"Você pode escolher o que quiser, desde que seja roupa". Felizmente eu estava preparado. Um tênis esportivo, pedi. Ainda era século 20, e no Brasil as marcas famosas eram Rainha, Nike e M2000.
Sabia que teria que segurar a ansiedade até minha mãe voltar de viagem. Voltaria do Paraguai no domingo, no dia do meu aniversário. Conseguiria estrear o pisante no mesmo dia. Já conseguia ver o rosto de admiração da Sabrina.
A madrugada de domingo chegou e com ela meu presente. Branco, verde e azul. Cheirando borracha nova. Da marca M3000. "É ainda melhor que o M2000" garantiu minha mãe. Era lindo e moderno! Me senti no De Volta para o Futuro.
Esperei dar 9h e interfonei para o meu bróder de zoeira para irmos ao pátio brincar. Brincadeira de adolescente, que fique claro: escalar muro, guerra de coquinho, concurso de piada. À certa altura da manhã apareceu minha musa. Agora era a hora de impressionar.
"Tênis novo?". Pois é. "M3000?". 1000x melhor que o 2000, afirmei. Para provar sua qualidade superior, disse que subiria no muro pela torneira sem borboleta. Algo que poucos faziam. Era pontuda e bamba. Mas eu estava seguro.
Em dois movimentos subi na rosca, me apoiei e estava no muro. Na hora senti uma cosquinha no meio do pé. Me ergui como um campeão no muro e gritei "Yes". A cosquinha aumentou. Andando por cima do muro percebi a meia molhada. Estranho.
Pulei do muro ao chão para avaliar o ocorrido. Tirei o tênis e a meia estava encharcada, parecia ter sido mergulhada em um molho de tomate. Sabrina olhou, deu risada e foi embora. Meu momento Van Damme tinha acabado. Voltei mancando para casa com meu M3000 furado na mão. Ao chegar, percebi que as etiquetas com o número 3000 tinham caído. Bela M esse tênis mesmo!
Engenheiro, servidor público e curitibano radicado em Brasília. Nada disso me define. O olhar aguçado e irônico? Pode ser. Acredito no poder da literatura para mudar a realidade. E no da Ficção Científica para imaginar futuros possíveis não distópicos. Participo do Curso Online de Formação de Escritores.