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Laços

Laços

por Patricia Daltro

Janeiro 2023

A última vez que ri assim, gargalhada leve, de doer a barriga, nem lembro direito. Parecem séculos. Outra vida. O tempo que me transformou nessa outra — irreconhecível no espelho — é uma fagulha que mal completou três anos.

Estranho o som da minha risada. O movimento dos músculos do rosto. Rio, como se aquilo não me pertencesse. Vislumbro a dor, companheira dos últimos anos, espiando. Ela espera que eu a pegue pela mão novamente. Não quero. Gosto do som que emito, acompanhando a gargalhada desse outro que entrou na minha vida.

Do beijo que vem em seguida. Do toque dele em minha pele. Da promessa de uma noite de desejos sem culpas, de roupas tiradas apressadamente, de corpos nus entrelaçados. Gosto da vida que ele resgatou de mim, tão perdida em camadas de perdas e dores infindáveis. Desse sal nos lábios, desse suor que une. Do som da camisinha sendo aberta. Do olhar doce que me dá.

Tenho fome e me alimento com pernas, braços, movimentos, enlaces. Despertencimento que me faz flutuar no embalo da cintura dele. Esse homem. Outro homem. Não deixo que eles se fundam. Esse é Edu, o outro é Rafa. Um está aqui, dentro de mim. Coração acelerado junto ao meu. O outro rasga-me o ventre quando lembro.

Cravo as unhas nas costas, mordo de leve o ombro desse que me trouxe de volta. Empurro o outro para o mesmo armário, de onde me espreita a dor. Quero estar ali e não no antes. Inteira recebo. Estremeço quando chegamos ao final, juntos. Olhares embaçados, arfantes. Ele demora a sair de mim; depois, entrelaçados, desenha meu corpo em seus dedos.

Adormecida, eles voltam. A dor que em mim vivia, e Rafael. O outro que não esse, que ressona ao meu lado. Resgatam memórias soterradas dos dias que vieram após o fim do mundo.

 

Janeiro 2020

Nos casamos no mês seguinte à primeira matéria no noticiário. Era do outro lado do mundo. Não havia espaço para o medo, tínhamos presentes para desempacotar e uma viagem marcada. Naquele tempo, a gente não sabia que o fim do mundo não era só coisa de filme. Riamos muito. Planejávamos a eternidade.

A realidade nos alcançou logo que regressamos. Pegamos ou trouxemos a doença maldita. A quarentena. O tossir constante, até a partida dele em uma ambulância, numa noite cujo silêncio e escuridão foram interrompidos pelo vermelho do giroflex e da sirene. Tão aguda. Como meus gritos. Que ecoavam, mas não saiam. Fiquei só. Aguardando. Aguardando. Aguardando. Uma volta que nunca houve.

Um telefonema explicou os procedimentos e a necessidade de um funeral sem presentes. Não houve despedida. Ficou a sensação de incompletude. Como se nunca tivesse ido de verdade.

Havia o silêncio. A solidão devastadora. Os telefonemas foram ficando esparsos à medida que a pandemia virava assombro. Quando enfim o vírus saiu de mim, percebi o vazio em que estava imersa. A dor virou companhia. Rasgava. Dilacerava. O mundo, aquietado no espanto, no medo e nas ruas vazias, refletia meu próprio deserto.

De aguda, virou oceano. Ondas de dor que iam e vinham. A ausência se amplificava nos móveis e objetos que permaneceram no mesmo lugar.

 

Janeiro 2023

Acordo. Sufoco lágrimas em um sorriso para o outro que também acorda.

— Teve um pesadelo?

— Preciso trabalhar. – Visto-me sem deixar que veja meu rosto. Saio antes de me desaguar. Leio as mensagens no aplicativo. Subo na bicicleta. Tenho sete encomendas para o dia de hoje.

Poderia ter começado entregando a caixa de Francisco. Era só bater no apartamento do térreo. Decido que a farei por último; sigo para Botafogo. Pedalo forçando as pernas, focando no trânsito caótico daquela manhã.

Do tempo do fim do mundo gostava das ruas desertas. Do silêncio poucas vezes quebrado. De olhar para o alto dos prédios e imaginar a vida que se desenhava por dentro das paredes. Às vezes, via pessoas cantando e reduzia a velocidade para ouvir um pouco mais. Havia cores nas plantas colocadas nas sacadas e nas roupas estendidas em varais improvisados.

Recebo uma gorjeta de Amélia ao entregar sua pequena caixa, no Flamengo. De Guta, no Catete, um abraço; de Tiago, um pedaço de pão que ele e Mendes acabaram de fazer, no apartamento da Cândido Mendes, na Glória. E aos poucos, o cesto da bicicleta vai esvaziando e meu peito se aquietando no afeto desses pequenos gestos.

Laços. É o nome da empresa na qual trabalho. Comecei nela no final de 2020, criação de Heitor, pai do Rafa.

[Naufragava tanto em dor e desalento que me dessensibilizei da dor dos outros, que como eu, também o amavam. Heitor e Julia perderam seu único filho.

Depois de meses sem que eu respondesse a nenhuma mensagem ou telefonema, recebi uma encomenda. Uma caixinha verde-água, com um desenho estilizado de um laço. Dentro, escrito com a letra de Heitor: "Preciso que você venha trabalhar comigo."

O mundo todo estava um caos. As pessoas ilhadas em casa. Tinha perdido meu marido, emprego, apartamento, e voltara para casa da minha mãe. Quando recebi a caixa, estava enlouquecendo.

Heitor explicou que o objetivo da empresa era retomar os laços interrompidos por conta da pandemia.

A torta da sua avó que você adora. Nós entregamos. O sapatinho de tricô que sua irmã fez para o seu bebê recém-nascido, nós entregamos. Entregamos aquele livro que não se acha mais e sua amiga empresta. Tudo perfeitamente embalado e higienizado. Usamos máscaras e álcool gel desde o recebimento até a entrega.

Embarquei com tudo.]

 

Entrego a última encomenda, a que deveria ter sido a primeira. Francisco pegou a caixa da minha mão. Eu tinha ajudado Eduardo a embrulhar. Um carrinho azul. Os olhos de Francisco eram olhos de saudades. Do menino que brincava de estradas e construções em uma cidade feita de papel e lápis de cor. Isto seu Francisco me disse de olhos molhados.

Deu vontade de dar para ele uma cidade igual a que lembrava. Pedi cores para Rosa e desenhei prédios de paredes tortas na caixa. Ele sorriu menino, deslizando o carro azul pelo papelão. 

Na saída, a janela fechada do apartamento de Edu sinalizava ausência. Deslizei bicicleta abaixo com a vontade de ontem dentro do peito. Fui até a orla. Aprisionei o mar nas retinas. Os fantasmas estavam quietos e achei que aquele era um bom dia. 

Entrei silêncio pela porta dos fundos. Minha mãe assistia tv na sala. Fui também em silêncio para o quarto. Não queria palavras. No escuro, fui buscando o gosto do beijo, o cheiro do toque, a vontade de ser feliz de novo.

 

Maio 2020

Heitor dizia que o fim do mundo não era um só. Que todo dia o mundo acabava um pouquinho para alguém. O nosso, quando Rafael morreu de Covid.

Dizia também que para os que ficavam, o fim do mundo nunca era um fim de verdade. Que em uma única vida cabiam infinitos fins do mundo.

Mesmo sem querer, eu cultivava afetos em cada encomenda entregue. O pão da Anita, filha da Assunção, que distante da mãe sovava, deixava a massa crescer e assava aquele pão-amor. Depois dizia: — Corre, corre, corre! Que é para chegar quente.

Todas as quartas-feiras, Assunção abria a embalagem e o cheiro das mãos da filha na massa a fazia sorrir.

Cortava um pedaço: — Toma, Duda. Dava embrulhado num pano alvíssimo. Eu devolvia na quarta seguinte. Recebia outro, tão alvo quanto, com aquele pedaço de amor quentinho, a fumaça subindo.

O Carlos mandava flores, mudas, plantas que cuidava solitário na quitinete em Copacabana. Abria a porta e vinha aquele cheiro verde, o mato penetrando retinas e olfatos. Ajudava-o a embrulhar florestas para levar para Fátima, a irmã da Tijuca.

Vicência tricotava toucas e cachecóis. Aquecia os filhos, os netos, os amigos, antigos amores, pessoas em situação de rua, naquele afeto de lã.

 

Abril 2021

Entendi o fim do mundo de Heitor nas lágrimas de Maria Inês, quando perdeu o marido e os dois filhos. Num soco só. Amiga de infância. Dilacerada, balbuciava a pergunta que nunca teria respostas: — Se o mundo todo estava se vacinando, por que não aqui?

Por aqui, o fim do mundo acontecia para milhares de pessoas, todos os dias.

Na orla, colocamos juntas a cruz de Rafael e do marido e filhos de minha amiga.

Naqueles dias, assistia o mundo se desfazendo em assombros. Uma dor latejada que pulsava no ritmo das minhas pedaladas. Subia ladeiras, descia viadutos, percorria túneis e uma orla cuja beleza era quase opressiva, já que achava tudo em volta feio e cinza.

Seguia em frente, não por vaidade de pensar que fazia diferença para aquelas pessoas; eram elas que ainda me faziam acreditar que, talvez, aquele era só um fim do mundo, não o definitivo.

 

Fevereiro 2021

A música me pegou antes que subisse na bicicleta. Procurei de onde vinha e encontrei o sorriso de Eduardo. Não para mim. Enlevado na melodia que tocava, o sorriso era parte do som. Deixei também me abraçar pela música que dedilhava no violão. Quando o silêncio soprou nos meus ouvidos, esbarramos nossos olhares. Disse um oi tímido e agradeci a música. Subi na bicicleta e parti.

José mandou mel para a filha Larissa quando ela teve Covid. Ele, porteiro, combinou com a esposa, costureira, que ficaria no trabalho durante a semana, para não levar o vírus para casa. A voz era banhada de saudades.

Joana mandava de volta as máscaras que costurava. Dizia: — Essas aqui vão em separado, para ele vender e fazer um dinheirinho. Essas outras, ele pode usar. Esta é para você, Duda.

Renata e Lorena, do Bairro de Fátima, faziam cadernos artesanais, bonitos, com recortes, fotos, flores secas se mesclando. Mandavam para as quatro sobrinhas, uma vez por mês.

Renata me disse, emocionada, que a mais velha estava escrevendo um livro neles.

 

Dezembro 2021

Entreguei uma pipa colorida para Francisco. Ele disse: vem. O vento tocava o rosto e os cabelos. Afastava e aproximava, seguindo as ordens. E lá se foi, cores navegando o azul profundo. Francisco virou menino.

Eduardo chegou e ficaram eles conduzindo a dança no céu. Já estava pronta para partir, quando Edu gritou, do outro lado da rua, se queria sair com ele. Gritei de volta que sim.

 

Março 2022

O fim do mundo só foi fim do mundo, para os que se foram e para os que ficaram com suas perdas. De resto, o mundo apenas seguiu em frente. A vacina afastou o medo. O assombro em mim se aquietou nas ruas que enchiam, nas rotinas conhecidas que voltavam.

Os laços que Heitor criara não se desfizeram depois das vacinas, da nova normalidade que se instituiu. Era como se dentro de todos nascesse uma sensação de urgência. A vontade de fazer tudo o que ficou em suspenso nos anos anteriores. Da urgência, veio a falta. Tanta coisa e tão pouco tempo, que a ausência, antes obrigatória, virou natural. Era preenchida com pequenas manifestações de afeto.

Entreguei os sapatinhos dos gêmeos de Julia. As compotas de figo feitas por Alcides, a bolsa bordada por Clara, os postais pintados por Henrique.

Caminhava com Edu com passos principiantes. Beira da praia, os pés na areia cuja água ia e vinha. O vento enovelando a gente. O burburinho de vozes que retomavam. Éramos conduzidos numa dança que nós, instintivamente, coreografávamos.

Falei de Rafael, na murada da Urca, enquanto o sol brotava suor na pele e barcos navegavam promessas num mar azul. Ele falou de Francisco e do diagnóstico que não só anunciava uma partida precoce, mas que esta viria todo dia.

A ausência em Francisco era presente e presença. A memória, um quadro montado de peças tantas, se descolava uma a uma. Edu recebera a notícia ainda na Europa, ficara preso por causa da pandemia. No desespero de não se tornar uma peça desfeita na mente do pai, elaborara a estratégia de recolher de familiares pedaços da história de Francisco e entregá-las via Laços.

Quando finalmente retornou, continuou na incessante tarefa de alimentar os registros do pai. Ouvi-lo falando, foi como se o amor pudesse ter forma, e me deixei ir naquele caminho, que a gente construía toda vez que se via, ou conversava.

 

Fevereiro 2023

Minha mãe decidiu ir para São Paulo. Minha irmã morava lá, acabara de ter uma bebê e estava bem.

Para me convencer, desenhava as palavras, como se desembalasse promessas de felicidade. Eu a ouvia, redemoinhando por dentro: — Tinha emprego para mim, uma casa grande. Vou voltar a trabalhar também. E aqui, tem essas lembranças de Rafael. Você tem faculdade, tem que voltar a trabalhar na sua área e não como entregadora.

Estonteava com a miríade proferida. Barco à deriva. Ondas altas que batiam no convés.

— Mulher ao mar! — Gritaria se ainda tivesse voz.

Dentro de mim, ecoava o não dito: A realidade financeira de que meu salário na Laços não seguraria as contas.

Falei para Edu sobre a partida. O silêncio era pluma deslizando entre nós. Corpos enrodilhados. O futuro ocultado através de véus. A brisa entreabria, mas era só o diáfano leitoso.

— É o que você quer?

Deslizei dos lençóis, parei em frente à janela. Olhando o mundo gris que se desfazia água naquele fevereiro quente e úmido. Desenhei caminhos no vidro, acompanhando as gotas.

Começar de novo, resetar passados, seria possível? Construir história que não carregasse meus fantasmas. Pensei nas lembranças recriadas de Francisco. Poderia fazer o mesmo com as minhas?

— Não sei o que dizer. Acho que a gente dá certo. Mas é uma decisão que tem que ser sua, por mais que eu não queira que você vá.

Pedalei Botafogo, Flamengo, Catete, a vida querendo ser decidida nos meus pés incansáveis, Glória, Centro, e desabei o corpo exausto na murada próxima ao Museu do Amanhã.

Fui preservando dentro de mim tudo aquilo que viraria ausência. Gritei, assustando turistas. Meu sentir era tempestade: raios, trovões, gotas pesadas que desaguavam. Fúria pela morte de Rafael, pelas minhas desconstruções, meu lento refazer. Pelo adeus que dava àquela cidade, que era minha respiração.

No quarto, embalando o passado e o presente, fragmentos, a frase de Francisco tumultuando o cérebro: — Não estou refazendo minha história, Duda. Estou me apossando novamente dela.

Aquilo batucava, preenchia minha mente numa circular de dúvidas, incertezas, porquês e anuências. Olhei meu fantasma: Rafael. O meu Rafael de gargalhadas largas, de olhos cintilantes. O amor que iniciou na infância.

Olhei o vestido de casamento, guardado desde a cerimônia, na caixa. Tão irônico pensar que o casamento acabou antes das prestações do vestido. 

No armário, a caixa com o bilhete de Heitor que me sossegou o peito, quando achei que iria sucumbir. 

Senti vertigens. Eram certezas. 

Fui ao encontro de minha mãe:

— Não vou, mãe! Vou ficar aqui. Não quero esquecer minhas histórias. Nem quero me livrar da dor que existe em mim. Faz parte de quem sou. Não quero fugir do que me aconteceu, nem do que quero que aconteça. Essa é minha casa, minha cidade, quem eu sou. Ainda acredito em tudo que posso viver e ser aqui. 

Quando me calei, o peito tamborilava agitado; ela, emudecida perante minha atitude, não trazia nem tristeza ou desapontamento nos olhos. Pegou minhas mãos, beijou-me os dedos.

— Pode ficar, filha. – A voz trazia lágrimas reprimidas — Não vou poder ajudar no início, mas tenho certeza de que você vai dar um jeito. 

Havia descompasso e medo. Saltava no trapézio sem rede de proteção. Mas, nos olhos da minha mãe, havia um acreditar que eu conseguiria. Quis acreditar também.  

Pedalei vontades, seguindo em direção ao tudo ou nada.

Esperei Heitor na entrada do prédio. 

— Vai ficar? – Era sorriso.

— Vou. Mas não quero ser entregadora. Proponho sociedade na Laços. Não tenho dinheiro, mas sei captar recursos. Sou formada nisso. Tudo bem, desse jeito? 

— Com certeza, Duda! – A voz iluminada de alegria e esperanças. – Acredito em você, nessa cidade e principalmente, nos laços que fazemos todos os dias.

Nosso abraço não cabia dentro dos nossos braços. Afeto maior que nossa perda. 

 

Fevereiro 2023

Edu toca a mesma música que um dia me arrepiou a nuca e trouxe encantamento. Espero que pare e nossos olhos se encontrem. 

— Que bom que ficou! – Sou acolhida em beijo, braços e sorrisos.

Naquele espaço, penso que o fim do mundo acontece todos os dias, o início dele também. A vida se desfaz e refaz, rítmica como uma dança. Respiro fundo, fecho os olhos, sinto a melodia que envolve a todos nós, os sobreviventes, convido-os para dançar. Reinícios.

Patricia Daltro

Patricia Daltro é escritora carioca, formada em Licenciatura em Letras - Português e respectivas literaturas. Escreve desde a infância e participou da Oficina Literária com o poeta Cairo de Assis Trindade, experiência que resultou na inclusão de seus contos na coletânea HOJE - Poesia, Crônica e Conto. Autora de microcontos, ficção especulativa e narrativas curtas de forte carga emocional, transita entre distopia, afeto e cotidiano, misturando humor, sensibilidade e crítica social. Foi uma das vencedoras do Prêmio Rio de Contos, em sua 4ª edição, com o conto "Muiraquitã". Entre suas obras estão o infantil DinoAmigos - Resgate em Cretácea, os livros de contos A Vida Sem Manual e A Versão da Madrasta, o romance jovem O Amor é um Terno Azul Turquesa, o juvenil O Ano em que Deixei de Ser Invisível e a distopia Depois do Terremoto - Akuanduba.

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