por Vilma Toloto
A Rural Willys do doutor Augusto já estava ligada quando ele perguntou à filha Marília se queria acompanhá-lo. Havia recebido um recado urgente: Amélia tinha começado a sentir as dores do parto.
Sem titubear, Marília subiu no carro e seguiram apressados para a Fazenda Águas Claras.
As estradas de terra pareciam não ter fim. Marília conhecia aquelas estradas de tanto acompanhar o pai nos atendimentos.
Quando chegaram à fazenda, um cachorro caramelo latia sem parar, mas o doutor Augusto não se deteve. Entrou depressa na casa, com a maleta de couro marrom nas mãos.
A irmã de Amélia estava na cozinha, aquecendo água e separando panos limpos. Colocou um banquinho de madeira do lado de fora para Marília sentar-se e esperar pelo pai.
O quarto de Amélia ficava nos fundos do casarão. Os gemidos de dor chegavam abafados até o terreiro, atravessando as paredes, o assoalho e a porta fechada.
Rosa, da mesma idade de Marília, aproximou-se.
— Marília! Vi você chegando com seu pai e queria saber se você quer brincar enquanto espera o nenê nascer.
O pai de Rosa trabalhava na fazenda. As duas estudavam na mesma classe. Dividiam a mesma carteira. Usavam uniformes, saias azuis de pregas e blusas brancas. Rosa chegava à escola com a roupa limpa e bem passada, como Marília, mas os pés estavam sempre cobertos de terra.
Levava os sapatos porque a escola exigia. No começo, pediam que ela os calçasse. Depois, deixaram de insistir. Rosa justificava dizendo que os sapatos machucavam seus pés e que não conseguia estudar por causa da dor.
Marília reparava sobretudo nos pés de Rosa, que tinham a cor da estrada.
— Você acha que vai nascer menino ou menina?
Rosa arriscou:
— Menina.
Pegou um graveto e começou a desenhar no chão.
— O que você está fazendo? — perguntou Marília.
— Uma estrada.
— Para onde vai?
Continuou o desenho, fazendo uma curva comprida.
— Para qualquer lugar.
Um pássaro cantou no alto de uma árvore.
— Está ouvindo?
— O quê?
— O bem-te-vi.
— Onde?
Rosa apontou para o galho mais alto. Marília demorou um pouco, mas conseguiu enxergar o pássaro entre as folhas.
O canto voltou a se repetir, claro e insistente, atravessando o terreiro. Marília pensou no silêncio da sala de aula, no modo como a professora erguia os olhos quando alguém cochichava, no cuidado que todos tinham de ficar quietos enquanto ela escrevia no quadro. Ali, o pássaro podia cantar quanto quisesse.
Rosa apontou o graveto para os pés de Marília.
— Você nunca anda descalça?
— Não.
— Quer experimentar?
— Meu pai não gosta que eu fique descalça.
Marília também pegou um graveto e desenhou uma casa, um lago e uma árvore.
Rosa voltou a olhar para os pés de Marília.
— Não quer mesmo tirar os sapatos?
O pai continuava lá dentro. Do quarto, veio outro gemido, mais longo dessa vez. Na cozinha, a irmã de Amélia colocou uma panela sobre o fogo. O assoalho rangeu. Uma porta se fechou.
Ouviram um choro forte, agudo, vindo do casarão.
Lembrou-se do que o pai sempre dizia: um choro forte era um bom sinal.
Decidida, Marília sentou-se no degrau, desafivelou as tiras dos sapatos de verniz vermelhos e os colocou ao lado. Tirou as meias bordadas com pequenas flores na lateral e ficou olhando para os pés, tão brancos sobre a terra.
Encostou a sola de um deles no chão. Estava frio.
A terra cedeu um pouco sob o peso do corpo. Uma formiga passou entre seus dedos e provocou uma cócega. Marília se mexeu, quase retirando o pé, mas permaneceu ali. Deu mais um passo. Sentia a textura irregular da terra, fria e macia em alguns pontos, áspera em outros. Sem perceber, ela deixou cair os ombros, como se tivesse soltado uma tensão que nem sabia que carregava.
Rosa sorriu.
— Não pisa aí.
Uma pedrinha espetou o pé de Marília.
— Ai!
Rosa riu.
— Como eu vou saber onde pisar?
— Eu mostro.
Rosa segurou sua mão e a levou pelo terreiro, desviando das pedras maiores, das raízes que apareciam entre a terra e dos pequenos galhos secos. Marília começou a prestar atenção ao chão. Já não olhava apenas para onde Rosa apontava; sentia antes de pisar, reconhecia com a planta dos pés o que era duro, o que era macio, o que podia machucar.
Depois Rosa soltou sua mão e saiu correndo. Marília foi atrás.
Correu até a cerca, voltou, correu outra vez. O vento bateu em suas pernas e levantou a barra do vestido. Os cabelos, presos com cuidado naquela manhã, começaram a se soltar.
Uma camada fina de terra cobria os dedos e começava a subir pelos tornozelos.
— Onde você mora? — perguntou.
Rosa apontou para uma casa pequena, de madeira.
— Vamos até lá. Quero te mostrar meu gato. Ele é lindo: preto de olhos azuis.
— Vamos. Adoro gatos, mas nunca tive um.
Começava a escurecer. Uma leve brisa fazia as folhas dos eucaliptos balançarem, e o cheiro verde das árvores misturava-se ao da terra aquecida durante o dia.
Ao chegarem à casa, Rosa abriu a porta da cozinha.
— O Pingo gosta de ficar aqui, que é mais quentinho.
Entraram pé ante pé para não assustarem o bichano.
Marília ficou impressionada com o chão duro de terra batida. Agora, descalça, podia sentir o frio e a textura daquele chão marrom, ligeiramente brilhante. Na cidade, os pisos eram lisos e limpos, e ninguém precisava olhar para baixo para descobrir onde colocar os pés.
Pingo estava dormindo perto do fogão de lenha.
Ao ver o gato, Marília se abaixou e acariciou a cabeça dele. Ele se espreguiçou, esticou as patas e rolou de um lado para o outro, entregando-se ao carinho.
— Ele gostou de você — disse Rosa.
Marília continuou passando a mão no pelo macio.
No caminho de volta, Rosa parou diante de uma mangueira carregada de frutas.
— Vamos chupar manga?
— Mas cadê a faca?
Rosa sorriu.
— Faca? Não precisa de faca. Quer ver?
— Quero.
Rosa apontou para as mangas mais baixas.
— Escolhe uma dessas. Você chupa a manga sem tirar do pé.
Marília escolheu uma.
Rosa mostrou como fazer.
Logo as duas estavam com o rosto amarelo e as mãos pegajosas. As mangas iam sendo chupadas até o caroço, que ficava pendurado nos galhos da mangueira. Marília riu quando o caldo escorreu pelo queixo.
Marília parou por um instante.
O riso morreu na boca.
Rosa continuou chupando a manga.
A terra havia se grudado à pele, misturada ao amarelo da manga e ao pó da estrada. Aquilo não lhe pareceu sujeira.
Um chamado veio do outro lado do terreiro.
— Marília!
Era o pai. O doutor Augusto caminhava em direção às duas.
Ao se aproximar, olhou primeiro para os pés da filha, depois para Rosa. Disfarçou um sorriso ao vê-la com os cabelos desgrenhados, o rosto amarelo de manga e os pés sujos de terra.
— Descalça, Marília? Eu já te expliquei várias vezes os perigos de andar descalça.
— Mas não aconteceu nada.
O pai quase sorriu outra vez.
— Acabou a festa. Temos que ir.
— Pena que acabou — respondeu Rosa.
Num impulso de contentamento, Rosa deu um salto para apanhar outra manga e, com a boca amarela, anunciou:
— Essa manga é minha. É manga-rosa!
— Agora temos que ir — disse o pai à filha, e ela o acompanhou.
Quando chegaram ao casarão, a irmã de Amélia ofereceu um café quentinho com bolo de fubá. Marília respirou fundo, como se quisesse guardar com ela o aroma do café moído na hora.
— Pai, nasceu menino ou menina?
— É uma menina — disse. — E ela chorou bastante.
— Posso ver a menina?
— Pode. Mas volte rápido.
O quarto estava mais silencioso agora. A bebê dormia enrolada num lençol branco.
Marília aproximou-se devagar e ficou olhando para aquele rosto enrugado, enquanto a menina dormia profundamente.
Voltou para o terreiro. O doutor Augusto colocou a maleta no banco de trás da Rural.
Rosa balançava a porteira num compasso de abrir e fechar, esperando que o carro passasse para então colocar a tranca.
Marília olhou para o casarão amarelo, para as janelas verdes, para Rosa e para a estrada que começava diante da porteira.
Calçou as meias e os sapatos de verniz. O couro vermelho, que pela manhã lhe parecera tão bonito, agora estava frio.
A superfície lisa e dura apertou seus dedos, que ainda guardavam a sensação do contato com a terra.
Ainda havia amarelo de manga no rosto.
— Vamos — disse o pai.
— Vamos.
Marília olhou para Rosa e entrou na Rural.
Dentro dos sapatos, mexeu os dedos. Ainda sentia a terra.
Vilma Toloto, natural de Ourinhos-SP, é Pedagoga, pós-graduada em Psicopedagogia (PUC-SP) e em Recursos Humanos (PUC-Chile). Desde a infância, encontra na leitura e na escrita um espaço de prazer e crescimento.
Na adolescência, passou a escrever poesias e contos, paixão que segue cultivando e aprimorando por meio de estudos contínuos. Teve experiências no teatro, que influenciaram seu olhar narrativo.
É autora do conto "Cartas que o tempo não apagou", publicado na coletânea "Toda forma de amor" (Editora Metamorfose). Em 2026, finalista da Flip Off, com o conto "A Carta de Celina", e da Festa Literária Internacional de Paraty, com o conto "Domingo", na antologia NÓS 4.