por Nereida Senna Vergara
Eu sou do signo de Capricórnio. Dizem que as pessoas que nascem neste signo se caracterizam por carregar pedras e subir montanhas com resignação. Verdade ou não (não
sou fã ardorosa da astrologia), fui, ao longo de seis décadas de existência, um indivíduo inclinado a carregar peso. Tudo para mim precisava ser denso e muito bem definido, com
certezas declaradas. Valia para os relacionamentos amorosos e familiares e para as tarefas comezinhas.
Isto até o dia 18 de dezembro de 2023.
Nunca imaginei que a minha vida daria uma cambalhota tão grande ao abrir um envelope e encarar a palavra carcinoma. Logo eu, tão certinha, a que nunca bebeu, nunca fumou, nunca experimentou maconha, nunca exagerou em nada. Em dezembro daquele ano, descobri um câncer de mama, já metastático, diagnosticado por sintomas na coluna e não na mama.
O desafio inicial desse tsunami foi contar para as pessoas. Senti vergonha. Parecia ter falhado, relaxado, negligenciado. E falhei, comigo.
Por anos, me dediquei à família de uma maneira exagerada. Coloquei a prioridade neles, nunca em mim. Depois de um divórcio muito difícil, em 2012, me vi às voltas com problemas muito graves,envolvendo a minha filha mais velha, e fui nesta batida por pelo menos 10 dez anos, até ela romper comigo em 2022, resultado da minha obsessiva vigilância.
Evidentemente, não acredito que fatos da vida influenciem de forma direta no aparecimento de uma moléstia tão séria como o câncer. Mas a própria medicina reconhece o estresse como parte do processo de adoecimento e eu acumulei toneladas de estresse. Quieta.
Com o diagnóstico em mãos e a devida investigação sobre a gravidade do caso, iniciei o tratamento como se fosse mais uma das pedras enormes que levei montanha acima muitasvezes ao longo dos anos. Vi o pior cenário, o mais devastador.
Gostam de dizer que pacientes oncológicos são corajosos, guerreiros. As palavras são elogiosas, eu sei, mas não gosto delas. Enfrentar o tratamento do câncer não é uma opção. Pelo menos inicialmente, ou se faz ou se morre.
Para minha surpresa, meu caso incurável tem um prognóstico bem animador, de vida (sobrevida é outra palavra intragável) por uns 10 dez anos a partir da descoberta. Não fiz
cirurgia, não perdi o cabelo, fiz um ciclo de radioterapia de apenas cinco dias, que curou duas lesões na coluna e eliminou a dor intensa. Tomo para sempre três comprimidos por
dia, um deles ao custo de R$ 383,00 a unidade, coberto pelo SUS, graças a uma sentença judicial definitiva.
A pedra, que parecia a maior de todas, e impossível de suportar, na verdade, acabou por me ensinar leveza. A vida tem sido bem mais agradável do que imaginei. Me coloco como prioridade, sem culpa. Aceito aquilo que o destino me reserva: que um dia o tratamento vai falhar e eu vou morrer. Mas todo mundo vai morrer, não é?
Até lá, ficarei viva e íntegra, pois opções que me degradem como ser humano não serão aceitas e isso também torna o caminho menos assustador.
Como diz o escritor Primo Levi, em seu comovente livro de memórias "É isto um homem?":
Cedo ou tarde, na vida, cada um de nós se dá conta que a felicidade completa é irrealizável; poucos, porém, atentam para a reflexão oposta: que também é irrealizável a infelicidade completa. Os motivos, (...) , eles vêm da vêm da nossa condição humana, que é contra a qualquer "infinito".
Nereida foi jornalista por quase 40 anos e decidiu se aposentar em 2025 do cargo de editora de Rural do jornal Correio do Povo. Natural de Porto Alegre e com prêmios jornalísticos no curriculo, decidiu aproveitar o gosto pela leitura e pela escrita para estudar escrita criativa no curso de Formação de Escritores. Seu desejo é aprimorar o texto para escrever de forma que toque o leitor e o faça refletir.