por Rúbia Scheffer
Muitos dias e noites se passaram desde que me abriguei naquele salão de festas.
Eu precisava de proteção. Lá fora, um mundo encharcado e barrento. Pedaços de madeira, móveis, eletrodomésticos, roupas e utensílios diversos boiavam misturados. Não havia o que comer, nem água limpa pra beber.
Fazia muito frio. Aquela janela deveria acessar um lugar quentinho. Não hesitei e saltei pra dentro. Transitei entre pés de mesas e cadeiras espalhadas naquele piso que, apesar de frio, estava seco. Pulei de um móvel para outro. Me senti segura e aquecida, sensações que já não experimentava há muito tempo. Atravessei uma porta entreaberta, era um banheiro. Num vaso sanitário saciei minha sede, mas não encontrei nada para matar a fome. Procurei por toda parte. Até a lixeira estava vazia.
Meu ventre estava cada vez mais agitado. Dormia e acordava, anoitecia e amanhecia e nada mudava. Ninguém aparecia. Minha barriguinha foi crescendo, mas só com água e sem comida, fui ficando fraca. Olhei, pela última vez, pela fresta por onde entrei, a imensidão de água seguia lá.
Com o passar dos dias, não me movimentava mais, apenas dormia um sono pesado, carregado de medo. Guardava minhas forças para a hora certa.
Estava escuro quando uma cólica muito forte atravessou meu ventre. Miei de dor. Senti um líquido escorrendo pelas patinhas traseiras e, logo em seguida, dois corpinhos nasceram de mim. Eu paria pela primeira vez. Foi dolorido, solitário e triste. Eles não resistiram. E eu nem sei como consegui. Me despedi deles com algumas lambidas.
Achei que minha vida não fazia mais sentido. Lembrei de ter ouvido algumas pessoas falar em fim do mundo. Achei que estava chegando. Descobri mais tarde que, para alguns, realmente acabou.
Assim que amanheceu, ouvi o motor de um carro, barulho de portas e vozes.
— Olha que bom! A água chegou até a porta, mas não entrou!
Só algum tempo depois é que entraram no salão. Nem repararam em nós. Com muito esforço, consegui soltar um miado. Uma criança que até então estava calada, falou:
— Papai, acho que tem um gato aqui.
— Não estou vendo nada, filha.
— Mas tem, escutei um "miau".
— Deve ser só vontade de ter um gatinho.
Reuni as forças que me restavam e miei novamente, um pouquinho mais alto. Nos avistaram e se entreolharam, a menina tinha razão. Ela começou a correr entre os móveis, o pai atrás.
— Olha, pai, são três! Mas os pequenininhos não se mexem...
— Calma, Filha. Não toca neles, podem estar doentes.
Foi difícil segurar a ansiedade da menina.
— Vou procurar um pano. Não mexe neles.
Na cozinha, encontrou uma caixa de vinho vazia e um pano de chão limpo. Se aproximou, envolveu-me cuidadosamente no pano, me acomodou na caixa e disse:
— Esta será sua, Filha. Mas antes temos que levá-la num veterinário.
— Mas e os outros, pai?
Com a voz embargada, ele respondeu:
— Os outros foram pro céu dos animais.
A menina entendeu o que havia acontecido, me olhou e, com a voz mais doce que eu já ouvi, sussurrou:
— Vou cuidar de você com tanto amor que a saudade não vai te incomodar, tá?
Mal sabia ela que isso seria impossível. Entretanto, naquele momento, compreendi que minha vida passava a ser importante para alguém. Apesar de eu me sentir dolorida e fraca, aquele ninho estava quentinho, cheiroso e macio.
Com os olhos cheios de lágrimas a menina acrescentou:
— Amiga. Pode ser esse o nome, pai?
— Claro, minha filha. Vamos cuidar dela, ela vai ficar boa.
Se eu também pudesse dar-lhe um nome, seria Anja.
Nascida em 1964 na cidade de Porto Alegre RS, mora em Florianópolis desde 1998. Viajante e escritora de relatos e crônicas de viagem. É autora dos livros "Atacama - expedição a um novo planeta" (2019) e "Patagônia - reviajando na pandemia" (2025). Já participou de oficinas de escrita com Marcelo Spalding, Zizo Asnis, Daniel Nunes e Juliana Reis. Criadora do perfil @expressotortuga – viajando, devagar e sempre, com a casa nas costas - onde costuma publicar as fotos de suas viagens. Além de seguir se aprofundando na escrita de relatos de viagem, Rúbia está se aventurando na escrita de contos e crônicas.