por Victor Schoier
Às vezes sinto que um dia não vou conseguir mais escrever por falta de ideias. Pode ser que isso realmente aconteça, mas, até hoje, nunca tive problemas com falta de criatividade para uma história. Elas aparecem sozinhas, quase como mágica. No entanto, acredito que nada disso seja um dom.
A criatividade é algo que pode — e deve — ser cultivado. Para escritores e, de maneira geral, para artistas, existem alguns "macetes" que podem ajudar nesse processo. Não gosto muito desse termo, pois não se trata de técnicas que aplicamos e que produzem resultados imediatos ou mesmo a curto e médio prazo, mas de uma rotina, de uma postura diante do mundo — e da produção artística de outras pessoas. Falarei um pouco sobre o que faço para cultivar uma vida de produção e criatividade.
A leitura é a mais óbvia de todas, especialmente para nós, escritores. A maioria esmagadora das dicas de escrita criativa parte da premissa: "Leia muito". Não apenas leia muito, mas leia de tudo: fantasia, ficção científica, comédia, thriller policial, ficção histórica, mangás, biografias, filosofia, livros didáticos de história etc. Tudo isso se transforma em repertório dentro da sua cabeça e, pouco a pouco, você começa a estabelecer conexões entre as coisas que lê.
No meu caso, tento manter uma leitura de ficção e outra de não ficção ao mesmo tempo. Para esta última, separo uma hora do meu dia para ler e fazer anotações. O bom e velho estudo.
Gosto de manter o hábito de consumir obras audiovisuais, como filmes, séries e até mesmo produções asiáticas, como os animes. Dou prioridade aos filmes clássicos, daqueles que recebem o título de "você precisa ver antes de morrer". Como não tenho o privilégio de ficar o dia todo em casa fazendo o que quero vinte e quatro horas por dia, preciso dosar a quantidade de coisas que assisto para que isso não prejudique minha leitura e minha escrita. Monto listas do que quero ver e assisto aos filmes nos finais de semana. É um baita complemento.
De uns tempos para cá, estou tentando reforçar o hábito de manter um caderno de anotações. Por motivos de praticidade e organização, esse caderno acabou se transformando em uma pasta no computador chamada "arquivo morto", onde coloco anotações sobre as obras que consumo.
Sempre que leio um livro ou assisto a um filme, escrevo minhas impressões, tentando extrair as nuances do roteiro, dos personagens, do universo ficcional e do subtexto. É aqui que tento aplicar aquilo que estudo na Formação de Escritores ou nos meus estudos de roteiro.
Não gosto muito da ideia de ficar completamente passivo diante de uma obra. É como se ela entrasse por um ouvido e saísse pelo outro. Ao escrever sobre uma obra, você se força a pensar sobre ela. No mínimo, vai absorvê-la de forma mais eficiente.
Essa é difícil e é o meu principal problema: preservar o silêncio.
As ideias nascem em uma mente livre de ruídos e estímulos exagerados. Todo mundo já teve alguma ideia tomando banho — um dos raros momentos em que não estamos na frente de uma tela. Ou eu espero que seja, pelo menos.
Não consigo ter muitas ideias rolando o feed do Instagram por sete horas seguidas, nem depois disso. Quando você adota a prática de simplesmente não fazer nada, seu cérebro começa a digerir aquilo que consumiu, e isso é ótimo.
O desafio é não se perder nas redes sociais durante o ócio. Eu me conheço e sei que essa é uma luta difícil para mim, então tomei medidas extremas: cortei completamente as redes sociais e instalei bloqueadores no celular e no computador. Quando estou em casa, só consigo ler, assistir a filmes, escrever, estudar ou ficar parado olhando para o teto.
Sempre gostei muito de andar. Meus personagens nasceram na minha cabeça enquanto eu caminhava. Para mim, caminhar potencializa minha capacidade de criar e visualizar coisas. Às vezes, me emociono pensando em alguma cena envolvendo personagens que acabei de inventar.
Nada do que disse aqui me exime do trabalho de sentar e escrever sobre as ideias que tenho. Tenho muitas ideias, mas muitas delas são questionáveis. Parte do processo criativo é selecionar as melhores e transformar as ideias ruins em boas ideias.
Tudo o que listei aqui é o que faço para regar o jardim da minha criatividade e adubar o solo. Mas ainda preciso mexer na terra, colher os frutos, podar os arbustos e cortar a grama.

Victor Schoier é acadêmico em Filosofia e estudante de escrita criativa. Escreve ficção e ensaios sobre temas que inspiram sua curiosidade. Encontra nos livros, no cinema e na filosofia um ponto de partida para refletir sobre a condição humana.