por Nereida Senna Vergara
No finalzinho de 2025, visitei o Deserto do Atacama, na comuna chilena de Antofagasta, a 1,6 mil km de Santiago do Chile. Muito li e ouvi histórias a respeito daquele pedaço do mundo, mas fui surpreendida de todas as formas pelas belezas esculpidas pela natureza e pelo convite que o Atacama faz à reflexão.
O povoado de San Pedro de Atacama, com cerca de 11 mil habitantes, recebe milhares de turistas por ano. Com sua arquitetura em blocos de adobe, forjados em argila, o oásis tem um tom avermelhado, que a natureza emoldura com vegetações resistentes à falta de água e às oscilações de temperatura.
Para viajar ao Atacama é preciso levar uma mala grande, mesmo para poucos dias, onde caibam casacos, calças térmicas, regatas e biquíni. No mesmo dia, faz de 3° C a 35° C. Colírios e soluções nasais também são itens de primeira necessidade, assim como comprimidos para tolerar a altitude, para quem tem problemas com isso.
Pela manhã, a partida para os passeios é sob frio intenso. Já o retorno, é de busca sequiosa por uma boa e gelada limonada com rica-rica, que podia ser chamada de pó de pirlimpimpim dos atacamenhos. A rica-rica, ou Aloysia Deserticola, é uma planta que só nasce em solo andino e, segundo os nativos, é boa para curar tudo, de dor de barriga à dor de cabeça e insônia. Testei, é boa mesmo. É possível encontrá-la em locais como o Vale do Arco Íris, onde as montanhas têm um colorido arrebatador, e em feiras no centro do povoado.
A gastronomia do deserto é bastante amigável ao estômago, mas não ao bolso. Em San Pedro de Atacama uma refeição simples para duas pessoas beira os R$ 200,00. A fartura de turistas de todo o planeta, em especial da Europa e dos Estados Unidos, despertou o apetite dos comerciantes, fazendo uma simples garrafa de água mineral chegar a custar R$ 12,00. No Ano Novo, eu e meu parceiro de viagem decidimos ir numa hamburgueria local. Dois sanduíches, acompanhados de batata frita, uma água e uma coca-cola, saíram, naquele dia, R$ 300,00. Está bem que um dos hambúrgueres era de carne de lhama. Não foi o meu.
Embora com estadia cara, o deserto vale cada centavo que a gente gasta, porque é uma experiência única. É um lugar onde devemos apreciar o silêncio, seja para não assustar os flamingos ou para conseguir ouvir o "som do sal". Nas formações geológicas do Valle de La Luna - que já foi cenário de filmes e que de fato remete ao que imaginamos seja o solo da Lua -, é possível ouvir as paredes, num fenômeno acústico produzido pela cristalização e expansão das crostas de sal no deserto. Foi lá que eu percebi que o deserto não é sinônimo de vazio. Há uma vida pulsante, que vem se renovando na velocidade da natureza e que sustenta animais belíssimos como as lhamas e as vicunhas, estas últimas com um pêlo dourado que se enxerga ao longe.
O Deserto do Atacama também nos oferece um céu que eu duvido se consiga ver em outro lugar do continente. Em sítios sem iluminação, entra-se no escuro, sem celular, para que a visão se adapte e seja possível ver uma quantidade de estrelas invisíveis ao ser urbano. Um filme sensacional, de 2010, dirigido por Patrício Guzmán, chamado Nostalgia da Luz, retrata o Atacama por suas estrelas e pela ação de mulheres empenhadas em buscar, no solo, ossos de familiares desaparecidos na ditadura de Augusto Pinochet.
A maior parte dos sítios que se visita na região do Atacama é de fácil acesso e até confortável. O sol, entretanto, castiga as pessoas mais saudáveis. A viagem até lá foi a primeira que fiz depois de ter o diagnóstico de uma doença crônica grave, no final de 2023. Venci o medo e a fadiga para ficarem gravadas na minha retina as melhores lembranças.
Foi uma ousadia com final feliz.
Nereida foi jornalista por quase 40 anos e decidiu se aposentar em 2025 do cargo de editora de Rural do jornal Correio do Povo. Natural de Porto Alegre e com prêmios jornalísticos no curriculo, decidiu aproveitar o gosto pela leitura e pela escrita para estudar escrita criativa no curso de Formação de Escritores. Seu desejo é aprimorar o texto para escrever de forma que toque o leitor e o faça refletir.