Aquela poderia ser uma noite fria qualquer, em que a viatura do GARRA ia abrindo caminho pelo centro de São Paulo. Junior estava ao volante, e seu parceiro Rafael ao lado, encostado na janela, com seus olhos atentos e o semblante tranquilo, varrendo as ruas da cidade com a paciência treinada de quem já viu de tudo.
— Encosta aí, Junior — falou Rafael, apontando para um grupinho de rapazes num beco lateral. Eles se moviam inquietos, num local que já tinha histórico. Aparentavam ter entre dezesseis e vinte anos, vestiam moletons largos, calças jeans meio surradas e tênis de marca. Gesticulavam bastante, e era difícil distinguir ao certo se discutiam ou comemoravam algo.
O giroflex acendeu, ambos desceram do carro, mas em segundos dois dos rapazes desapareceram como se a noite os tivesse engolido. Um terceiro ficou. Talvez por um transitório medo paralisante, ou quem sabe por não ter para onde ir. Isso era o que eles iriam descobrir.
Junior foi indo na frente e Rafael alguns passos atrás, como sempre fazia — posição estratégica que lhe permitia visualizar tudo, e se aproximar caso necessário.
O rapaz aparentava seus dezoito anos, talvez menos. Vestia roupas de marca, apesar de surradas e mal-cuidadas. Os olhos do garoto oscilavam entre o chão e os policiais, sem fixar em nada.
Junior parou a alguns metros, a arma em punho firme nas mãos, e ordenou:
— "Ô, maluco! Levanta as mãos, e encosta na parede! — efetuou a revista, mas nada encontrou. — Vira de frente pra mim! Documento!
O garoto não respondeu. Ficou olhando para o Junior com uma expressão que parecia estar meio fora de órbita, como se estivesse ouvindo um rádio mal sintonizado, e não conseguisse entender muito bem a mensagem.
— Você é surdo ou o que, caralho?!
Mas o garoto mal reagia, franziu a testa, parecia que ia balbuciar algo, mas tornou a fechar a boca. Era mais ausência que presença. De repente, balançou a cabeça levemente, como se estivesse ouvindo algo que Junior não conseguia ouvir.
Foi quando Junior virou para Rafael com aquela cara que o parceiro conhecia muito bem, e soltou:
— Não dá, irmão! Sem condições! Conversa você com ele...
Rafael, que já tinha sacado a cena ao longe, se aproximou devagar, como se tivesse se aproximando de um animal assustado:
— E aí, mano? O que você falou pro polícia?
O garoto piscou, e olhou para Rafael com uma atenção que antes não existia.
— E o que você tá fazendo por aqui a essa hora? — Rafael tentou um diálogo, mas já havia sacado que o garoto estava desnorteado.
— Eu tava esperando ... — pausou, os olhos novamente à deriva. — Ele... mandou eu vir aqui e esperar.
— Sei. Ele quem?
O garoto olhou para o policial, como se a resposta fosse óbvia:
— O Giga Guimeron.
Atrás de Rafael, Junior fechou os olhos por um momento, e bufou.
Rafael, por outro lado, nem piscou. Apenas olhou sério para o garoto, acenou a cabeça devagar, como se estivesse ouvindo a coisa mais natural do mundo. Passou a mão na cabeça — como costuma fazer sempre que uma ideia começa a tomar forma — e disse:
— Ah, o Giga Guimeron — repetiu pausadamente, como se estivesse catalogando a informação. — E o que o Giga Guimeron te manda fazer?
— Coisas. Ele fala na minha cabeça. Diz aonde tenho que ir, às vezes diz o que eu tenho que fazer, essas coisas...
— Entendi.
De fato, o policial havia entendido. Não exatamente sobre o tal Giga Guimeron, mas que uma abordagem tradicional não iria funcionar. Para acessá-lo era preciso entrar na mesma frequência, e ele tinha a paciência que a situação requeria.
Deu um passo para trás, estendeu os braços e ficou em silêncio por alguns segundos, como se estivesse deliberando consigo mesmo sobre algo muito sério. Em seguida, com uma calma que lhe era peculiar, sacou sua faca tática do colete — Junior nesse momento engoliu a seco e pensou em intervir — e entonou uma espécie de chamado num som seco, quase ininteligível.
Junior olhava perplexo a atuação do amigo. Preparou discretamente a câmera para fotografar aquela cena ímpar.
Rafael olhou sério para o garoto:
— Olha, preciso te falar uma coisa muito séria: você está com um coisa ruim dentro de você. — semicerrando os olhos enquanto estendia o braço direito, e deixando a mão levemente flexionada para cima, próxima ao alto da cabeça do garoto, complementou — você está possuído.
— Possuído? — questionou, arregalando os olhos. E ainda meio confuso, acrescentou: — Mas, quem é você? Como você sabe?
— Eu sou um Guerreiro Jedi. E você está possuído sim. Ele entrou e tá mandando de dentro de você, e é por isso que você fica ouvindo as vozes. Mas... eu posso te salvar! Eu tenho os poderes necessários para tirar ele de dentro de você. O Giga Guimeron está falando pra mim que é para eu tirar esse coisa ruim de dentro de você.
O garoto, confuso e já na vibe do policial, num misto de encantamento e surpresa, perguntou:
— Você também escuta o Giga Guimeron? Você pode mesmo me ajudar?
—Sim. Deita aí no chão, levanta a blusa e cobre a cabeça. Fica bem quietinho enquanto eu trabalho.
O garoto obedeceu prontamente, deitando-se na calçada e expondo a barriga.
— Vai doer?
— Não! O Giga Guimeron está me dizendo que não vai doer.
Dito isso, Rafael agachou-se a seu lado e encostou a lateral da faca gelada em sua barriga. Cada vez que a pressionava, soltava um "áaa!" meio rouco, um som gutural, quase um grunhido, repetindo isso por algumas vezes num ritual, oscilando entre o dramático e o sobrenatural, como se estivesse absorvendo uma energia que mais ninguém podia sentir.
Junior, a uns dois metros de distância, registrava tudo, contendo o riso e desacreditando no teatro que estava assistindo. A desobsessão durou cerca de uns três ou quatro minutos, o que para Junior pareceram horas.
Em determinado instante, o garoto, empolgado e ao mesmo tempo um tanto apreensivo, perguntou baixinho:
— Já está acabando? Vai dar certo?
Rafael, com toda propriedade, respondeu sem titubear:
— Quase! Agora eu vou fechar! — dito isso, pressionou o outro lado da lâmina da faca, repetindo aquele último som gutural.
Virou-se para Junior, e falou bem sério:
— Spok! Venha aqui! — E simulando algo que tinha sido tirado de dentro do garoto, complementou indicando a viatura: — leve isso para a nave!
Em seguida, virou-se para o garoto, que a essa altura estava extasiado:
— Pronto! Já era! Levanta aí!
Ele se levantou devagar, olhando para si mesmo, observando suas mãos, sua barriga, querendo checar se tudo funcionava e estava igual. Depois olhou para Rafael com uma expressão que demonstrava um misto de alívio, gratidão e admiração:
— Cara... eu me sinto... diferente...
— Normal. O coisa ruim foi embora. E agora você precisa ir para casa, ok? Você mora com seus pais?
— Sim, quer dizer, com minha mãe.
— Certo. Então vá para casa, e agora você só pode ouvir o que sua mãe falar, ok? Ela vai te dizer o que você tem que fazer.
Ele assentiu, mas de repente parou, olhou fixo para o policial, com um brilho nos olhos, e uma determinação nascente:
— Cara... mas... como você fez isso?
— Eu sou um Guerreiro Jedi. Nós temos esses poderes. Olha lá a nave — disse, apontando para o giroflex ligado da viatura.
— Guerreiro Jedi? Isso é tipo uma Ordem? Eu também quero ser um Guerreiro Jedi! Você me inicia? Me leva com você?
Junior, que a tudo assistia, já não podia crer mais no que estava por vir. Tentou chamar Rafael, mas foi em vão. Rafael parecia se divertir com aquilo tudo, e respondeu calmamente ao garoto, entrando na sua onda:
— Olha, não é assim que funciona. Ser um Guerreiro Jedi é uma tradição de família. Meu pai, meu avô, meu bisavô, e por aí vai. Vem de longe. Vai passando de pai para filho, entende?
O garoto olhou mais vidrado ainda para Rafael, tentando processar a informação e encontrar uma solução. Quando escaneava cada detalhe do policial, percebeu a careca, lisa, brilhando levemente sob a luz branca do poste.
— E se eu raspar meu cabelo também? Tipo... você não poderia me inicializar com você na ordem?
Junior, uns passos atrás, fechou os olhos respirando fundo. Rafael encarou o garoto por um breve instante. Mantendo a seriedade com a disciplina de um ator experiente, lançou:
— Não tem como, mano. Não é pelo cabelo. É tradição familiar. Você tem que nascer numa família de Guerreiros Jedi. — Mas, percebendo a enorme tristeza e decepção do garoto, emendou: — mas, se você for pra casa agora e ouvir sua mãe, pode ser que ela tenha algo a lhe dizer. Os caminhos dos poderes dos guerreiros Jedi são misteriosos.
Era uma promessa que não prometia nada, mas funcionou. O garoto assentiu com a cabeça, reverenciou como quem acabara de fazer um pacto, depois caminhou pela calçada, com as mãos nos bolsos do jeans, desaparecendo na escuridão.
Rafael sorriu satisfeito, olhando o garoto sumir, depois virou-se para Junior, que o encarava desacreditando ainda naquela cena toda. Nenhum dos dois disse nada por uns alguns segundos, até que Junior não se conteve:
— Guerreiro Jedi! — E começou a rir.
— Resolveu, não resolveu? — retrucou Rafael, com seu sorriso maroto e um ar de missão cumprida.
Junior balançou a cabeça, caminhou até a viatura, esperou Rafael entrar pelo outro lado e deu partida. Alguns minutos se passaram, quando o rádio crepitou com uma nova chamada:
— Atento as viaturas do GARRA. Roubo em andamento na Av. Rebouças, 2222.
Seguiram em silêncio para a ocorrência. Junior desviava dos carros com precisão automática, enquanto a lembrança da encenação improvisada voltava como um replay insistente, e ele ainda se divertia com aquilo. Não era a primeira vez, e sempre funcionava bem.
Deixou escapar uma gargalhada curta, quase cúmplice, virou-se para Rafael, e soltou:
— Você tá no caminho certo pra virar uma lenda, sabe disso, né?
Rafael encostou a cabeça no banco, cruzou os braços, deu aquela olhada de canto de olho com aquela paz irritante que era sua marca registrada e respondeu sem hesitar:
— Tradição de família.
Rosane Rubinstein G Pagliuca é formada em Administração e Direito, com especialização em Direito Penal e Processual Penal. Observadora das contradições humanas, escreve sobre relações que nascem sob tensão, afetos que exigem coragem e escolhas que transformam destinos. Em suas histórias, interessa-lha menos o óbvio e mais aquilo que se revela nas zonas de silêncio.