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Recreio

Recreio

por Taíssa da Silva Daniel

Recreio

Recreio

O sinal toca, indicando o momento do intervalo para todos os alunos do ensino médio. Os alunos levantam depressa de suas carteiras, enquanto algumas das portas das salas do segundo andar são abertas. Entre risos e conversas altas, descem as escadas separados em grupos, em sua maioria definidos por idade, turma ou gênero. A cantina rapidamente fica cheia. Alguns já chegam reclamando do tempo que demora para as batatas fritas saírem, mas, mesmo assim, seguem comprando. O meio do pátio recebe um grande fluxo de passagem. A maioria opta por se sentar nos bancos aos cantos; dizem não querer chamar a atenção. Sem celulares, alguns jogam cartas de RPG, outros conversam, outros dançam. Sempre há o que se inventar para fazer.

Perto da árvore da entrada da escola, Marie prefere normalmente a própria companhia. Para ela, olhar para aquela árvore não é olhar para uma simples árvore, mas construir uma cena de "Danta", a protagonista de seu livro, que, depois de dar de cara com a árvore do "Jardim Birabeu", acaba indo parar na emergência. Sim, é uma ótima ideia! Irá resolver a cena que está montando para vir na sequência. Um sorriso se estende por seu rosto.

Nesse momento, Daiana, sua colega de turma, acaba sentando-se a seu lado, acenando:

— Oi, Marie! Sempre sozinha. — Ela morde alguns biscoitos do saco em sua mão. — Quer?

— Não, obrigada, Daiana.

— Novidades?

— Pensando em meu livro... Nova ideia. A mocinha vai bater a cabeça na árvore no Jardim Birabeu!

— Por que não escolhe um nome normal?!

— Eu... Gosto do diferente.

Uma outra menina fala com as duas, e logo Daiana se vai atrás dessa. Marie fica a olhar, interpreta que a outra só não tinha encontrado o que fazer ainda naquele recreio... Não que não gostem dela, mas normalmente é vista como diferente.

Marie não sente interesse em cavar seu coração ali. Ela sabe que, a cada ano, tudo muda naquele ambiente, e facilmente as pessoas esquecem-se. Com a troca de escola ou a formatura. O mundo não precisa ser tão imediato.

Quando imagina locais com nomes estranhos, entende que pode trazer uma profundidade que ainda não consegue fazer parte daquele recreio. Mas ela tem a imaginação de que não será para sempre assim. O mundo muda sempre.

A literatura ficcional ensina, através do que não existe, o que existe e um dia poderá existir.

Taíssa da Silva Daniel
Taíssa da Silva Daniel
Rio de Janeiro/RJ

Taíssa da Silva Daniel

Carioca, nascida em 1995 e formada na área da saúde. Desde infância tem intensa conexão com as artes. Através da escrita, mas também por meio do desenho e da dança. 

Escreve principalmente ficção dramática. Histórias que transmitam conflitos e aprendizagens humanos, por meio de personagens de outras realidades.

Autora do romance "Todas Cores" (2026). Atualmente, história prequela "Menos Cores" está em processo editorial.

Formada no Curso de Formação de Escritores da Metamorfose.