por Rosane Rubinstein Pagliuca
A campainha tocou várias vezes. Vinícius não se apressou, conhecia essa urgência. Dirigiu-se até a porta no próprio ritmo e, como já esperava, era ela.
— Oi, pai! Tá vivo? — disse, dando dois tapinhas no ombro dele.
A filha atravessou a sala com naturalidade, falando sem parar, observando tudo em sua volta. Jogou o casaco e a bolsa de grife no sofá, ajeitou o cabelo. Tudo ensaiado. Tudo parte do mesmo teatro de sempre. Aquele mesmo preparo antes de dar o bote.
— Passei na padaria? Lembrei de você — disse, tirando um docinho da bolsa. Pousou-o na mesa com delicadeza exagerada. — Pra adoçar seu dia. Saudade, pai. Você tá bem? Tá sozinho em casa hoje? Aquela mulher saiu? — perguntou, referindo-se à esposa dele.
Tocou o ombro dele rápido, como quem aciona um interruptor emocional. Depois se afastou, tentando uma aproximação e preparando o terreno.
— Você ia gostar do que eu vi hoje — disse, abrindo o celular. — Coisa que gente com nosso faro percebe na hora.
Mostrou prints aleatórios de lojas digitais duvidosas, números coloridos, promessas de lucro fácil. Depois umas páginas de Instagram e TikTok.
— Olha isso — insistiu com o celular, como se revelasse um segredo que só ela sabia. — A galera tá enriquecendo da noite pro dia. E eu tiro isso de letra. Sou muito melhor que eles! Você sabe que sou, né, pai?
Como o pai só observava em silêncio, ela prosseguiu com sua ladainha. Sabia que não podia dar espaço para ele pensar muito. A ideia era falar bastante, e com eloquência, até a exaustão. Só sairia de lá com o "sim" dele.
— Eu tenho tudoooo pra fazer isso dar certo! Só falta confiar em mim. Só mais essa vez. Você não vai se arrepender!
O "só" veio doce e calculado. Maquiavélico.
Ela voltou para perto de Vinícius, perto demais. Colocou a mão no peito dele, num gesto teatral, em que dosava a mulher forte, empresária poderosa, e a princesinha do papai, a receita perfeita para convencê-lo.
— Pai, você sabe que as coisas deram errado antes porque eu confiei em gente pequena. Agora vou fazer diferente.
Pausa.
— Eu só preciso que comece no seu nome. É o jeito mais rápido. Depois eu assumo tudo. Prometo.
O sorriso dela — o sorriso que precedia a mentira perfeita — apareceu.
— Olha, a gente abre a empresa no seu nome, você me empresta um capital inicial, não vou precisar de muito... e eu cuido do restante. Já tenho até um amigo que vai fazer pra mim a parte de divulgação, campanhas de marketing, essas coisas. E assim que começar a dar o retorno, e eu sei que vai ser muito rápido, vou te pagar tudo de volta.
Pausa curta.
— Tudinho.
Vinicius não respondeu. Respirou fundo, virou-se e foi andando calmamente para o corredor.
Josie travou. Ficou confusa. Será que tinha sido tão convincente desta vez a ponto de o pai nem questionar e ter ido buscar o dinheiro ou o telefone para lhe fazer o pix... Ou será que ele a estava ignorando e não tinha ouvido uma palavra sequer do que ela tinha dito?
— Pai? Tá indo aonde? Vai pegar o quê?
Nenhuma resposta. Silêncio absoluto.
Ela se aproximou do batente, irritação pulsando sob o sorriso dissimulado.
Ele voltou com uma caixa de madeira pequena em mãos. Um semblante sereno, ainda em silêncio, colocou-a sobre a mesa.
— Que isso? — ela disse, com uma risadinha discreta, tentando disfarçar a tensão. — Agora você guarda dinheiro em casa... em caixas? Quanto mistério, pai.
Ele indicou a tampa, sem ainda nada falar. Ela abriu. A caixa estava vazia, mas na face interna da tampa, um espelho ocupava toda a superfície. Josie desviou o olhar na hora. Arregalou seus olhos e virou-se para o pai:
— Ah, não? Você tá brincando! Eu venho falar de coisa séria e você me aparece com isso?
Empurrou a caixa.
— Pai, olha pra mim. Que palhaçada é essa? Você vai negar? Essa é minha grande chance de virar o jogo. Você precisa me apoiar! Você só se importa com aquela sua mulherzinha? Não dá a mínima pra mim, eu sou sua filha! Você vai se arrepender por isso! — praguejou Josie, já se alterando e começando a mostrar as garras.
Vinícius permaneceu imóvel. Ele sabia que teria que dominar seu coração mole e agir com a razão. Tinha prometido para si mesmo que, ainda que tardiamente, deixaria de mimá-la e alimentar aquele comportamento irresponsável e doentio. Priorizaria mostrar que ela precisava caminhar com suas próprias pernas, assumir seus próprios erros. Para o bem de todos.
Josie bateu a mão com força na mesa e gritou:
— Porque é isso que você tá fazendo: me abandonando!
Vinícius respirou fundo mais uma vez.
— Não, Josie. Estou fazendo isso pelo seu bem. Você já está com quarenta anos e eu não vou estar aqui pra sempre.
Ele sabia que uma hora teria que fazer isso. E sabia que não seria fácil. Por isso adiou por tantos anos.
Ela soltou uma gargalhada histérica, incrédula, quase ofendida pela ousadia. Seu teatrinho tinha falhado desta vez. Ela partiria para o ataque. A princesinha de Mônaco, como seu pai costumava chamá-la, não abriria mão da coroa assim.
— "Não"? "Pro meu bem?" — agora ela já nem fazia questão de disfarçar sua ira. — Claro, pra mim sempre é não! Pra sua mulherzinha de merda você tem mão aberta! Pra mim, nunca!
Deu um passo em direção a ele, com uma fúria de quem quer dar um soco de nocaute, chegou bem pertinho e disse num tom totalmente descontrolado:
— Quer saber? Me dá logo a minha parte da herança, então, e pronto. — Pausa. — A minha parte. Eu não tô pedindo favor. É direito. Eu resolvo o resto sozinha.
Ele sustentou o olhar. Agora disfarçava também uma certa decepção com sua princesinha.
— Josie, não existe herança agora. Eu estou vivo... E desta vez também não vou colocar o meu nome nisso. Da última vez, quase me custou minha carreira. Isso não é brincadeira.
Ela sentiu. O limite real.
— Você é um ridículo! — gritou, já pegando sua bolsa e batendo os saltos em direção à saída. — Patético!
E cuspiu:
— Não preciso de você pra nada. Não me ligue!
A porta bateu com violência. O silêncio tomou a sala devagar, como quem enfim encontra lugar. Restou um vazio, mas também uma certa paz.
Era o "não" que faltava. A casa ficou quieta, do jeito certo. E ele permaneceu onde estava.

Rosane Rubinstein G Pagliuca é formada em Administração e Direito, com especialização em Direito Penal e Processual Penal. Observadora das contradições humanas, escreve sobre relações que nascem sob tensão, afetos que exigem coragem e escolhas que transformam destinos. Em suas histórias, interessa-lha menos o óbvio e mais aquilo que se revela nas zonas de silêncio.