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Dez latas, uma batata

Dez latas, uma batata

por Tiago Ramos

Num bairro inacabado, um desses entrelugares, a velha acordou primeiro que o sol outra vez. A noite não tinha sido boa e isso nada tinha a ver com o calor ou com os insetos. A coceira vinha das latas; ou melhor, da falta de latas. Se não fosse assim, poderia dormir até tarde, dobrar com calma os lençóis do chão, ligar a TV só para ouvir as vozes e tomar café sentada, olhando nada pela janela.

Deitada, observou o filho de um jeito indecifrável; um filho enorme dormindo naquele chão, ao seu lado, há quase quarenta anos, sobre os mesmos lençóis velhos e furados, os travesseiros se tocando. Sem tirar os olhos dele, ela se apoiou em um dos cotovelos e pensou no dia que, finalmente, o aguardava lá fora.

***

O homem se arrastou cozinha adentro e não disse nada, porque já não havia mais ninguém. Se houvesse, também não diria. Pegou um copo de café aguado que encontrou sobre a mesa, observou demoradamente o lugar e derrubou o corpo na cadeira. Manteve baixa a cabeça. Olhou para o café, ou para o pano surrado da mesa, ou para o fundo do pano surrado, ou para o fundo do fundo...

De repente arregalou os olhos, saltou da cadeira e se enfurnou na sala, revirando convulsivamente todos os cantos do cubículo escuro, derrubando tudo ao seu redor.

Quando saiu de casa, com um uniforme que mal lhe cabia, o sol já queimava a vila. O homem então encheu e esvaziou o peito e, sem olhar para trás, correu descalço e troncho pelo caminho de terra batida, escapando do alcance de todas as janelas.

***

Ainda de madrugada, a velha começou a caminhar e pensou que Deus era bom, porque, na primeira esquina, encontrou duas latas de cerveja ao lado de um poste de madeira. Ela derramou o líquido restante de uma delas na terra, meteu-as na sacola e seguiu pela estrada com passos firmes e apressados até o amanhecer.

Após um tempo maior de andança, a dúvida surgiu, quando passou a ver de novo apenas manchas escuras e objetos sem valor. Às vezes se deparava com um ou outro perambulante. Os dois trocavam olhares vazios e depois continuavam, cada um no seu caminho.

Um deles, empurrando um carrinho de carga em um ritmo vertiginoso, tirou um fino da velha e foi se afastando até sumir do seu campo de visão por completo. Mas, por um breve momento, ela viu a distância entre eles diminuir e algo cair do carrinho. Apertou o passo para avisar. Desistiu – ele ia desaparecendo outra vez, deixando apenas o que de miragem se tornou realmente uma lata. Olhou ao redor, esperou. Olhou ao redor de novo, esperou um pouco mais. Colocou a lata na sacola, sem saber se aquilo era uma armadilha ou se o homem poderia ser bom.

À medida que o sol se erguia, a quentura açoitava as costas da velha, o suor fervia a cabeça enrolada no pano rasgado. O corpo se curvou; ela voltou a ficar ereta. Mas o corpo se curvou outra vez. A velha então apertou a sacola entre os dedos, se endireitou novamente, inflou as narinas e foi resistindo assim até a manhã se tornar tarde.

A tranquilidade evaporava mais e mais a cada esquina vazia, e uma sensação de girar em falso pesava no seu corpo. Tudo era poeira e calor. Sentia o sangue quente latejar nas têmporas, as pernas fraquejarem e um terrível mal-estar. Uma mão invisível lhe apertava qualquer coisa dentro do peito e era com muito esforço que puxava aquele bafo para dentro de si.

Viu com olhos turvos uma árvore solitária e desfolhada e cambaleou até ela como alguém que, despencando de um precipício, tenta se agarrar a um galho seco. A mão passou no vazio e a velha desabou no chão escaldante, por pouco não batendo a cabeça no canteiro de concreto que cercava a árvore.

Sem saber quanto tempo tinha ficado ali, começou a se erguer com dificuldade, espiando ao redor. Sentou-se amuada no canteiro. Deu tapas no rosto e no corpo para tirar a poeira, limpou o sangue dos joelhos com o vestido. Encostou na árvore, apoiando a cabeça no tronco morto, olhos fechados, e, de tão imóvel, parecia nem respirar.

Quis chorar, mas não soube como. Sabia era que as coisas não iam bem, que acordava cada vez mais cedo, que daqui a pouco seria melhor nem dormir, que o calor sufocava, que o sol machucava, que os pés doíam e os joelhos doíam e as costas doíam, que agora não tinha mais trabalho de lavar-passar-cozinhar-limpar, que só tinha as latas e que quando começou ali não havia mais ninguém. Deus, como estava perdida; como não reconhecia mais nada: nem o trabalho, nem a gente, nem a terra, nem o sol, nem o tempo, nem nada.

Após alguns instantes, com os olhos semicerrados, dolorida, a velha se apoiou no tronco e, aos poucos, se levantou. Ficou parada firmando as pernas. Depois pegou a sacola e pôs-se a caminhar bem devagar, exatamente embaixo do sol, e seguiu cruzando as esquinas, a poeira e a tarde.

De repente, parou. O corpo inteiro se enrijeceu. Em frente à única casa murada de uma rua miserável, seu entorpecimento deu lugar ao horror. Do portão, pendiam correntes grossas e um grande cadeado. Sobre o muro chapiscado, uma cerca de arame farpado armada cuidadosamente. Por toda a extensão da terra, amontoavam-se sacos de lixo e, de diversos lugares, escorria um líquido indiscernível. Era impossível saber ao certo de onde vinha o cheiro de podridão. Ela deu um passo para trás.

Era a casa da Dona. Pessoas como a velha quase nunca passavam por ali, tampouco mexiam no lixo. As que mexeram foram escorraçadas com pedradas e berros. E, depois das queixas de três ou quatro lixeiros feridos, muita gente garantiu que a mulher metia cacos de vidro e pregos nos sacos pretos. Passou a ser normal o lixo subir acumulado pelos muros dias e mais dias até que, visivelmente frustrada com a arapuca inútil, a mulher jogasse os sacos no valão.

A velha olhou para os lados, se aproximou da casa como um bicho desconfiado e começou a tatear levemente os sacos de lixo. Curvada, abriu um deles com cuidado. Tocou os resíduos do mesmo modo. Nada. Repetiu com outros. Nada. Enquanto desfazia um nó, ouviu pratos se quebrando, o estrondo de uma porta e latidos ferozes – um som mais próximo que o outro. Por um instante, o sangue sumiu das pernas; a respiração ficou suspensa. Mas de súbito enfiou com vontade todo o braço em um saco e, com uma expressão de dor lancinante, retirou-o imediatamente, assim como a mão cravada por um prego agarrado a um quadrado de madeira. Os olhos lacrimejaram.

Seu corpo então foi tomado por uma onda abrasadora. A velha arrancou da mão o prego ainda preso ao pedaço de madeira e o arremessou para longe. O sangue escorreu, perdeu-se no lixo, misturou-se com o líquido pestilento. Ela fincou os olhos injetados no céu, tirou do sutiã remendado um objeto pontiagudo inidentificável, que cravou com força em um dos sacos. Furou mais um. Depois outro, outro, outro, outro, e os furos já se estendiam a quase todos os sacos desordenadamente e se tornavam rasgos enormes, e o lixo ia se espalhando pela terra imunda, e o sol a despejar o combustível, o medo se acovardando e, depois dos incontáveis golpes, pela primeira vez em muito tempo, a velha sorriu. 

Cortou um pedaço do vestido, enrolou na mão e apertou o nó com os dentes. Ao olhar para cima, estacou novamente, mas sem horror: a mão fechada sobre a arma pairando na podridão do ar. Dona, atrás do portão, olhava a cena estupefata. A velha pregou duas bolas de sangue nela. Por alguns segundos, houve silêncio. Mas Dona começou a gritar e a xingar, enquanto procurava ao redor o que jogar na outra. Seu cachorro recuava para pegar impulso e se atirava rugindo contra as grades do portão, que cedia pouco a pouco. A velha se endireitou com uma firmeza espantosa, o corpo em postura combativa, apertou a arma e, no breve momento em que os olhares dos três se cruzaram, soltou um grito tão visceral, que imediatamente uma multidão passou a se formar na rua. Dona ameaçou abrir o portão, mas a velha voltou a urrar e se lançou sobre o lixo para destroçá-lo. E quanto mais Dona esbravejava, mais a velha arruinava tudo que aparecia pela frente – e por tanto tempo e de forma tão instintiva, que nem viu Dona se recolher de cabeça baixa, amarrar o cachorro, fechar a porta atrás de si e desaparecer.

A velha tombou o corpo no chão, apoiando as costas no muro. Permaneceu ali por um tempo. Seus olhos percorriam toda aquela devastação, mas ela não parecia se dar conta de onde estava ou do que havia acontecido. Nem sequer percebeu quando uma matilha descarnada se aproximou, rodeando e afocinhando o lixo. 

Começou a voltar a si quando ouviu um som familiar. Voltou de vez ao ver uma lata girar, lentamente, até os seus pés. Pegou-a com desalento. Mas, olhando ao redor, no meio de tanta imundície, seu rosto se iluminou: o chão estava repleto de latas. 

Engatinhando, a velha colocou apenas o necessário na sacola e, enfim, se levantou.

E, à medida que dava seus passos curtos pela rua, abria um clarão na multidão que olhava para aquilo tudo incrédula.

***

Anoitecia quando a velha subiu uma longa rua de paralelepípedos irregulares e chegou a um portão trancado. Ela bateu a corrente contra ele e emitiu um som primitivo. Tentou algumas vezes. Esperou. Nada aconteceu. Então espremeu o corpo entre o muro e o portão até conseguir entrar no terreno.

Parou em frente a um balcão de tábua de madeira suspenso por dois caixotes de cerveja em cada lado e ali deixou cair a sacola. De dentro de um cubículo sem porta, saiu um velho de olhos vermelhos trocando as pernas inchadas. Ele a encarou durante alguns instantes, mas não falou. Desfez o nó da sacola, contou como pôde as latas e enfiou uma das mãos no bolso da bermuda. Demorou até conseguir tirar dela algumas moedas, deu três à velha, jogou a sacola em um canto e se meteu no cubículo novamente. 

Imóvel, ela se encontrou observando por muito tempo o brilho das moedas sobre a mão suja de sangue... e sorriu pela última vez.

***

Ao longe, no caminho de terra batida, já era possível identificar a silhueta gigantesca do homem. Conforme se aproximava de casa, com o uniforme e os pés imundos, mais evidente ficava seu andar vacilante e desengonçado. Em frente ao portão, pôs a mão no peito, tentou se agarrar a algo que não encontrou e quase desabou.

Entrou na cozinha aos trancos e viu, na mesa posta, uma batata miúda, descascada, cozida e cortada; na sala, o corpo da mãe estendido sobre os lençóis velhos e furados.

 

Tiago Ramos

Tiago Ramos é formado em Letras (Português/Literaturas) pela UFRJ e possui especialização em Filosofia Contemporânea pela PUC-Rio. Atuou como revisor e copidesque no mercado editorial e participou da banca de correção de redações do Enem. Atualmente, é aluno do curso Formação de Escritores, da Metamorfose. Seus textos transitam por contos, crônicas e prosa poética.