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As sandálias de tiras

As sandálias de tiras

Na zona rural de uma pequena cidade, três irmãs com pouca diferença de idade faziam parte de uma família de oito irmãos. Um número suficientemente grande para que ninguém soubesse ao certo onde terminava a fila da hora do banho. Enquanto os pais e os filhos mais velhos trabalhavam na lavoura, elas dividiam o tempo entre a escola do vilarejo e a arte de brincar até gastar toda a energia acumulada. O dia começava tão cedo que o galo, às vezes, parecia cantar em tom de lamento.

Desde pequenas aprenderam um truque: cobrir os pés com barro para evitar os espinhos da roça. E eram criativas nos modelos que inventavam. Havia as famosas botinhas de barro, que, para ficarem "menos grosseiras", ganhavam enfeites de flores do campo. Para quem nunca viu, era uma bela combinação entre o vermelho da terra e o colorido das flores.
Calçados não faziam parte da vestimenta das crianças; apenas os adultos usavam botinas para se proteger de acidentes com as enxadas afiadas ou até das picadas de cobra.

As três sonhavam em possuir sandálias de tiras. Íris, a do meio, um dia inventou um par com câmara de ar de pneu de bicicleta, mas duravam pouco, marcavam o pé e tinham um aroma de borracha aquecida ao sol que não era exatamente charmoso nem agradável. Mas valeu a intenção.

Até que, certo dia, Olívia, a irmã mais velha, ganhou de sua madrinha um par de sandálias de tiras, de verdade. Do tipo que brilhava na luz. Íris e Alice ficaram felizes por ela, mas com aquele fundo de tristeza de quem pensa: "Por que não eu, meu Deus?"

Olívia, por sua vez, sentia-se dona da joia dos calçados. Porém, logo percebeu que carregar tanto prestígio sozinha era injusto e sem graça. Decidiu, então, emprestar as sandálias às irmãs, mas com um contrato verbal mais rigoroso que regulamento de internato: nada de sujar, molhar ou devolver as sandálias mal cheirosas.

Íris e Alice aceitaram com entusiasmo e criaram um revezamento muito sério. Cada uma ia à escola uma ou duas vezes por semana com as sandálias e andavam como se estivessem desfilando na Praça da Matriz. Olívia ficava feliz em compartilhar, embora vivesse apreensiva, imaginando qualquer tragédia: uma tira arrebentada, um "ralado", uma mordida de cachorro.

Para organizar tudo, criaram uma espécie de agenda na última folha do caderno de Olívia.
Alice era quem estudava pela manhã, e por isso ganhou o primeiro turno das sandálias. O detalhe é que seus pés eram menores, e sobrava um pedaço da sola atrás, mas ela garantia que aquilo não a atrapalhava em nada; no máximo, fazia um pouco de barulho.

No primeiro dia em que coube à caçula levá-las, o desastre se armou. Alice, acostumada a passar descalça por todos os lugares, esqueceu completamente que estava de sandálias. Quando o sinal bateu, saiu correndo da sala como sempre, deixando o par estacionado debaixo da carteira.

Ao chegar em casa, Olívia logo perguntou:

— Cadê minhas sandálias?

Alice empalideceu. Depois corou. Depois empalideceu de novo.
— Meu Deus? esqueci na escola.

Formou-se ali um pequeno exército infantil, que marchou por alguns quilômetros até a escola, como se fossem resgatar um tesouro perdido.

A inspetora mandou que esperassem no pátio enquanto procurava o "objeto esquecido". O tempo se esticou como borracha velha. As três se entreolhavam em silêncio, formando expressões que iam do desespero à oração silenciosa.

Quando as sandálias foram finalmente recuperadas, Olívia sentiu tanta pena da irmã que, em vez de brigar, apenas reforçou os cuidados. Afinal, agora era um patrimônio coletivo. 

Semanas depois, as sandálias estavam tão usadas que precisaram de uma lavagem especial. As irmãs capricharam e, para secar mais rápido, Íris teve a brilhante ideia de colocá-las sobre o telhado do galinheiro que ficava exatamente ao lado do chiqueiro. Era um plano quase perfeito.

No fim da tarde, quando Íris foi buscá-las, encontrou um único pé da sandália no telhado. Ela gritou pelas irmãs, que vieram correndo. As três se aproximaram, espiaram por entre as frestas e lá estavam os porcos, mastigando os pedaços amarelos das tiras, como se fossem abóboras frescas.

E a vida não voltou a caminhar como antes.
 

 

Vilma Toloto

Vilma Toloto, natural de Ourinhos-SP, é Pedagoga, pós-graduada em Psicopedagogia (PUC-SP) e em Recursos Humanos (PUC-Chile). Desde a infância, encontra na leitura e na escrita um espaço de prazer e crescimento.

Na adolescência, passou a escrever poesias e contos, paixão que segue cultivando e aprimorando por meio de estudos contínuos. Teve experiências no teatro, que influenciaram seu olhar narrativo.

É autora do conto "Cartas que o tempo não apagou", publicado na coletânea "Toda forma de amor" (Editora Metamorfose). Em 2026, finalista da Flip Off, com o conto "A Carta de Celina", e da Festa Literária Internacional de Paraty, com o conto "Domingo", na antologia NÓS 4.