por Taíssa da Silva Daniel
Conto do universo do romance "Todas Cores".
Um grande visor à frente mostrava uma imagem de tempestade, sem som algum. O menino Maiow olhava e como olhava... Imaginava... o contato de cada gota contra a sua pele, a temperatura delas, a dúvida: será que aquilo era indicativo de uma chuva acontecendo lá fora?
Atentou-se a seu redor mais próximo, tão comum a ele: tantos meninos e meninas escorados por qualquer canto. Esses, em roupas brancas, a completar um local vibrante de mesma cor. Um falso lar para todos. Adultos na cor verde-água passavam o tempo todo e, segundo perspectivas joviais, aleatoriamente elegiam um dentre eles para ser puxado e levado a uma sala fechada, mais uma vez.
À lembrança, Maiow apoiou a mão sobre o próprio pescoço, ainda dolorido pela última vez em que foi remexido por mãos com luvas.
Ele fechou os olhos. Imaginar o som da chuva era um embalo que dava certo. E então... Seu coração foi se aquietando e se aquietando... Um suspiro profundo escapou-lhe pelas narinas.
— Ou! Woooyyy! — O menino caminhava por um enorme campo de grama azul, quieto, embora o vento chegasse com força.
— BU!!!
— Aaah! — Ele caiu para trás, ao notar a presença de uma menina. — Qual o seu problema? Garota maluca!
Gargalhadas sinceras vieram dos dois. Ele notou o pequeno par de asas em suas costas.
— Você não é humana?
— Não! Qual o seu nome? Eu sou Greicy, tenho nove anos!
— Tenho onze, MD-21.
— Isso é só um código! Me passa seu nome de verdade!
— Por que quer saber? Aqui é diferente? Ninguém quer saber onde estou...
— Eu também não conheço aqui...
— Não?!
— Mas quero ser sua amiga! Me dá a sua mão? — Ela esticou o seu braço, para ele se apoiar.
— Tá-tá bem. Pode me chamar de Maiow.
— Aah! — Ela ajudou-o a ficar de pé. — Como o "a-e-i-o-u"?
— Não, não! Tem "ma" e não tem "e"!
Ela riu muito, embora ele não entendesse bem se era engraçado.
— Maiow! Maiow... Vamos ser amigos?
— Quer ser minha amiga mesmo?
— Claro! Vai ser... meu primeiro amigo menino! Tenho o papai também. Mas ele tem estado tão...
— Tão?
— A-a Lavee nasceu... o papai mudou...
Maiow segurou com força as suas duas mãos.
— Então vou ser seu amigo.
Os dois sorriram.
— Vamos brincar? Promete que não vai esquecer de mim quando formos embora daqui? Não, você vai esquecer...
— Greicy, já brincou de fábula?
— Já!!
— Então, vamos brincar? E, como em uma, prometo que vou te encontrar... E você vai ser a "princesa"...
Os olhos da menina tornaram-se úmidos, mas ela fechou-os com muita força antes de abrir mais uma vez.
— BOBO! — Greicy empurrou-o, fazendo-o cair de novo. — Está com você! Não me pegaaaaa!!! — E então saiu correndo.
— Lenta!!
Maiow disparou atrás dela. Imediatamente, aquele gigantesco campo tornou-se cenário para a diversão.
— eicy... Greicy!
Seus olhos foram abrindo, embalados pela voz da "tia" da escolinha.
— Acordou! O papai está aqui...
— Pai Derephor? — Olhando para o lado, ela observou a figura grande daquele homem especial em sua vida.
— Meu amor, vamos para casa?
Os dois caminharam a pé em uma região com muitas árvores. A mão do homem segurando a sua com pressão. Greicy sentia falta da presença da mãe na escola, mas entendia que fazia pouco tempo que a sua irmã havia nascido. Olhar para o outro ali a seu lado começou a proporcionar algum peso. Mas lembrou-se de alguma leveza... Greicy sentiu que isso tinha relação com o sonho de há pouco.
Mas... Ela não se lembrava do que se tratava.

Carioca, nascida em 1995 e formada na área da saúde. Desde infância tem intensa conexão com as artes. Através da escrita, mas também por meio do desenho e da dança.
Escreve principalmente ficção dramática. Histórias que transmitam conflitos e aprendizagens humanos, por meio de personagens de outras realidades.
Autora do romance "Todas Cores" (2026). Atualmente, história prequela "Menos Cores" está em processo editorial.
Formada no Curso de Formação de Escritores da Metamorfose.