A primeira coisa da qual Erica se lembra é de um par de olhos verdes olhando para ela. Não havia nada ali. Não havia alegria, gozo, tristeza, ou qualquer tipo de emoção. Aqueles olhos que se pareciam a esmeraldas recém lapidadas não continham nada, senão vazio. Anos depois, ela percebeu que aqueles eram os olhos de sua mãe. Não porque se lembrasse, mas porque todos diziam a mesma coisa: "Que olhos lindos você tem, iguais aos dela".
Mas ela não herdara apenas a cor. Herdara a apatia, a indiferença e o vazio que parecia sempre prestes a consumi-la. Por vezes, Erica se perguntava se a mãe teria acabado com a própria vida se aquele motorista bêbado não tivesse feito isso por ela, mas logo afastava a ideia, segura de que ela não teria coragem para isso. Ela também não tinha.
Em certa ocasião, quando estava vagando sem rumo pelos canais da TV a cabo, o olhar de um homem chamou sua atenção. Eram escuros, intensos e estavam vidrados numa mulher que parecia alheia à sua presença, sozinha dentro de uma casa, enquanto ele a observava do outro lado da janela. Observar não seria a palavra certa. Ele a consumia, bebendo cada um de seus movimentos com olhos ávidos, atentos, olhos que certamente a fariam sentir viva – ainda que o machado em sua mão dissesse o contrário. E, naquele instante, com o coração disparado dentro do peito e os olhos vidrados, algo estalou dentro de Erica.
Ela queria aquilo.
Ela queria ser vista.
Queria que alguém olhasse para ela com aquela intensidade. E então, aquele vazio que a acompanhara a vida inteira certamente seria preenchido. Dizer que Erica não buscou por aquilo em cada menino que lhe entregou uma cartinha melosa no colégio, ou em cada garoto que sorriu de canto num bar próximo à faculdade, seria mentira. Ela buscou incessantemente ser alvo daquele olhar. E achou que o havia encontrado numa tarde de sexta-feira, na saída da aula de anatomia.
— Aceita um convite pra festa Meio Médico?
— Não, obrigada. — Erica sequer levantou os olhos da mochila que tentava fechar quando a mesma voz sorridente falou:
— Vamos, você já perdeu a festa do Jaleco.
— O quê? — Ela deteve os próprios passos, parando no meio do corredor, e finalmente olhou para cima. Ali, um par de olhos castanhos a fitavam com interesse.
— Sou Cauã. — O rapaz se apresentou, um sorriso radiante no rosto — Estou ajudando a vender os últimos convites.
— E como você sabe que eu não fui à festa do Jaleco?
— Eu teria visto você lá. — O sorriso ganhou uma pitada de malícia ao notar o vermelho tomar conta das bochechas de Erica. — E teria pedido o seu número, é claro.
Erica odiava ir a festas.
Mas ela foi mesmo assim. E quando viu a si mesma refletida naqueles olhos castanhos intensos e levemente embriagados, o tempo parou, a música ensurdecedora ficou cada vez mais distante e ela se sentiu viva. Pelo menos, por três anos.
Esse foi o tempo que Erica levou para notar o brilho desaparecer dos olhos castanhos que um dia chamaram a atenção. Logo, Cauã se tornou distante e enfadonho como todos os outros. E suas interações mecânicas, superficiais, aquilo que se espera de um casal que já perdeu o interesse um no outro, mas ainda permanece junto por comodidade.
Quando Cauã desapareceu, Erica demorou dias para notar. O celular permaneceu sem notificações, mas sempre acontecia quando brigavam. Provavelmente, ele festava beijando bocas desconhecidas e fazendo sabe-se lá o que mais. Erica preferia não imaginar. Nos dias que se seguiram, ela tentou ocupar a mente com o trabalho no hospital, onde um novo paciente começara a despertar nela algo difícil de nomear.
Tom era fascinante. Ele possuía um par de olhos escuros e intensos que não perdiam um movimento sequer de sua mão, enquanto Erica tomava nota de tudo o que ele falava num pequeno caderno de capa preta que, de repente, tornara-se um tesouro. Erica poderia ouvi-lo por horas. Infelizmente, as sessões de psicoterapia duravam apenas trinta minutos para os médicos residentes.
O som da campainha a obrigou a desviar os olhos das anotações da última sessão. Levantou-se da mesa com um suspiro aborrecido. Pelo visto, Cauã cansou das festas e agora queria implorar pelo perdão com um par de girassóis murchos e desculpas baratas.
Ao abrir a porta, porém, não encontrou ninguém. Apenas uma caixa de isopor se destacava, rodeada por um laçarote vermelho, como um embrulho de presente. Que estranho, mas, mesmo assim, apanhou a caixa e trouxe para dentro.
Em cima da mesa, a caixa parecia ainda mais estranha. Talvez fosse uma brincadeira de Cauã ou um pedido de desculpas mais inventivo que os girassóis. Que nada. Cauã não se esforçava em imaginar nada que não fossem formas de contrabandear álcool para uma festa.
Cansada de conjecturar, Erica desfez o laço e abriu a caixa. Em seguida, o gosto da bile subiu pela garganta.
— Meu Deus... — Ela escutou a si mesma murmurar, mas não reconheceu a própria voz.
Ali, descansando sobre pedras de gelo, um par de mãos amputadas. No dedo anelar, uma aliança igual a que usava, o par dela.
Cauã.
Os membros se posicionavam de tal forma a segurarem um bilhete cartonado, no qual uma elegante caligrafia escrita com uma tinta viscosa dizia:
"Ele não vai mais tocar em você.
Não nesta vida, ou com essas mãos.
Você ainda não sabe, mas é minha.
Meus olhos estão sempre em você, boneca".
Aquele apelido bobo.
Boneca, era assim que Tom a chamava em cada sessão.
E ainda que Erica fingisse repreendê-lo, um pequeno sorriso sempre interrompia suas feições.
"Meus olhos estão sempre em você".
Ela leu novamente, horrorizada.
"Meus olhos estão sempre em você".
De repente, o vazio deu lugar a um coração disparado, o que não acontecia há tempo.
"Meus olhos estão sempre em você".
Erica leu outra vez.
Sorriu.
Tássia nasceu em 1991, em Santos, São Paulo, e hoje mora em Campinas com o marido e os filhos felinos. É advogada e filósofa.
Leitora voraz e aspirante a escritora desde a adolescência, começou a escrever fanfics de Harry Potter em 2007 e encontrou na literatura um espaço seguro para explorar sentimentos, conflitos internos e as contradições humanas. Entusiasta da filosofia nietzschiana, sua formação acadêmica atravessa sua escrita, mas é a inquietação emocional que conduz suas histórias.
Escreve dark romance desde antes de saber que este era o nome do gênero, explorando em seus textos fragilidades psicológicas e relações marcadas por amoralidade e obsessão.
A escrita é, para a autora, uma forma de encarar a realidade de maneira mais doce e controlada, construída a partir das imperfeições humanas.