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A gentileza de não aparecer

A gentileza de não aparecer

A gentileza de não aparecer

Existe uma frase que aprendemos a dizer sem pensar, e é exatamente por isso que ela funciona tão bem: Qualquer coisa, me chama. Quatro palavras que soam como generosidade, como a prova de que nos importamos, mas quase sempre esperamos que a outra pessoa nunca as leve a sério.

Não se trata de hipocrisia, e sim de um acordo tácito, silencioso, que ambos os lados firmam sem negociação. O contrato se cumpre no momento em que é dito, e não há cláusula que obrigue ninguém a nada além disso.

A linguagem do cuidado é, muitas vezes, uma linguagem de proteção mútua. Cada fórmula carrega seu grau de risco calculado, e quanto mais vaga a promessa, mais segura ela é. A gente se vê não pode ser cobrada porque não prometeu nada de concreto. É o não-compromisso elevado à dignidade do afeto.

Mas talvez exista uma discreta injustiça nessa leitura. Nem toda oferta de ajuda nasce da intenção de não ajudar. Há quem diga qualquer coisa, me chama e queira dizer exatamente isso, atendendo quando chamado, sem hesitação. Para essas pessoas, a frase não é fórmula, é compromisso real vestido de linguagem cotidiana. A linguagem não distingue quem oferece disponibilidade de quem oferece apenas conforto.

O que essa linguagem revela, então, não é necessariamente frieza. Revela o peso do cuidado real. Porque cuidar exige presença, exige tempo, e exige que nos tornemos o lugar onde o outro deposita o que não consegue carregar sozinho. E isso pode ser muito. Às vezes é mais do que temos. E é talvez por isso que tantas vezes dizemos mesmo assim, não porque estamos fingindo, mas porque o silêncio pareceria abandono, e a palavra, mesmo vaga, ainda parece melhor do que nada.

Desenvolvemos substitutos que funcionam como sinalizadores: eu me lembro de você, eu não desapareci, você não está tão sozinho quanto parece estar. São gestos verdadeiros dentro de uma cultura que os esvaziou de consequência. O problema não está no gesto. Está no fato de que, com o tempo, passamos a confundi-lo com o próprio cuidado.

A virada que esse engano produz é discreta demais para ser percebida no momento em que acontece. Ela só aparece quando alguém, por distração ou por desespero, leva a frase ao pé da letra e realmente chama. Quando isso ocorre, o incômodo que sentimos não é com a pessoa. É com a distância entre o que dissemos e o que somos capazes de dar. Com a descoberta de que não queríamos ser chamados; queríamos apenas ter oferecido. Né? Qualquer coisa, comenta.

Rosane Rubinstein Pagliuca

Rosane Rubinstein G Pagliuca é formada em Administração e Direito, com especialização em Direito Penal e Processual Penal. Observadora das contradições humanas, escreve sobre relações que nascem sob tensão, afetos que exigem coragem e escolhas que transformam destinos. Em suas histórias, interessa-lha menos o óbvio e mais aquilo que se revela nas zonas de silêncio.