por Rosane Rubinstein Pagliuca
Entrei na padaria e o reconheci de costas, antes que se virasse. Era o jeito de ficar no balcão, o peso apoiado numa perna só, o celular na mão. Seis anos.
Dei meia-volta.
— Raquel?
Droga! Quando me virei, ele já vinha na minha direção, sorrindo, os braços se abrindo para um abraço. Estendi a mão antes que chegasse perto o bastante. Ele hesitou, olhou para a minha mão como se ela fosse um obstáculo, e apertou.
— Senta comigo cinco minutinhos. Pedi um milk-shake.
— Tenho pouco tempo.
— Cinco minutos.
Puxou a cadeira. Sentei-me na ponta, sem tirar o casaco e com a bolsa ainda no ombro. O garçom trouxe o milk-shake, e Leandro olhou para a vitrine.
— Você ainda gosta de brigadeiro?
— Gosto. Mas não precisa pedir.
Ele continuou olhando a vitrine. Quando o garçom se aproximou, pedi apenas um café, e Leandro pediu o brigadeiro.
Ele quis saber onde eu estava trabalhando. Contei da Almeida, onde havia assumido uma equipe e recebido uma promoção. Ele sorriu de um jeito que eu conhecia bem.
— Eu sabia que você ia crescer. Quando chegou à Martins, não conhecia ninguém. Eu te avisei das reuniões importantes, te apresentei ao Brandão, falei bem do seu trabalho. Ele teria levado meses para perceber você.
Respirei fundo.
— Aham.
— Nunca entendi por que você se afastou daquele jeito depois do jantar com a diretoria.
— Eu não me afastei. Pedi para trabalhar em outra equipe. Era melhor para mim.
— Depois de tudo que eu fiz por você. Como se aquilo que existia entre nós não significasse nada.
— Você me ofereceu ajuda no trabalho. Foi isso que eu entendi.
Lembrei da calçada depois do jantar: a mão dele fechando no meu braço, o carro parado na frente do restaurante, com a porta aberta esperando. O vinho no hálito.
Ele mexeu no copo, não bebeu. Respirou fundo.
— O Brandão ficou difícil naquela época — ele continuou. — Eu avisei que sair da minha equipe não ia ser bom para você.
Olhei para ele.
— Engraçado. Até aquele jantar ele parecia bastante satisfeito comigo.
A mão dele apertava o copo. O milk-shake suava no vidro.
— Sempre tentei te aconselhar e agir para te ajudar.
— Eu lembro dos seus conselhos.
— Então por que...
— Por que o quê?
Ele baixou os olhos.
— Nada.
Ele empurrou o pratinho do brigadeiro para o meu lado. Não toquei.
Olhei o relógio. Treze minutos.
— Vou ao banheiro antes de sair.
Peguei a bolsa e me levantei. Na volta, passei pelo Caixa, paguei meu café, e voltei para me despedir sem me sentar outra vez.
Leandro ainda estava à mesa.
— Preciso ir, Leandro.
Ele olhou fixo para mim.
— Vou pedir a conta.
— Eu já paguei o meu.
Leandro se levantou e veio comigo até a porta, segurando-a para que eu passasse.
— A gente podia tomar outro café um dia desses. Com mais calma.
Eu já estava passando pela porta, quando ele arriscou mais uma vez:
— Ainda está com o mesmo número? Tentei te ligar depois que você saiu, mas nunca consegui falar com você.
Ele tirou o celular do bolso.
— Preciso correr.
— Quer uma carona? Estou de carro.
— Não, obrigada.
Saí para a calçada, tirei o celular da bolsa., e pedi um carro.
— Tchau, Leandro.
Quatro minutos.

Rosane Rubinstein G Pagliuca é formada em Administração e Direito, com especialização em Direito Penal e Processual Penal. Observadora das contradições humanas, escreve sobre relações que nascem sob tensão, afetos que exigem coragem e escolhas que transformam destinos. Em suas histórias, interessa-lha menos o óbvio e mais aquilo que se revela nas zonas de silêncio.