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A hora do almoço

A hora do almoço

A mesa comprida de madeira, há décadas no mesmo lugar da sala, denuncia que a família é grande. Parece querer mostrar que ali acontecem as reuniões, as conversas que precisam fluir. É um convite ao encontro, ao abraço coletivo. Nela, tem-se a impressão de se servir afeto, além das refeições. Pela quantidade e posicionamento das cadeiras, enxerga-se um patriarca, uma matriarca, filhos, netos, genros e noras ali reunidos. A toalha de mesa? Limpíssima e linda. O vermelho parece ser proposital; ajuda a abrir o apetite, acredita-se. A  empregada é zelosa, capricha nos detalhes à procura de um reconhecimento que nem sempre vem. Água e suco são servidos em belas jarras. Talheres e guardanapos, tudo impecável. O cheiro do lombo no forno provoca a vizinhança. É sempre assim aos domingos.

Chega a hora do almoço e parece que há pratos demais. Tão belos! Umas cadeiras sobram e alguém pergunta pelos ausentes. Fica sem resposta. Esboçam, todos, um sorriso sem graça. Os presentes falam pouco, escancarando a falta de assunto. Come-se olhando para o celular. Digita-se muito. Algo mais urgente parece existir. Falta fome.

Para a próxima semana o ritual está mantido. O lugar da família é em volta da mesa, reza a sagrada tradição.    

Ricardo Cunha Bastos

Ricardo Cunha Bastos, 62 anos, natural de Belo Horizonte-MG, onde reside. A vida profissional teve início em 1980, na Caixa Econômica do Estado de Minas Gerais, onde atuou por nove anos. Em 1989 ingressou na Caixa Econômica Federal e exerceu várias funções técnicas até 2024, quando se aposentou. Cursou Comércio Exterior de 1981 a 1984. O interesse pela escrita é antigo, mas foi após a aposentadoria que resolveu aprender técnicas para ler e escrever melhor. Participa do Curso Online de Formação de Escritores.