por Rúbia Scheffer
Tudo começou quando arranjei um trabalho de manicure e passei a ter meu dinheirinho. De vez em quando eu ia pro salão com um roxo no braço. Eu escondia usando manga longa, achava que a patroa nem percebia. Mas um dia ela me falou:
— Marlene, sei que em briga de marido e mulher não se deve meter a colher, mas isso pode acabar mal pro teu lado.
Ela não era de muita conversa, mas me encheu a cachola. Não dormi a noite toda matutando o que é que eu podia fazer. Eu não tinha pra onde ir. De manhã, resolvi começar uma academia, pelo menos eu ia poder me defender. Eu tinha tempo. Ia todos os dias.
Depois ele implicou com o Tiaguinho, o rapaz da venda. Até que ele é bem bonitão, mas é viado, não ia querer nada comigo. Maior desperdício!
No dia em que encontrei o revólver nas coisas dele, fiquei com muito medo. Não sosseguei enquanto não consegui bolar um plano pra me vingar de tantos anos de humilhação e porrada. Não guentava mais, era muito vexame. Ele era um magrelo metido à besta, por isso deve ter arranjado a arma. E eu já tava malhando há uns quatro meses, já tava me sentindo mais fortinha.
Consegui fingir que eu tava mais calma, fiquei menos reclamona. Fiz as comidinhas que ele mais gostava, dava sem reclamar. Até vi uns filme policial com ele. Fazia tudo pra ele não desconfiar, mas já tava ficando com nojo.
Escolhi uma noite bem escura. Tinha chovido e quase ninguém andava na rua. Já passava das dez quando chegou o ônibus. Ele desceu e achava que eu tava em casa como sempre, com a comida pronta, cheirosa. Mas naquela noite foi diferente...
Coloquei na cabeça a camiseta preta que enjambrei com dois furos pros olhos. Esperei o busão sumir, apontei a arma pra cabeça dele, engrossei a voz e falei:
— Isso é um assalto. Deita no chão.
Ele se virou ligeiro, arregalou os olhos e deixou a bolsa com a marmita vazia e a roupa suja do trabalho cair. Puxei com o pé, que nem nos filmes. Pedi a carteira e o celular, ele me entregou. Falei de novo:
— Deita no chão, filho da puta.
Quase me ri quando ele se mijou. Só tirei a máscara depois que ele me obedeceu.
Ele ficou assustado e começou a resmungar:
— Pra que isso, Marlene? Tá te faltando alguma coisa?
Eu só fiquei escutando...
— Olha nossa vidinha, tão boa. Larga essa arma!
Eu calada...
— Fala comigo, meu amor! Diz alguma coisa!
Ele chorou. Fiquei só olhando. Até me diverti vendo ele cagado de medo.
— Tu não tem coragem, Marlene.
Daí me provocou, né?
— Cala a boca, safado.
Tava quase resolvendo o assunto quando vi uma criatura passar do outro lado da rua. Pra minha sorte, seguiu reto sem olhar pra nós e desapareceu. Ainda dei uma boa risada na cara do cretino antes de meter duas balas naquela fuça nojenta.
Corri pra caralho e atirei a arma num terreno baldio. Em casa, fiz picadinho das luvas. Na minha rua, o lixeiro passa de madrugada.
Nascida em 1964 na cidade de Porto Alegre RS, mora em Florianópolis desde 1998. Viajante e escritora de relatos e crônicas de viagem. É autora dos livros "Atacama - expedição a um novo planeta" (2019) e "Patagônia - reviajando na pandemia" (2025). Já participou de oficinas de escrita com Marcelo Spalding, Zizo Asnis, Daniel Nunes e Juliana Reis. Criadora do perfil @expressotortuga – viajando, devagar e sempre, com a casa nas costas - onde costuma publicar as fotos de suas viagens. Além de seguir se aprofundando na escrita de relatos de viagem, Rúbia está se aventurando na escrita de contos e crônicas.