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Mudança

Mudança

por Rosane Rubinstein Pagliuca

Mudança

Eu já tinha passado dois dias da mudança carregando caixas sozinha no meu apartamento quando ele apareceu com um estilete novo, um rolo de fita e a eficiência que sempre chegava antes dele.

Foi direto para a maior caixa, que estava no escritório.

— Livros?

Confirmei com a cabeça.

— Coloco ordem alfabética?

— Não... tem uma ordem específica...

Ele sorriu de canto.

— Então eu só estou participando da versão provisória.

Ri tanto que precisei apoiar a mão na parede.

Uma fotografia escorregou de dentro de um livro. Peguei antes que caísse. Era ele ainda menino, no quintal da casa onde morou antes de os pais se mudarem.

— Como isso veio parar aqui?

— Você me enviou quando conversamos sobre a casa onde cresceu, lembra? Resolvi imprimir. Imaginei que um dia fosse querer.

— Não lembrava.

Continuou olhando para ela por um instante, depois a guardou na carteira e abriu outra caixa.

Por último pegou um quadro que eu herdara dos meus avós, e que estava apoiado perto da estante.

— Aqui?

— Um pouco mais para a esquerda...voltou demais. Agora uns quatro centímetros.

Pegou a trena, mediu a parede e disse:

— Você sabe que ficou exatamente onde estava cinco minutos atrás, né?

Demorei alguns segundos para recuperar o fôlego de tanto rir.

Foi buscar outra caixa. Esperei que desaparecesse e movi a moldura um centímetro para a esquerda.

Fomos abrir as outras caixas, e de repente ele virou-se para mim:

— Pela sua cara, deve estar faminta.

—Eu já pedi. Sua porção de proteína, uma salada para mim... e seu suco de beterraba.

A campainha tocou. Enquanto eu pegava os pratos, ele já foi tomando o suco.

Mal terminamos de comer, ele voltou para a sala e já ouvi o estilete deslizando pela fita de outra caixa.

— Estes ficam na estante da sala?

Quando voltei, os livros decorativos de capa dura ocupavam as primeiras prateleiras. Depois vinham os romances e os livros de fotografia.

O dia passou sem que percebêssemos. Já escurecia quando ele pegou as chaves e passou os olhos pela sala.

— Pronto. Vou indo. Ainda tenho uns relatórios para terminar. Qualquer coisa, me chama. Se cuida.

Nos despedimos com um beijo no rosto e um abraço. Fiquei parada à porta enquanto o elevador se fechava.

Quando voltei para a sala, vi a caneta com o logotipo do escritório dele sobre a bancada. Peguei-a, girei-a entre os dedos por um instante e sorri. Depois a guardei na primeira gaveta da escrivaninha.

Rosane Rubinstein Pagliuca
Rosane Rubinstein Pagliuca
São Paulo/SP

Rosane Rubinstein Pagliuca

Rosane Rubinstein G Pagliuca é formada em Administração e Direito, com especialização em Direito Penal e Processual Penal. Observadora das contradições humanas, escreve sobre relações que nascem sob tensão, afetos que exigem coragem e escolhas que transformam destinos. Em suas histórias, interessa-lha menos o óbvio e mais aquilo que se revela nas zonas de silêncio.