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10 coisas que aprendi morando na China

10 coisas que aprendi morando na China

por Thaíssa Leone

Texto escrito em 2020, enquanto ainda estava morando em Pequim

Se alguém me falasse há alguns anos que um dia eu moraria na China, com certeza ia chamar essa pessoa de louca. (Eu, morando na China? Sem chance!) Mas, aqui estou, há 2 anos, vivendo na capital Pequim. E a verdade é que, mesmo sendo tão longe do Brasil, com um idioma tão complicado, a China me conquistou.

Quem mora no exterior sabe bem que as coisas não são fáceis, não importa o país ou o quão desenvolvido ele seja, a vida fora de casa não é um mar de rosas. Os desafios são constantes e todos os dias se aprende algo novo. Eu, por exemplo, aprendi muito sobre a China, sobre os chineses, e principalmente sobre mim mesma. Por isso, neste post, resolvi juntar de forma resumida 10 curiosidades desse país incrível que conquistou meu coração.

1. Tudo é sinônimo de grandeza

A China é o país mais populoso do mundo e o maior em território. E isso se reflete na arquitetura: prédios, ruas e avenidas são enormes, a grande maioria das construções são fascinantes, de deixar a boca aberta. Em Pequim, você consegue encontrar a maior tela de led do mundo, por exemplo. Os prédios são tão chamativos que refletem uma obsessão intrínseca por grandeza. Outra coisa interessante é que as obras ocorrem muito rápido e, da mesma forma que há sempre novos estabelecimentos sendo abertos, outros estão sempre fechando num piscar de olhos.

2. O povo chinês trabalha muito e ama dinheiro

Muitos chineses trabalham de segunda a segunda sem parar ou com apenas um dia de folga. Lembro que, quando trabalhava como tutora para famílias chinesas, era frequente encontrar uma figura de pai ausente. Teve uma casa, na qual trabalhei por seis meses, que se eu via o pai uma vez por mês era muito. Mas essa situação também depende muito da situação econômica de cada família. Ele era dono de uma empresa, trabalhava período integral e vivia em prol do trabalho, por isso a mãe não trabalhava, e era responsável pelo lar e pelos filhos. Em outros casos, ambos os pais trabalhavam e, por conta disso, a presença dos avós maternos e paternos era essencial no cuidado das crianças.

Por aqui, fazer trabalho extra é algo bem visto e é uma forma de ter sucesso na carreira. Os chineses se importam muito com eficiência no ambiente de trabalho e costumam respeitar a hierarquia sem questionar. Em sua maioria, eles são muito disciplinados e amam dinheiro. Durante as principais comemorações, em casamentos, graduações e no nascimento de bebês, é comum dar dinheiro como uma forma de presente. E eles adoram! É um jeito de dizer que se importam. No ano novo chinês, por exemplo, as crianças recebem dinheiro em envelopes vermelhos.

Na família em que trabalhei, eu vi crianças entre 5 e 11 anos recebendo valores exorbitantes, que chegavam a 1000 yuan (Isso, equivale aproximadamente a 750 reais!). Imagina o quanto um chinês junta recebendo essas "mesadas" de vários parentes chineses ao mesmo tempo. E ainda existe um tal de deus chinês, que as pessoas rezam para receber mais dinheiro, o "God of Wealth", em inglês ou ?? (Cáishén), em chinês.

3. Chineses são 8 ou 80, tímidos e evitam falar "não"

Desde que cheguei na China, notei que existe uma diferença gritante na comunicação deles em relação à nossa. Aqui, as pessoas adotam um diálogo indireto quando se trata de negócios e trabalho: elas dão uma volta enorme pra te dizer algo simples, como não, por exemplo. Eles, normalmente, não respondem ou arranjam uma desculpa, dizem algo de uma forma que não machuque ou cause mais problemas. Talvez isso seja uma tentativa de não se colocar em situações de risco e perder a "Face", conceito conhecido aqui que remete à reputação diante da sociedade. No entanto, fora do ambiente de trabalho eles são extremamente diretos e honestos com suas opiniões. Se eles te acham bonita, eles falam. Se eles te acham gorda, eles falam. Se eles acham que sua pele é muito branca, eles falam.

Tanto das crianças quanto dos adultos que conheci na China, a maioria deles é tímida. Sabe aquele estereotipo de asiático que é mais reservado e tímido? isso é real. Mas o que eu notei que as crianças no começo têm medo e se sentem desconfortáveis, e com o tempo elas se abrem mais e pegam confiança. Conheci muitas bem falantes e arteiras.

4. O pilares são família, educação e trabalho para um futuro bom

Na China, família é algo muito importante na vida de uma pessoa, tão forte que não importa o feriado, os chineses sempre reúnem os familiares e jantam juntos. Os idosos são muito respeitados, mas as crianças têm a total atenção de todos. A família toda se organiza em prol delas, na tentativa de oferecer as melhores condições e oportunidades. Normalmente, o pai é o responsável pelo dinheiro e a mãe é a chefe da casa, mas há muitas que também trabalham.

Quando ambos os pais trabalham, a presença dos avós é essencial na criação dos netos. Muitas famílias contam também com as "Ayis" (significa tia em chinês), que ajudam na limpeza e no cuidado das crianças. Por conta disso, em muitos lares, os pais por parte da mãe ou do pai moram juntos, ou seja, a casa vive cheia. Já vi uma família em que os avós paternos e maternos moravam junto com o casal e suas três crianças, e sempre tinham as "Ayis" para ajudar. Imagina quanta gente!

5. Tem gente do mundo inteiro aqui

Apesar de me considerar uma pessoa de mente aberta para o novo, acho que a minha visão de mundo ainda não é como eu gostaria e têm muitos lugares que ainda quero conhecer. Mas uma coisa que me surpreendeu muito na China é o quão internacional o país é, apesar de ter se aberto para o mundo há pouco tempo. Nesse boom, os chineses estão aprendendo mais inglês, e muitos estrangeiros vêm para cá pra trabalhar, estudar, fazer negócios e etc. Em dois anos aqui, conheci mais pessoas de diferentes países do que em todo o tempo que passei no Brasil.

6. É importante saber a diferença e respeitar

Ouvi de um chinês que as pessoas do ocidente só conseguem notar a diferença entre chinês, japonês e coreano quando visitam o país, e essa é a mais pura verdade. Foi somente morando em Pequim que realmente aprendi. Agora sei bem como é um chinês, mas a real lição foi compreender a importância de respeitar e não generalizar. Parece uma coisa estúpida, mas no Brasil ainda somos muito ignorantes em relação à cultura asiática. Muitos não sabem o quão diferente são esses países, não só em relação à localização, mas também cultura, aparência, moda e idioma.

7. Cultura antiga versus Modernidade

Sempre falo para as minhas amigas: Pequim conquistou meu coração! É uma das maiores cidades do mundo, tem gente de tudo que é nacionalidade, chinês de tudo que é lugar na China. A cidade é grande, limpa, com um metrô decente (mas que em horário de pico deixa a gente sem ar), e possui um jeitinho especial de misturar modernidade e antiguidade. Aqui tem de tudo, tem prédio grande e moderno, tem construções pequenas e antigas, que nem as Hutongs, que são ruas estreitas com lojas e moradias com um estilo chinês antigo. Não sou a melhor pessoa pra falar de estética ou de urbanização, mas que Pequim tem um toque diferente, tem!

8. Tecnologia, segurança e conveniência

Impossível não falar de tecnologia e conveniência, quando falamos de China. Aqui, encontramos um novo mundo de aplicativos e serviços. O Chinês, se puder, ele vai criar algo pra facilitar a vida das pessoas e você provavelmente vai comprá-lo no Taobao, aplicativo onde literalmente você acha de tudo para comprar com um preço acessível. Depois, vai dizer ao seus amigos que pagou a janta com o Wechat, outro aplicativo que eles usam como rede social e forma de pagamento online. Andar na rua sem bolsa, só com seu celular (de preferência com bateria) na mão, sem se preocupar em perder ou ser roubado, só na China eu vi acontecer. O que me faz lembrar que eu nunca me senti tão segura como me sinto aqui quando ando sozinha. Mesmo sendo mulher e estrangeira que não domina muito bem a língua, nunca tive problema. Os chineses, em sua maioria, foram sempre solícitos e fizeram questão de me ajudar quando precisei. Muitas vezes, o idioma foi um problema, mas com paciência e calma, dá tudo certo!

9. Comida chinesa não é o que você pensa

Não sei em outros países, mas no Brasil a comida chinesa é motivo de piada. As pessoas acham que os chineses comem só coisa exótica, que envolve muitos bichos como escorpião, morcego, cobra etc. Mas a verdade é que eu amo a comida daqui (Eu nunca nem experimentei nenhum desses animais e nem pretendo!) e a comida que a gente acha que é chinesa e come no Brasil tá bem longe da realidade. Meu prato preferido é ?????? (Xihongshi Chao Jidan), que traduzido para o português é simplesmente tomate com ovos mexidos. Aqui eles misturam com macarrão ou comem junto com arroz. Uma delícia!

10. A língua chinesa é muito difícil, mas igualmente interessante

Não entendo muito sobre as origens do idioma chinês, mas pense numa língua difícil! Quando você começa a estudar fica encantado, porque tudo é novo e belo, mas o tempo passa e você passa a respeitar as crianças chinesas, porque elas aprendem na escola junto com matemática, inglês e não surtam. Mesmo assim, não deixa de ser um idioma muito interessante: é uma longa jornada, mas entender os caracteres e finalmente ser capaz de ler te garante um passaporte direto para o nível "hard" do jogo do vida. E nunca é tarde para começar, até porque, tem gente que diz que no futuro o chinês vai ser essencial, porque a China vai dominar.

 

Thaíssa Leone

Olá, sou Thaíssa Leone. Sou jornalista, professora de inglês, escritora e apaixonada por cultura, idiomas, palavras, histórias e pelo desenvolvimento humano. Sou formada em Jornalismo pela Universidade de Brasília (UnB) e também venho aprofundando minha formação na área da escrita criativa. Minha trajetória profissional passou pela comunicação e pelo ensino de idiomas, incluindo uma experiência de alguns anos vivendo e trabalhando na China. Mas a escrita sempre esteve presente em minha vida. Como escritora, gosto de transformar experiências, questionamentos e aprendizados em textos. Escrevo principalmente sobre espiritualidade e autoconhecimento. Na minha newsletter Purificar-se, compartilho textos e reflexões sobre a jornada interior, a busca por Deus, espiritualidade e crescimento pessoal. Falo português, inglês e mandarim.