por Nereida Senna Vergara
Margarete, Eliana e Vera têm um ritual de amizade há anos. Toda a quarta-feira, encontram-se em um bar diferente de Porto Alegre, para uma cervejinha, um espumante ou uma taça de vinho. Pode ser em qualquer bairro, mas o importante é que o local tenha cara de boteco, do bagaceiro ao chique. Nos encontros, sempre há algum tópico que domina a discussão. As amigas, plenas na maturidade, debatem desde questões políticas e sociais até os problemas de cada uma, achaques da saúde e coisas práticas, como os preços do supermercado e a reforma da cozinha de Vera, que nunca termina.
Eliana e Vera, ambas colegas num grande banco da cidade, não esperavam o assunto proposto por Margarete, professora aposentada, conhecida por não ter papas na língua.
- Gurias, vocês ficaram sabendo da separação da Gilda? - questionou Margarete.
- Não. Meu Deus, mais de 30 anos de casada - espantou-se Eliana.
- Aposto que foi traição - disse Vera, comentando que, depois de tantos anos juntos, em geral, é o que acontece.
- Pois então, o Ricardo traiu ela com uma vizinha do prédio. Uma mulher com dois filhos pequenos.
Horrorizadas, elas teceram ali algumas teorias que poderiam ter resultado no fim do casamento. Podia ter sido desgaste na convivência, falta de sexo, problemas financeiros, interesse do Ricardo em pornografia (Gilda, amiga das três, já havia comentado que aquilo a incomodava muito). Os motivos pelos quais os casamentos acabam são muito parecidos, entraram em consenso.
- Pois então, acabou porque mais um homem foi canalha com a mulher que viveu por anos. Porque não teve culhão para terminar com o vínculo com decência - disparou Margarete.
As outras duas notaram uma mudança no tom de voz da companheira de bar, e um certo rubor nas suas bochechas emolduradas por uma cabelo preto entremeado de fios brancos.
- Tu está brava, amiga? - arriscou Vera.
- Brava não, eu estou furiosa - disparou Margarete.
- Ora, mas por que? Coisa mais comum, clichê mesmo, que todas nós passamos, levando chifre de macho - comentou Vera.
Margarete encheu o copo de cerveja, colocou a cabeleira para o lado e soltou a explicação inesperada:
- Tô furiosa porque mais uma vez se comprovou que não há sororidade entre as mulheres. Por um homem para trazer confirmação, às vezes um pouco mais de dinheiro, outras vezes até por um apaixonamento fora de hora, tem mulher que não hesita em destruir a vida de outra.
Eliana, um tanto preocupada com a grandiloquência da amiga, discordou.
- O compromisso era do cara, ele que deve respeito a mulher com quem viveu a vida toda e construiu uma família - rebateu.
Com discurso ainda mais inflamado, com as bochechas mais vermelhas e a voz ainda mais elevada, Margarete disparou:
- Tu percebe a hipocrisia da tua discordância Eliana?
- Opa, vai brigar comigo agora? - reagiu a amiga.
A ex-professora fulminou as duas parceiras com os olhos e depois iniciou a argumentação que, segundo ela, comprovaria sua teoria. Margarete lembrou que nos tempos modernos as pessoas costumam saber tudo da vida dos outros. Sabem se são casadas, se têm filhos, se gostam de música sertaneja e se seu passado político recomenda. Sabem que os homens são canalhas quando traem. Mas como isentar de culpa aquela que aceita em sua cama um homem casado, mesmo sabendo a dor que vai causar a uma mulher como ela?
- É, pensando assim, pode até ser. Mas amiga, os homens fazem isso há anos e a sociedade não os culpa. Às vezes saem até como heróis, porque a mulher não transava, porque engordou, porque estava chata e sem surpresas, eles dizem. Então que razão temos para culpar as outras mulheres? - contrapôs Eliana.
- Minha querida - retomou Margarete, sem disfarçar a irritação -, eu não estou dizendo que devemos queimar em uma fogueira as mulheres que são livres e aceitam um relacionamento que parte de uma traição. O que estou dizendo é que não são "santinhas". É o mesmo que achar que mulher não erra, não comete crime, não tem a capacidade de ser filha da puta com outra mulher, com seus homens, com o que quer que seja.
Vera, inquieta com a atenção que estavam chamando entre os frequentadores do bar ao redor da mesa, provocou.
- Tá, eu entendo teu ponto de vista, mas não foi tu que levou o chifre. Pelo menos desta vez, né?
Traída pelo marido anos antes, Margarete voltava ao assunto frequentemente, como se sua dor nunca tivesse sido esquecida e a dor de outras mulheres fosse sua.
- Vai debochando, até o dia que o Plauto enfeitar tua cabeça, fazer teus filhos pararem de comer, perderem ano de escola, gastarem teu dinheiro no divã - ressaltou Margarete, ao esbarrar no copo de cerveja e derramar o líquido no vestido.
Completamente empolgada com o próprio raciocínio, a professora encheu de novo o copo de cerveja, levantou da cadeira e ameaçou chamar um brinde.
A esta altura, Eliana e Vera, trocando olhares, começaram a prever um grande vexame e uma vaia estrondosa se a teoria de Margarete virasse discurso. Podiam ser chamadas de moralistas, anti feministas, mal amadas, recalcadas, velhas amargas.
Ambas acharam por bem ir pagando a conta e tirar a amiga dali.
Eliana foi levando Margarete pelo braço.
- Marga, já passou do ponto esta conversa. Vou chamar um Uber e tu vais dormir comigo lá em casa, tá?
- Não foi só a conversa que passou do ponto. A cerveja também, né Marguinha? Olha ali o Plauto, já estava de prontidão pra me levar pra casa, rico do meu marido - exibiu-se Embarcadas no carro de aplicativo, Eliana pôs o braço sobre o ombro da amiga.
- Quando chegarmos em casa te empresto uma camisola e lavo teu vestido. Com este calor, de manhã já vai estar seco. E te faço um chazinho de camomila, pra te acalmar.
- Chazinho de camomila teu cu - respondeu Margarete, com uma sonora gargalhada.
Nereida foi jornalista por quase 40 anos e decidiu se aposentar em 2025 do cargo de editora de Rural do jornal Correio do Povo. Natural de Porto Alegre e com prêmios jornalísticos no curriculo, decidiu aproveitar o gosto pela leitura e pela escrita para estudar escrita criativa no curso de Formação de Escritores. Seu desejo é aprimorar o texto para escrever de forma que toque o leitor e o faça refletir.