me chame mais de filho - respondeu André.

Com o rosto sustentado pelas mãos, ele estava transtornado. Olhou nos olhos daquela que até dez minutos atrás achava ser sua mãe e viu desmoronar tudo em que acreditou ao longo da vida. Viu ruir a lealdade que teve àquela mulher problemática, carente, demandante. Aquela falsa mãe que quis controlar sua vida, interferir em seus relacionamentos e que usou de chantagens, muitas vezes, para ser vitoriosa. Como responder a quem lhe escondeu a verdade sobre algo tão primordial?

- Elvira, olha bem no meu rosto e escuta com atenção o que eu vou te dizer, porque esta vai ser a última vez que falaremos sobre isso - avisou André.

- Meu filho, não fala assim, não vou aguentar. Eu sei que tu vai me perdoar, tu tem um bom coração - apelou a mulher, entre lágrimas.

André passou a mão nos cabelos. Pressionou a nuca e depois esfregou as mãos, como se procurasse em algum lugar forças para o que precisava expressar.

- Nunca mais me chame de filho. Desde os meus 12 anos, quando teu marido morreu de depressão, agora acho que por culpa pelo que vocês fizeram à minha mãe, temos sido apenas nós dois. Teve dias na minha vida que eu queria fugir de ti. Das tuas lamúrias, dos conselhos cheios de preconceitos, da mania de odiar minhas namoradas, de tentar boicotar tudo que me deixasse feliz. Mas sempre guardei respeito, pelo sacrifício de me pôr no mundo quase aos 50 anos, pela dor que representou para ti a morte de Cândida e depois a morte do Bráulio. A crueldade que tu e teu marido impuseram à Cândida e a mim é inacreditável. Tu não me deixou ir ao velório da minha irmã, "para não me traumatizar", não deixou eu me despedir dela, sabendo que era minha mãe. Ao menos tu sabe quem é meu pai?

- Não, Cândida nunca contou. Pode acreditar em mim, se eu soubesse, hoje eu te contaria, pois não suporto mais guardar isso - confessou Elvira.

André levantou, deu meia volta na sala e voltou a se sentar.

- Essa atrocidade que tu e Bráulio fizeram pode ter levado Cândida a se matar?

_A polícia nunca nos deu certeza se ela arremessou o carro contra a árvore ou se perdeu o controle. Ela não devia estar passando naquele local aquele dia, isso foi estranho, mas nunca tivemos certeza. Bráulio não dormiu nem um dia depois da morte de Cândida. Para ele, a morte dela foi o pior castigo pelo que a obrigamos a fazer - contou Elvira. 

André, emocionado, foi até a estante e pegou um porta retrato onde ele e Cândida estavam eternizados em um abraço. Colocou a peça dentro da maleta e dirigiu-se à porta. Antes de sair, voltou a olhar para Elvira, ainda sentada à mesa, desolada e trêmula. Não sentiu pena dela.

- Eu nunca vou te perdoar - sentenciou o homem, antes de partir.


 

Nereida Senna Vergara

Nereida foi jornalista por quase 40 anos e decidiu se aposentar em 2025 do cargo de editora de Rural do jornal Correio do Povo. Natural de Porto Alegre e com prêmios jornalísticos no curriculo, decidiu aproveitar o gosto pela leitura e pela escrita para estudar escrita criativa no curso de Formação de Escritores. Seu desejo é aprimorar o texto para escrever de forma que toque o leitor e o faça refletir.