por Rúbia Scheffer
Cristina e Paulo haviam, como de costume, sonhado e planejado a viagem juntos. Na véspera do embarque, ela aproveitou a folga para organizar o que faltava.
Nos brechós que visitou, ela experimentou vários cheiros e vestiu muitas memórias até encontrar o que procurava. Um casaco impermeável e quente. Embora fosse masculino, serviu perfeitamente. Conferiu costuras, fechos, capuz. No bolso interno, encontrou uma pequena folha de caderno dobrada em diversas partes.
Abriu e percebeu que continha um texto escrito à mão: "Amado João, nos conhecemos viajando e assim seguimos a vida. Como cantou Raul Seixas: Sonho que se sonha só, é só um sonho. Mas sonho que se sonha junto, é realidade." Lembrou de seus pais, ambos falecidos, que viveram felizes por décadas, sempre sonhando novas viagens e se aventurando na realização delas. Acreditava que esse movimento contribuía para a harmonia e o bom relacionamento de um casal.
"Nossa última viagem, à Patagônia, foi uma das experiências mais incríveis que já vivi. Percorrer o Estreito de Magalhães, por onde antigos navegadores cruzaram em suas naus, conhecer os fiordes do Canal de Beagle, com seus glaciares milenares, e atingir o Cabo Horn, ponto tão extremo do nosso Planeta, me encantaram."
Cristina sentiu um arrepio na espinha. O roteiro ali descrito era idêntico ao que fariam nos próximos dias. Tinham cancelado o cruzeiro que fariam entre Punta Arenas, no Chile, e Ushuaia, na Argentina, quando ela foi surpreendida com um câncer de mama. A partir do diagnóstico, ficaram mais de dois anos envolvidos com o tratamento. Estavam retomando a realização daquele sonho.
? E aí, moça, gostou?
Queria ler até o fim, mas se sentiu meio tonta. Além disso, eram tantas as pendências...
? Vai levar?
Ainda que intrigada, guardou o regalo no mesmo lugar, concluiu a compra e seguiu para as próximas providências. Casa de câmbio, farmácia, alguns lanches, manicure.
Já em casa, à noite, concluíram a arrumação das bagagens. Ao se deitarem, suspiraram simultaneamente. Riram também em uníssono. Antes de pegar no sono, ele sussurrou: ? Amanhã será um grande dia! Ela, de tão exausta, nem lembrou mais do bilhete.
Era madrugada de sábado, saltaram da cama antes que o despertador disparasse. Estavam ambos bastante animados com o roteiro que prepararam por meses. Além disso, voo internacional sempre exige chegar com mais antecedência ao aeroporto.
Apesar do nervosismo com os trâmites aeroportuários e o receio de algo dar errado, tudo foi concluído a tempo de tomarem um café na sala de embarque.
Os autofalantes chamaram os passageiros do voo com destino a Santiago, no Chile. Entraram na aeronave, localizaram seus assentos, acomodaram suas mochilas no compartimento adequado e, antes de sentar na sua poltrona, ela procurou um lugar seguro para guardar seu passaporte e o comprovante da bagagem. Nada melhor do que o bolso interno da jaqueta. De imediato, se deparou com o manuscrito. Se questionou como havia esquecido daquele detalhe e se sentou com o papel na mão.
? Amor, olha o que achei no impermeável que comprei ontem.
? Um bilhete?
? Li só o comecinho, mas parece uma mensagem de amor.
Foi interrompida pela fala da comissária-chefe, que orientava os passageiros para afivelarem os cintos e apresentava as demais instruções de segurança. Assim que a voz silenciou, desdobrou rapidamente a folha rabiscada e começou a leitura do ponto em que havia parado no dia anterior:
"Isso tudo, ao teu lado, ganhou mais valor. Sem ti, nada disso faria sentido, provavelmente, nem teria acontecido. Essas e tantas outras lembranças seguirão eternamente no meu coração."
Em algumas ocasiões, Cristina e Paulo tiveram dúvidas se já era hora de encarar uma aventura tão exigente. Mas sempre concluíam que ficar em casa não mudaria sua condição de saúde.
"Engano a mim mesma escrevendo como se fosse para ti. Talvez escreva para que eu não deixe de viver novas aventuras. Afinal, a vida pode ser mais curta do que imaginamos."
Conforme as lágrimas deslizavam em seu rosto, Cristina via uma retrospectiva dos últimos anos se projetando nos flocos de nuvens que flutuavam lá fora.
"Senti a necessidade de dar um significado para cada objeto teu que me desfaço. Por isso, deixei esse recado no casaco que te acompanhou naquela viagem."
"Não te assustes, leitor. João partiu cedo, mas sua vida foi muito boa, desejo que a tua também seja. Que possas viver uma linda história de amor como a nossa e com todas as aventuras que nela couberem."
Cristina passou a mão delicadamente na roupa nova, sentindo a história que aquela peça trazia consigo. Discretamente, tocou sua cicatriz. Sabia que, mesmo tendo recebido alta médica, seu corpo exigia cuidados e atenção.
Despertou da abstração com a fala suave do marido:
? O que foi, querida?
Ela o beijou ternamente e lhe entregou a carta ainda com as marcas de algumas lágrimas.
Nascida em 1964 na cidade de Porto Alegre RS, mora em Florianópolis desde 1998. Viajante e escritora de relatos e crônicas de viagem. É autora dos livros "Atacama - expedição a um novo planeta" (2019) e "Patagônia - reviajando na pandemia" (2025). Já participou de oficinas de escrita com Marcelo Spalding, Zizo Asnis, Daniel Nunes e Juliana Reis. Criadora do perfil @expressotortuga – viajando, devagar e sempre, com a casa nas costas - onde costuma publicar as fotos de suas viagens. Além de seguir se aprofundando na escrita de relatos de viagem, Rúbia está se aventurando na escrita de contos e crônicas.