por Vilma Toloto
Após conferir os dados na etiqueta e assinar os documentos no balcão de atendimento, Ângelo caminhou em silêncio até o estacionamento. Segurava firme a urna. Durante toda a manhã, imaginara que receberia alguma coisa pesada, uma caixa difícil de carregar, como se noventa e cinco anos de vida precisassem de mais espaço. Talvez quisesse algo capaz de exigir algum esforço dele e lhe dar, ainda que de forma ilusória, a impressão de que uma vida tão longa conservava algum peso material neste mundo.
Colocou o recipiente sobre o banco do passageiro e ficou alguns instantes olhando para ele. Sentiu um estranho desconforto. Parecia inadequado mantê-la ali ao seu lado, ocupando o lugar de alguém que ainda pudesse conversar com ele durante o trajeto.
Ele se inclinou e a acomodou no assoalho atrás do banco. Tornou a reconsiderar, abriu o porta-malas do carro e colocou-a com cuidado ali, sobre uma manta de lã amarela. Ao lado, um guarda-chuva antigo, um daqueles objetos que Dalva insistia em carregar consigo, mesmo sob o céu azul.
Antes de fechar a tampa, Ângelo permaneceu imóvel.
— Vamos para casa, mãe — murmurou na garagem do crematório.
O carro seguiu pelas ruas sem pressa. Na primeira esquina, ele reduziu a velocidade diante de uma fileira de árvores floridas, um gesto automático que repetia sem perceber. Durante anos, Dalva costumava apontar para elas com admiração sempre que passavam por ali.
Bastava que ele dissesse "vamos dar uma volta" para que ela pegasse a bolsa, trancasse as portas e ocupasse o banco do passageiro com a curiosidade viva de quem ainda encontrava novidade nas mesmas ruas percorridas durante décadas. Às vezes, ela pedia que o filho continuasse dirigindo mais um pouco e ria:
— Ainda é cedo.
— A gente já está chegando, mãe.
— Então dá mais uma volta.
Ao chegar em casa, demorou a desligar o motor. Pensou em levar a urna para dentro, mas desistiu. Ao entrar, sua esposa Cristina perguntou se ele havia deixado a mãe no carro.
— Deixei — respondeu ele. — Achei que não devia trazê-la para dentro agora.
Cristina aproximou-se da janela e lançou um olhar pensativo para o veículo estacionado.
— E o que você pensa fazer agora?
— Ainda não sei — admitiu Ângelo.
Naquela noite, enquanto jantavam, o assunto voltou de forma natural. Ele sugeriu que talvez pudesse espalhar as cinzas sob um pé de ipê amarelo no cemitério por onde sempre passava durante suas caminhadas. Cristina o alertou com delicadeza:
— A sua mãe detestava cemitérios.
Nos dias seguintes, as sugestões continuaram, sugeriu o mar, mas Ângelo rejeitou a ideia de imediato:
— Água demais... Ela desapareceria muito rápido. Um minuto depois, ninguém saberia onde ela está.
Cristina permaneceu em silêncio.
Eles visitaram a praça onde Dalva costumava passar algumas horas observando o movimento. Sentaram-se diante do antigo banco de madeira. Cristina lembrou que a sogra adorava praça cheia de crianças, de cachorro correndo atrás de pombos, de ver gente e imaginar para onde cada pessoa estava indo. Ela apontava discretamente para os pedestres e inventava vidas inteiras com absoluta convicção. "Aquele homem está apaixonado", dizia ela. Ou: "Aquela moça acabou de pedir demissão". Ria de suas próprias imaginações. Mas a praça havia mudado, estava tomada por concreto, bicicletas e patinetes elétricos. Dalva não a reconheceria.
As semanas se passaram e a urna permaneceu no porta-malas do carro. No início, Ângelo abria o compartimento todos os dias para verificar se ela estava firme sobre a manta de lã. Depois, passou a verificar apenas de vez em quando, até que sua presença se tornou tão habitual quanto a do estepe.
Dalva continuou a acompanhá-lo em todos os lugares: ao banco, à farmácia, às consultas médicas e também nas tardes em que ele apenas dirigia sem destino.
Certo dia, no supermercado, um jovem funcionário ajudava Ângelo a arrumar as compras no porta-malas. Ao ver o rapaz estender a mão para apoiar uma caixa de ovos sobre a manta, avisou:
— Cuidado!
O rapaz parou o movimento e olhou confuso para o interior do carro, vendo apenas a pequena urna discreta.
— Desculpa — gaguejou, reorganizando os pacotes com extremo cuidado para deixar um espaço livre ao redor dela.
Com o passar das semanas, mantê-la ali começou a pesar. Durante um almoço de domingo na casa da irmã, ao ser questionado sobre onde estavam as cinzas, Ângelo revelou que a mantinha no porta-malas. Ela o acompanhou até o carro e na hora de se despedirem murmurou:
— Você continua carregando a mamãe para todo lado? O que você está esperando para tomar uma decisão?
A resposta veio numa noite fria. Cristina havia comprado ingressos para uma apresentação da orquestra sinfônica no centro da cidade.
Na saída do concerto, sob a garoa que salientava o brilho das luzes no asfalto, Ângelo procurou o carro no local onde o havia estacionado. O espaço estava vazio. Depois de alguns segundos, compreendeu: o veículo havia sido roubado.
— Levaram minha mãe — disse ele a Cristina, com os olhos fixos no vazio.
Na delegacia, ao registrar o boletim de ocorrência, o escrivão digitou a lista de itens perdidos: uma manta, um guarda-chuva e uma urna funerária com as cinzas de Dalva Rodrigues Ribeiro. Ao ouvir o nome de sua mãe reduzido a uma linha fria de registro policial, Ângelo sentiu-se sufocado por não saber onde a mãe estava.
Foram dias de angústia e insônia, imaginando o destino da urna, se estaria jogada em algum terreno baldio ou destruída pela violência do roubo. Até que, numa manhã chuvosa, a polícia ligou. O carro havia sido localizado. Estava em uma ribanceira na beira de uma estrada. Os ladrões haviam perdido o controle do veículo em uma curva.
Ângelo e Cristina foram até o local. Ele desceu a encosta escorregadia e viu a lataria retorcida entre os arbustos. O guarda-chuva jazia destruído a metros de distância e a manta estava presa nas ferragens. Mas lá dentro, incrivelmente intacta, estava a pequena urna. Ângelo a resgatou com as mãos trêmulas e a levou para o carro de Cristina.
No caminho de volta, tomou uma estrada de terra estreita entre árvores e pastos. A chuva diminuía, deixando no ar uma névoa fina. Após uma curva acentuada, a vegetação se abriu. Um vale imenso se estendia até as montanhas, com árvores floridas espalhadas pela encosta e um rio estreito que refletia a claridade suave do céu.
Ângelo desligou o motor, saiu do carro segurando firme a urna e caminhou até a borda do penhasco.
O vento soprava forte na sua nuca, desalinhando seus cabelos grisalhos e trazia consigo o cheiro fresco da terra molhada. Ficou alguns instantes olhando para a paisagem. Depois, abriu a tampa da urna.
Olhou uma última vez para as cinzas e murmurou:
— Você ia gostar daqui.
Inclinou o recipiente. O vento acolheu as cinzas e as carregou em uma dança leve e silenciosa para além da encosta.
Ângelo permaneceu ali, segurando a urna vazia contra o peito.
Vilma Toloto, natural de Ourinhos-SP, é Pedagoga, pós-graduada em Psicopedagogia (PUC-SP) e em Recursos Humanos (PUC-Chile). Desde a infância, encontra na leitura e na escrita um espaço de prazer e crescimento.
Na adolescência, passou a escrever poesias e contos, paixão que segue cultivando e aprimorando por meio de estudos contínuos. Teve experiências no teatro, que influenciaram seu olhar narrativo.
É autora do conto "Cartas que o tempo não apagou", publicado na coletânea "Toda forma de amor" (Editora Metamorfose). Em 2026, finalista da Flip Off, com o conto "A Carta de Celina", e da Festa Literária Internacional de Paraty, com o conto "Domingo", na antologia NÓS 4.