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Antes da colheita

Antes da colheita

por Rachel Bueno

Antes da colheita

Ana Rita era seu nome, mas todos a chamavam de Aninha. Eu, particularmente, abominava esse chamamento. Para mim, soava como algo que a diminuía, mas não para ela, que insistia que combinava com seus 1,50m de altura, com seu pouco tamanho de gente. E foi esse pouco tamanho de gente, como ela se nomeou, que contou uma das histórias mais significativas que já ouvi.

Numa dessas conversas, em intervalo para o café, Aninha relatou que, na infância, morou na roça e a escola era algo muito distante da maioria, tanto fisicamente, como no desejo. Era uma escola pequena, com apenas uma sala, mas que nela guardava um universo para aquelas crianças.

Embora tudo contribuísse para aumentar essa distância, ela ainda pequena conseguiu ser matriculada junto com um irmão, um pouco mais velho. Após longa caminhada sob sol ou chuva, foi adentrando ao universo mágico do saber que, para ela e para a maior parte dos seus colegas, era realmente uma grande aventura, até mesmo um luxo.

A maioria que iniciava a vida escolar não conseguia terminar, pois com a chegada do período da colheita, eram mandados para trabalho e ali deixavam os sonhos e os desejos. Não adiantava choro nem lamentações, os filhos do campo nasciam para o campo.

Sempre temendo a chegada das colheitas e a sentença de morte dos sonhos, via seus colegas, um a um, desaparecendo da escola. Primeiro, os mais velhos e, pouco a pouco, todos tinham o mesmo destino. Mas alguns conseguiam escapar, os que eram mais fracos, os mais doentes e os menores. E foi dessa forma que Aninha foi ficando. Ela foi sendo poupada pelo seu pouco tamanho.

Das lembranças da escola que ela trazia, havia uma que era a mais dolorosa e também a mais doce, talvez a que daria um verdadeiro sentido à sua vida e de seus colegas.

         As crianças eram muito pobres e o horário da merenda era para brincadeiras. Lanche era algo para poucos que, quando levavam, era um pedaço de pão envolvido num pequeno pano, que as mães cuidadosamente preparavam como sendo uma iguaria. E mesmo assim, eram felizes...

Para eles, estarem juntos na escola já era um privilégio. Comer? Comiam em casa. Aguentavam até chegar lá.

Viviam um dia após o outro, apreensivos com a chegada da colheita. Foi quando descobriram que a professora também lanchava, mas não era um lanche qualquer, era um verdadeiro banquete dos deuses, que passou a ser o objeto de desejo de todos que a observavam. Ela trazia diariamente uma maçã, fruto pouco visto por aquelas bandas, coisa cara, só encontrada na cidade.

Que gosto teria aquela fruta vermelha, tão vistosa, tão sedutora, tão desejada? Talvez seu sabor não fosse tão intenso como era o desejo que despertava.

A professora, sensível e atenta, como são todos aqueles que fazem desse ofício a sua razão de viver, surpreendeu-se com o fato de uma simples fruta tornar-se tão importante para aqueles pequenos seres. Compreendeu ali que mais do que preparar para a vida, é a escola a própria vida.

Diariamente, passou a dividir sua maçã com as crianças. Cada dia da semana, ela a compartilhava com uma fileira, para que todos pudessem experimentar um pedacinho daquele fruto tão desejado. Da mesma forma, os poucos pães secos que vinham de casa embrulhados no pano passaram a ser partilhados e todos tinham um pedacinho de lanche todos os dias.

Passava o ano e as crianças esperavam ansiosamente o dia da sua fileira ser contemplada com o pedaço de maçã da professora. Ninguém faltava, até o dia da chegada da colheita.

 

(Conto do livro "Por detrás da porta", de Rachel Bueno)

 

Rachel Bueno
Rachel Bueno
Campinas/SP

Rachel Bueno

Rachel Bueno é professora aposentada, formada em Letras e Pedagogia, é mestre em História da Educação pela Unicamp.

Seu título de mestre foi obtido através da defesa de dissertação sobre o escritor Euclides da Cunha. Participa há mais de 45 anos da Semana Euclidiana em São José do Rio Pardo como palestrante, semana que é dedicada a vida e obra do escritor Euclides da Cunha.

Entre crônicas e contos, publicou Aconteceu em agosto: casos e causos das Semanas Euclidianas e Por detrás da porta. No prelo, seu terceiro livro: uma autoficção destinada a mulheres com mais de 50 anos.

Também ministra oficinas de leitura e escrita para educadores e público em geral, além de trabalhar com leitura crítica e revisão de obras literárias.

A escritora tem participação assídua em Feiras Literárias e Bienais.