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Domingo

Domingo

Os almoços de domingo eram um momento especial na família de Marcelo. Ele se sentava na ponta da mesa de onde podia observar a todos: a esposa, as duas filhas e o filho caçula.

No ano seguinte, após Marcelinho completar dezoito anos, os almoços de domingo já não eram tão agradáveis. Os sentimentos de Marcelo ficaram embaralhados, comia de forma automática, estava sempre calado. Era comum lembrar-se de forma recorrente do parto do caçula, que valeu muitas comemorações por ser um menino.

Sobre a mesa de centro da sala havia uma pasta estampada com o nome Marcelinho. Dentro dela estavam todos os documentos pessoais dele. Recostado na poltrona verde-musgo, Marcelo alisava com os dedos os papéis do filho, como se o toque pudesse reverter a situação. Ele se deu conta e pensou — perdi meu menino.

Numa manhã de domingo, a cozinha exalava cheiro de café forte e de pão aquecido na torradeira, mas tudo parecia deslocado. Marcelo tomou rápidos goles de café e andou pela casa. No quarto de Marcelinho, as roupas sobre a cama e aquelas que se podia ver pela porta entreaberta do armário misturavam passado e presente.

Marcelo ficou ainda mais atordoado quando ouviu o motor da moto. Seu coração estava carregado de medo e incerteza. Ainda se sentia confuso em chamá-la pelo novo nome. Gabriela entrou devagar, com um olhar incerto. O silêncio foi quase insuportável. Ele respirou fundo e a olhou como quem encara o desafio do início de uma nova vida. Não enxergava mais Marcelinho e sabia que ele nunca mais voltaria.

Disse, com a voz embargada: — Meu desejo é que você seja feliz.

E Gabriela acrescentou: — Só quero viver de acordo com quem sou, e não como as pessoas e o meu corpo determinaram quando nasci.

Ela sorriu, Marcelo a abraçou, ainda um pouco confuso entre Marcelinho e Gabriela, mas com a certeza de que havia muito amor entre os dois.

Marcelo depositou os documentos antigos no fundo de uma gaveta cheia de tralhas. Ali, naqueles pedaços de papel, não estava o fim de nada, mas um recomeço. Deitou a cabeça para trás, fechou os olhos e escutou sua própria voz dizendo o que, por tanto tempo, resistira ouvir: o amor não tem gênero, apenas nome.


Nota: Este conto integrou o volume 4 da Coletânea NÓS - foi selecionado na categoria  "DESTAQUE" Prêmio Off Flip 2026 - Paraty, SP : Selo Off Flip, 2026.

Vilma Toloto

Vilma Toloto, natural de Ourinhos-SP, é Pedagoga, pós-graduada em Psicopedagogia (PUC-SP) e em Recursos Humanos (PUC-Chile). Desde a infância, encontra na leitura e na escrita um espaço de prazer e crescimento.

Na adolescência, passou a escrever poesias e contos, paixão que segue cultivando e aprimorando por meio de estudos contínuos. Teve experiências no teatro, que influenciaram seu olhar narrativo.

É autora do conto "Cartas que o tempo não apagou", publicado na coletânea "Toda forma de amor" (Editora Metamorfose). Em 2026, finalista da Flip Off, com o conto "A Carta de Celina", e da Festa Literária Internacional de Paraty, com o conto "Domingo", na antologia NÓS 4.