Às doze em ponto, ninguém mais olhava para as pessoas.
Os olhos deslizavam pelas travessas com uma atenção que raramente dedicavam uns aos outros.
Foi então que a batata, de olhos e sorriso moldados na própria massa, sorriu.
— Eles ainda acreditam que um sorriso basta.
O fígado acompanhava a fila que começava a se formar.
— Os olhos costumam decidir antes da fome.
O suco de caixinha exibiu discretamente a frente da embalagem.
— Não vejo problema. Fui feito para convencer depressa.
— E consegue? — perguntou o ovo.
— Todos os dias.
O ovo permaneceu em silêncio por um instante.
— Ainda não descobri por que complicam tanto o almoço.
O Impaciente passou primeiro. Serviu-se da batata sem diminuir o passo.
A Distraída escolheu o suco pelos desenhos coloridos e pelo "rico em vitamina C" estampado na embalagem. Antes mesmo de encaixar o canudo, já voltara ao telefone.
O Metódico diminuiu o passo diante do fígado. Parou por um instante. Depois seguiu.
A batata continuava sorrindo enquanto via a fila avançar com uma serenidade que nem ela compreendia.
— Às vezes invejo você.
O fígado voltou-se para ela.
— Inveja?
— Quando alguém o escolhe, é por você.
O fígado demorou alguns segundos para responder.
— A gente se acostuma.
A fila avançava como uma maré breve. A travessa da batata esvaziava depressa. O suco desaparecia no mesmo ritmo. O fígado permanecia quase intocado. O ovo perdia um ou outro companheiro, sem alarde.
Quando o refeitório esvaziou, a cozinheira cobriu as travessas uma a uma.
Antes de apagar as luzes, levantou novamente a tampa do fígado. Colocou dois pedaços na marmita.
Fechou a tampa.
A batata continuava sorrindo.
Rosane Rubinstein G Pagliuca é formada em Administração e Direito, com especialização em Direito Penal e Processual Penal. Observadora das contradições humanas, escreve sobre relações que nascem sob tensão, afetos que exigem coragem e escolhas que transformam destinos. Em suas histórias, interessa-lha menos o óbvio e mais aquilo que se revela nas zonas de silêncio.