por Nereida Senna Vergara
Violeta acabara de se casar. Há menos de cinco horas, entrara na igreja pelo braço do pai, Eugênio. A menina, com 17 anos recém completados, estava agora sentada no vaso do banheiro, tentando se livrar do vestido de noiva feito de um cetim sem muito caimento, adaptado ao orçamento da família. No balcão da pia, esticada, a camisola cor-de-rosa costurada por sua mãe, dona Mariquinha, parecia olhar para ela.
Nos ouvidos de Violeta retumbavam os conselhos cochichados pelas duas irmãs mais velhas, Celina e Sônia.
- Fique quietinha e faça o que ele te pedir, sem reclamar. É assim que se comportam as esposas - disse Celina.
Sônia foi mais cruel com a irmãzinha:
- Reze para ser rápido e para ele não te machucar.
De camisola, a menina pensou se devia ou não colocar a calcinha de seda nova, enfeitada de renda, presente da cunhada. Ninguém lhe disse se devia deitar sem a calcinha nenhuma, mas isso poderia parecer vulgaridade, coisa de mulher da vida. Resolveu vestir a langerie, macia como nenhuma que usara até aquele dia.
Violeta deixou o banheiro e caminhou pelo corredor até o quarto. Um certo mal-estar lhe acomenteu durante o trajeto. As mãos estavam frias e suadas.
Hilário, o noivo, aguardava nu e excitado. Por uma fração de segundo, a jovem que até hoje só havia beijado na boca, pensou "como eu faço para fugir?"
Enquanto caminhava na direção da cama, sem olhar para o que seu agora marido tinha entre as pernas, lembrou o que havia lhe dito a mãe.
- Faça dar certo minha filha, teu pai não vai te aceitar de volta.
Violeta deitou ao lado de Hilário. O rapaz levantou a camisola e ordenou que tirasse a calcinha de seda que envolvia o quadril até a cintura. Sem beijos ou palavras de carinho, deitou-se sobre o corpo da jovem esposa e a penetrou de uma vez só. Satisfez-se, e caiu para o lado, meio bêbado que estava pelas comemorações.
A menina, com lágrimas nos olhos, levou a mão entre as pernas e viu que havia sangue. Puxou o cobertor e virou o rosto para olhar a luz que entrava pela janela. Chorou, de dor, de raiva, de tristeza.
Hilário era sapateiro. Trabalharia já na manhã seguinte, no primeiro cômodo da pequena casa alugada antes do matrimônio.
Não haveria lua de mel.
Nereida foi jornalista por quase 40 anos e decidiu se aposentar em 2025 do cargo de editora de Rural do jornal Correio do Povo. Natural de Porto Alegre e com prêmios jornalísticos no curriculo, decidiu aproveitar o gosto pela leitura e pela escrita para estudar escrita criativa no curso de Formação de Escritores. Seu desejo é aprimorar o texto para escrever de forma que toque o leitor e o faça refletir.