Ou em descompasso com ele — dependendo da década. Antigamente, cabelos escorridos eram sem graça; cabelos ruivos — quem diria? — eram esquisitos. Depois, a chapinha chegou prometendo o liso perfeito; e as madeixas cor de ferrugem se tornaram exóticas e até cobiçadas. E como o tempo não perde tempo, tudo mudou de novo: os caracóis voltaram à moda e o cabelo ruivo conquistou de vez seu lugar ao sol. E tudo bem.
Quem me dera a mudança parasse por aí. Mas não: houve uma época em que corpo magrelo era o legítimo atestado de falta de graça — no sentido mais sensual que a palavra "graça" pode admitir. Todos se curvavam às curvas femininas. Pobres das retilíneas.
Naquele tempo, a garota que passava era mais cheia de graça.
Não, Vinícius de Moraes, eu não te perdoo.
Basta lembrar que, naquela mesma época, Marilyn Monroe era símbolo de beleza. Hoje, talvez lhe recomendassem uma dieta.
Agora parece que todos os rostos precisam da mesma boca: carnuda, preenchida e projetada. Quanto maior, melhor. Se possível, visível lá do espaço. Nem vou entrar no mérito dos cílios e das sobrancelhas.
Também perdi esse bonde. Na verdade, nem estive no ponto.
Não é fácil encontrar o nosso lugar no tempo. Ele muda de opinião de tempos em tempos. Quando a gente finalmente acha que encontrou o tal lugar, a tendência já mudou.
E está tudo bem.
Quer dizer? Talvez o espelho esteja indeciso.
Raquel Pivetta é Analista de Sistemas e Revisora de Textos. Apaixonada pela língua portuguesa, fundou o site Viva Gramática, onde compartilha crônicas que exploram, com sensibilidade literária, as nuances do cotidiano.