por Renata Bäuerle
Aquele menino era sinônimo de felicidade. Todo mundo que o conheceu diz a mesma coisa: ele sempre fazia tudo ficar mais leve e divertido. Não é que ele fosse daqueles tipos que está sempre fazendo palhaçada, mas ver todos à sua volta felizes era tão importante que ele sempre se esforçava para que isso acontecesse.
Ele mesmo sempre dava um jeito de não se afastar muito desse estado. Às vezes ficava de mau humor, mas logo inventava algo para distrair a cabeça e voltar a atenção para alguma coisa boa. É como se, logo nos primeiros momentos de consciência nesta existência, ele tivesse decidido viver cercado de alegria.
Levar esse sentimento era prioridade. Podia ser com uma lasanha para o amigo que estava triste, ou convencendo a amiga a dançar com ele antes de ir embora da festa porque não queria que ela saísse chateada. Tocava violão no recreio da escola, inventando músicas para arrancar risadas, e convidava os amigos pros aniversários de família, que acabavam virando festas imensas.
Mesmo nos dias mais sombrios, o amor que ele espalhou por aí refletia em cada pessoa que o conheceu e nos iluminava. Agora, isso é tudo que podemos fazer por ele: levar conosco essa vontade de felicidade.
Uma semana depois, mesmo todos despedaçados, decidimos, assim como ele fazia, que queríamos a alegria. Sozinhos, não tínhamos força para isso. Então nos reunimos, como ele gostava, entre família e amigos, com muita música, de muitos gêneros.
Tinha gente de todo tipo ali. Gente próxima e gente que só ia passando. Gente talentosa e gente meio desafinada. Gente mais nova e mais vivida. Teve quem se arrumou como para uma formatura e quem chegou de bicicleta ou de chinelo de dedos.
O pai dele tocou com músico famoso e os amigos cantaram as músicas de que ele mais gostava. Em meio a choro e risos, todos se emocionaram quando seu irmão pegou o violão e começou a tocar uma das músicas que costumavam cantar juntos. Era impossível não acompanhar aquele "hey Jude".
A orla de Porto Alegre nunca tinha visto uma festa como aquela. A mistura de amor e saudade com a vibração das vozes que cantavam juntas envolvia todos em uma energia que, para quem o conheceu, só podia vir dele. Por alguns minutos, foi como se ele ainda estivesse ali, presente em cada voz.

Quando a realidade não é como a gente gostaria, além de ajudar a elaborar os sentimentos, escrever permite consertar as imperfeições, atingir o que não se conseguiu e viver o que não nos foi permitido.
Renata Burmeister Bäuerle é analista de sistemas há mais de 20 anos e atua na empresa pública de tecnologia de Porto Alegre, a Procempa. É mestre em Informática na Educação pelo IFRS e formada em Sistemas de Informação pela UniRitter. Em sua trajetória profissional, dedica-se à liderança de equipes de desenvolvimento de projetos que impactam o cotidiano das pessoas.
Na escrita encontra uma forma de elaborar e compartilhar experiências. Escreve sobre temas que a atravessam — especialmente aqueles ligados às realidades que vive e presencia.
Participa do Curso Online de Formação de Escritores.