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A Carta de Celina

A Carta de Celina

A Carta de Celina
           
Uma notificação no celular, largado sobre a mesa de apoio, desviou a atenção de Carlos. Metódico e disciplinado, ele a desprezou e continuou sua leitura. 

Era um homem maduro, solitário e, apesar das redes sociais serem uma das poucas formas de contato com o mundo exterior, foi apenas no dia seguinte que, ao abrir suas mensagens, se deparou com um post que homenageava a professora Celina, com quem se relacionou por muitos anos na sua cidade natal. A mensagem não deixava dúvidas: Celina morreu.

Uma tristeza profunda acometeu Carlos. Através da janela passou quase todo o dia olhando a chuva fina que caía no jardim. Seus pensamentos se alternavam entre as lembranças de Celina e a reflexão sobre a finitude da vida.
Relembrou quando eram muito jovens, alegres e cheios de vida, bem diferente da vida que ele passou a levar nos últimos anos.
E desta vez Carlos não se animou para seguir com sua leitura habitual. Os dias passaram a ser lentos e pesados. A consciência da irreversibilidade da morte e do longo período sem ter tido contato com Celina causaram nele um sentimento de arrependimento.
Numa manhã fria e nublada, Carlos decidiu vasculhar a caótica gaveta onde estavam envoltas, por uma fita encardida, as cartas enviadas por Celina. Ordenou cronologicamente antes de decidir se iria relê-las, tomando por base a data do carimbo do correio com a tinta já bastante gasta, mas ainda legível.
Ao apanhar aquela que seria a última carta enviada por Celina, notou que o envelope ainda estava lacrado. Isto deixou Carlos muito aflito. A incerteza sobre qual seria o seu conteúdo o corroeu. Segurou o fino envelope por muito tempo sem abri-lo. Tentou encontrar na sua transparência algo que revelasse uma frase ou uma palavra que lhe desse alguma pista. Mas foi em vão. 

Num impulso, como se auto sentenciando, foi até a cozinha. Com as mãos trêmulas, porém decidido, acendeu uma das bocas do fogão. Aproximou da chama o envelope ainda fechado. Observou a carta sendo consumida e as cinzas caindo lentamente.
Um cheiro de fumaça impregnou por alguns instantes o ambiente. Em seguida,
Carlos voltou à sala e retomou sua leitura solitária.

Nota: Este conto foi selecionado na categoria  "DESTAQUE" na Coletânea Prêmio Off Flip 2026 - Paraty, SP : Selo Off Flip, 2026.

Vilma Toloto

Vilma Toloto, natural de Ourinhos-SP, é Pedagoga, pós-graduada em Psicopedagogia (PUC-SP) e em Recursos Humanos (PUC-Chile). Desde a infância, encontra na leitura e na escrita um espaço de prazer e crescimento.

Na adolescência, passou a escrever poesias e contos, paixão que segue cultivando e aprimorando por meio de estudos contínuos. Teve experiências no teatro, que influenciaram seu olhar narrativo.

É autora do conto "Cartas que o tempo não apagou", publicado na coletânea "Toda forma de amor" (Editora Metamorfose). Em 2026, finalista da Flip Off, com o conto "A Carta de Celina", e da Festa Literária Internacional de Paraty, com o conto "Domingo", na antologia NÓS 4.